Onde está a verdade?

 

Há um belo desenho animado produzido pelo National Film Board of Canada que eu usava muito em minhas aulas de filosofia para começar uma conversa sobre conhecimento. Procurei versão do mesmo no Youtube. Não encontrei. E não consegui trazer para cá a versão que pode ser encontrada no site do NFBC. Por isso faço indicação de link onde interessados poderão ver o filme. para tanto, cliquem aqui.

Depois que os alunos viam “E”, eu lhes dava um exercício para que comentassem que aspectos do filem poderiam ser considerados tendo em vista a ideia de verdade. E no final eu distribuía minha versão que é a que segue.

Conhecimento e Realidade
Reflexões sobre É

Jarbas N Barato
Usjt/2004

O filme É apresenta uma idéia de senso comum: o grande É colocado no parque é reproduzido por pequenos és na cabeça das pessoas. Aparentemente não se usa o conhecimento já existente para interpretar a nova informação. Ou seja, a idéia de conhecimento presente no filme é a de que o nosso saber é resultado de cópias mentais daquilo que nossos sentidos percebem. Esse modo de ver o conhecimento é chamado de “teoria da página em branco”. O que isso quer dizer? Muita gente entende o conhecimento como conteúdo que pode ser impresso na mente (página em branco) das pessoas. O grande educador brasileiro, Paulo Freire, costumava dizer que esse modo de ver o conhecimento produzia uma “educação bancária” . Ou seja, uma educação que entende que a missão da escola é a de depositar o saber pré-existente na cabeça (vazia) dos alunos.

O filme tem outros detalhes sobre os quais vale a pena refletir. Quase todo mundo vê a imagem da nova estátua e a lê como é. Há, porém, um senhor que lê o É de modo diferente. E mesmo com toda a insistência dos outros leitores, ele não consegue ver aquela figura como um E. Mas um cientista encontra a solução: um par de óculos. Com a visão corrigida, o tal cidadão passa a ver o mundo como os demais. Onde estava o problema? Numa visão incorreta? Se for isso, podemos nos perguntar se a tarefa da educação é a de corrigir visões incorretas. Os óculos, no caso, representariam, um novo modo de ver o mundo. Com eles, uma pessoa, antes ignorante, teria os olhos abertos para a “realidade”. Mas ainda ficam perguntas: como calcular a graduação correta da lente para que o ignorante possa ver o novo conhecimento sem erro ou desvio? Ou, sendo bastante radical, quem tem a visão correta nesta história?

Tudo parecia resolvido em É até aparecer o rei. Ele não vê um é na estátua, vê um b. Consternação geral. Todo mundo quer ajudar. O povo insiste. O cientista mostra o caminho, oferecendo os óculos para Sua Majestade. Fica a sensação de que o problema foi resolvido: o rei está vendo o é. Mas, não. O rei continua com sua primeira opinião, apesar de todas as informações que o povo lhe deu e dos óculos que lhe foram fornecidos. E para complicar as coisas, o monarca quebra os óculos. Essa atitude sinaliza a proibição de uma visão diferente ou corrigida. Fica proibido o uso de óculos. Ou seja, fica proibida a visão discordante do pensamento real.Começa a imperar um conhecimento imposto.

A maneira de impor certo modo de ver em É é interessante. Os guardas chamados pela segurança do monarca mudam na pancada as representações que as pessoas tinham em suas cabeças. Isso mostra que não basta impor um modo de pensar, é preciso mudar nos agentes de conhecimento modos de ver o mundo. É claro que um “papagaio” sempre pode falsificar as coisas.

Destes comentários é possível estabelecer algumas conclusões:

O conhecimento, ao contrário da idéia da mente como uma folha em branco, é constituído pela nossa percepção do mundo interpretada a partir de nossos saberes anteriores.
Apesar das diferenças entre as pessoas, há uma boa chance de que elaboremos representações bastante parecidas de um mesmo objeto.

Vez ou outra aparecem visões diferentes. Elas podem ser “corrigidas” para que seus autores passem a ver como a maioria. Isso implica grande mudança e necessidade de algo para auxiliar as pessoas a terem novas visões.

Mudanças profundas de visão exigem transformações significativas no nível das representações mentais.

Ficam algumas perguntas:

É fácil ou difícil obter mudanças profundas nos modos de ver o mundo?

Temos o direito de operar tais mudanças?

A educação muda modos de ver o mundo?

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