Aprendizagem do fazer: Kerr

Apprenticeship

Um dia, em 1973, Maria Elisa, bióloga e professora do SENAC, me convidou para uma cerveja com a turma do Dr. Kerr no Caneca de Prata. Aceitei. Queria conhecer o famoso Warwick Kerr. E gostava muito da cerveja geladíssima do Caneca, assim como do cascudo e do jacaré que a gente petiscava no lugar.

A turma do Kerr tinha umas quatro dezenas de pessoas, pesquisadores e estudantes das áreas de ciências biológicas da USP de Ribeirão Preto. Gente animada. Boa de copo. Alegre. Interessante. E lá estava eu, o único que não manjava nada de ciências. Aproveitei a ocasião para observar aquela tribo.

Das minhas observações resultou uma piada pessoal. Conclui que qualquer jogo de futebol entre a turma do Warwick Kerr e do Isaías Pessotti, com ambos os mestres atuando como goleiros, terminaria sempre em zero a zero. Ninguém abandonaria a área do próprio time. Ninguém ficaria longe do mestre. A bola não rolaria pelo meio do campo. Mas, esse não é o assunto que aqui quero desenvolver. Minha observação sobre a turma do Kerr, passados quarenta e três anos, tem a ver agora com a relação mestre/aprendiz no campo da educação.

Antes de seguir em frente, vale uma observação sobre o Kerr e o Isaías. Eles eram (são ainda…) grandes cientistas. Kerr, um pesquisador de fama mundial na área de genética. Isaías, um dos maiores nomes da psicologia experimental no Brasil e outras partes do planeta. Ambos desenvolveram conjuntamente pesquisas sobre inteligência das abelhas. Kerr, verificando genética dos bichinhos. Isaías, estudando o comportamento daqueles insetos. Cabe uma informação incidental: Kerr é o responsável pela vinda das abelhas africanas para o Brasil. Descuido de um de seus assistentes resultou em fuga de um enxame de local controlado no campus da USP em Ribeirão. A partir daí, as africanas se cruzaram com as europeias e suas descendentes, muito agressivas, atacaram gente e bichos por toda a América. Mas, essa é outra história que posso contar qualquer dia desses. Preciso voltar ao foco: relação mestre/aprendiz.

A turma do  Kerr via no grande cientista um mestre. Tinha profunda admiração por ele e por sua arte. Eu disse arte. Não disse ciência. A moçada não acompanhava Kerr para aprender processos de pesquisa e princípios científicos. Toda aquela gente era bamba nessas coisas. Não precisava de aulas de um professor afamado sobre o assunto. O que eles queriam aprender com o Kerr era um feeling que o grande cientista tinha para criar experimentos admiráveis e fazer descobertas relevantes. Queriam aprender a fazer ciência. E Kerr não ensinava isso diretamente. Ele atuava como um mestre de ofício, colocando seus aprendizes em aventuras científicas empolgantes. Dava a eles apoio. Desafiava-os. Pesquisava junto com eles. Compartilhava uma visão de ciência no cotidiano de seus laboratórios e experimentos. Tudo isso explicava a grande admiração que todos tinham pelo mestre.

Minha observação sobre a relação mestre/aprendizes de Kerr com seus orientando e auxiliares decorre de um belo texto que acabo de ler,What Kind of Knowledge for the Vocational Curriculum?, de Jeanne Gamble, pesquisadora da África do Sul. Gamble elabora uma interpretação muito interessante sobre o saber tácito no campo da educação profissional e tecnológica. Há vários temas propostos pela autora que valem a pena serem explorados. Nesse momento considero a reflexão sobre relações de mestre/aprendiz no campo da pesquisa científica.

Gamble observa que cientistas que acompanham laureados pelo Nobel ou outros grandes nomes da ciência têm com eles relações de mestre/aprendiz muito parecidas com as mesmas relações existentes em corporações na Idade Média. Há um sentimento de grande admiração pelo mestre e por suas obras. Os aprendizes vêm até ele para aprender uma arte. A arte de criar coisas admiráveis no campo científico, não bobagens formais resultantes da aplicação de processos de investigação sem alma. Como já disse, ao falar do Kerr, os interessados vêm até o mestre para aprender uma “visão”. E o mestre não ensina diretamente, pois ele mesmo não revela sua visão por meio de palavras. Sua visão transparece naquilo que ele faz, não em um discurso.

Grandes cientistas, assim como grandes mestres das artes, desenvolvem um feeling em seus fazeres. Esse feeling é um saber tácito que não pode ser transformado em discurso. Ou, quando transformado em discurso, perde boa parte da sua substância. Esse saber tácito, anota Gamble, é uma visão. Grandes mestres veem o que lhes interessa de um modo diferente, original, criativo.

Vale aqui citar um longo trecho da obra de Gamble:

Kvale (1997) oferece um exemplo de como esse “sentimento” (feel) é desenvolvido quando cita entrevista de Kanigel sobre os mentores, alunos e colegas de Axelrod, que recebeu o Nobel pelo seu trabalho em farmacologia, assim como a investigação de Zuckerman sobre 92 americanos que receberam o Nobel em física, química e medicina. O argumento apresentado é o de que a principal razão pela qual cientistas promissores se tornam aprendizes de laureados do Nobel é a de adquirir um modo de ver os problemas científicos, de tal maneira que cheguem a uma “abordagem, um estilo, um gosto na boca ou um sentimento nas entranhas do que é ‘boa’ ciência” (Kanigel, citado por Kvale, 1997, p. 188)

Se ligarmos os argumentos a respeito de como conhecimento tácito e competência em ciência são adquiridos e argumentos aqui apresentados a respeito de como conhecimento tácito e competência são adquiridos no trabalho artesanal, chegaremos a uma fórmula: conhecimento tácito e competência são adquiridos por meio de relações de aprendizagem [aprendizagem no sentido corporativo clássico]. Aqueles que trabalham na vanguarda da realização científica não mais precisam  adquirir conhecimento substantivo  e técnicas uma vez que essas “partes” já foram adquiridas através de [muitos] anos de estudo de graduação e pós. O que eles aprendem trabalhando bem próximos ao mestre é o “sentimento” (feel) subjacente  ao coração da inovação científica. É por essa razão que os estudos citados por Kvale confirmam que a ciência permanece como um campo no qual algo muito parecido com a relação mestre/aprendiz ainda prevalece, com o próprio desempenho do mestre oferecendo um modelo a ser emulado (Kvale, 1997, p. 188-189). (p. 73-74)

Taí uma explicação bem completa para a admiração que vi entre os seguidores do Kerr em 1973. Todos aqueles pesquisadores e candidatos a cientistas tinham encontrado um mestre. Com ele estavam aprendendo a arte da ciência. Isso tudo tem pouco a ver com imagens de uma ciência que se faz com muita lógica e fundamentos bem arrumados em proposições expressas de maneira inequívoca. Eles não precisavam do Kerr para aprofundar tecnalidades. Talvez alguns deles dominassem mais certos processos de pesquisa que ele. Mas, isso não importava. Kerr era um criador, um mestre. No que fazia havia muito conhecimento tácito e competência que só seriam percebidos por quem com ele percorresse caminhos de investigação. Era importante ver o mestre fazer ciência. Era importante ter assistência do mestre em projetos científicos.

Na época em que conheci o Kerr, eu frequentava com certa frequência a turma do Isaías Pessotti. Ele também era um mestre e havia algumas dezenas de investigadores e candidatos a cientistas que o seguiam com fervor. E mesmo quem não era da área científica como eu, mas tinha o privilégio de desfrutar de bons momentos com o mestre, muito aprendia. Isaías, mesmo fora da ciência, era muito criativo. E creio que aprendi com ele algumas coisas de criatividade. Nada que seja possível formular em palavras. Creio que aprendi certo feeling, certa visão.

Faço essas notas como um registro de leitura do texto da Jeanne Gamble. Ela procura desvelar o que é o conhecimento tácito. Uma das conclusões é a de que tal conhecimento não cabe inteiramente na comunicação verbal. Parte do conhecimento tácito é uma disposição do  organismo. É um “balé” do corpo ou um estado da mente que sintetiza vários saberes num todo. É uma relação que comporta saberes e afetos simultâneos num mesmo agir. Mestres em qualquer área de conhecimento são capazes de manifestar tal conhecimento na ação. Por isso, é importante estar perto deles, observar e tentar incorporar esse saber de totalidade do conhecimento tácito.

Há pontes que podem ser feitas entre as considerações de Gamble sobre o saber tácito e certas epistemologias. Penso particularmente em Mark Johnson que propõe que todo saber tem como base uma “estética” entendida como nossa relação com o ambiente na busca de significados. Em outra ocasião vou explorar mais as ideias de Johson. Por agora fica apenas essa lembrança.

Volto ao começo dessa conversa. Kerr fazia arte, assim como Isaías. Um e outro grandes cientistas. E essa grandeza não era função apenas de saberes convencionais no campo das ciências. Assim como eles, há artistas em vários ramos de atividades, em enfermagem, em carpintaria, em cozinha, em literatura (talvez até em contabilidade…).  E para aprender em qualquer dessas áreas é preciso aproximar-se de mestres e, com a aprendizagem resultante, fazer-se mestre.

Encerro essas notas reafirmando que o ensino do saber tácito exige mestres e a aprendizagem no caso acontece na relação mestre/aprendiz. Sobre esse assunto, a pedagogia tradicional nada tem o que dizer.

 

Referência:

GAMBLE, JEANNE. What kind of Knowlwdge for the Vocational Curriculum? In MJELDE, L. & DALY, R. Working Knowledge in a Globalizing World: From work to learning, from learning to work. Bern: Peter Lang, 2006.

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