Novas tecnologias e mentiras bem intencionadas

A admiração pelas novas tecnologias da comunicação e informação produzem deslumbramentos. A gente deslumbrada perde a medida das coisas. Acredita que os milagres da internet vão mudar o mundo, vão mudar per se a educação. Para tanto, assimilam de maneira equivocada boas teorias e convertem-nas em panaceias. Acabo de ver uma delas em site indicado por uma amiga do Facebook.

No site indicado há uma matéria sobre “comunidades de aprendizagem”. O texto utiliza de maneira equivocada a ideia de que aprendemos com os outros. Destaco aqui as pérolas:

  • Você sabia que discutir um tema em grupo gera uma aprendizagem 1000% mais efetiva do que uma aula expositiva?
  • As discussões em grupo também proporcionam uma taxa de aprendizagem 500% melhor do que a leitura.

Essas duas informações utilizam números para passar ideia de que há pesquisa séria que mostra a efetividade do trabalho em grupo. Até onde sei, não há pesquisas assim. Há abordagens teóricas que sinalizam que a aprendizagem é social. Mas, as tramas do aprender são um fenômeno complexo que pode inclusive integrar aulas expositivas em percursos de aprendizagem significativa. Nenhum pesquisador sério diria que trabalho em grupo proporciona taxa de aprendizagem 500% melhor que a leitura. Isso é uma bobagem.

Os altos números referidos a atividades em grupo são utilizados para justificar usos de redes sociais como loci de comunidades de aprendizagem. Mas, do modo com as coisas são apresentadas, fica a impressão de que simples uso de um blog, por exemplo, produz comunidades de aprendizagem. Isso não é sequer má teoria. É pura empulhação.

Não me canso de repetir uma frase que ouvi da professora Allison Rossett: “tecnologia educacional não é uma questão de máquinas e equipamentos, é uma questão de cabeça”. E a situação me lembra também um alerta do meu amigo Steen larsen, grande educador dinamarquês: ” a sofisticação das propostas de tecnologia educacional não está nas tecnologias digitais, está nas teorias avançadas e sólidas de aprendizagem que dão consistências ao trabalho dos educadores”.

Não quero ir muito longe nessa fala. Paro por aqui. Fiz apenas um registro para mostrar meu desconforto com uma matéria que minha idade avançada me permite chamar de boba. Ou para ser cruel, uma matéria que conta mentiras bem intencionadas para promover usos de TI.

Para quem quiser ver a matéria que critico, clique aqui.

 

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