Nós na Rede

Acaba de sair Nós na Rede, livro de contos da minha amiga Ivete Palange. Todas as histórias tem enredo que inclui decorrências de uso de alguma tecnologia da informação. A autora me honrou com convite para que eu apresentasse a obra. Para que os amigos tenham uma ideia sobre o livro da Ivete, trago para cá minha apresentação de Nós na Rede.

 

Apresentação

 

Tecnologias alteram cenários e acrescentam novos atores aos dramas humanos. Mudanças acontecidas desde a segunda metade do século XIX, com o telégrafo, a fotografia, o cinema, o rádio, a televisão e o computador, ainda não são completamente entendidas em nosso cotidiano. Surpreendemo-nos com alterações que dão novas direções ao viver. E essas alterações podem trazer alegria ou tristeza, paz ou violência, vitórias ou derrotas. As consequências, numa ou noutra direção, tecem dramas sociais e individuais até então impensados.

Ivete conhece bem as tecnologias da informação e comunicação, assim como os cenários e atores que elas acrescentam aos dramas do viver. Ela usou largamente tais tecnologias em seu ofício de educadora.  

As ligações dos seres humanos com as ferramentas de sua invenção é um fenômeno bem conhecido. Agora essas ligações ganham contornos originais. Não temos mais apenas instrumentos que estendem as capacidades humanas. Temos também novos atores que são objetos de amor e ódio em suas interações com os seres humanos. Sherry Turkle, cientista do MIT, vem estudando há bastante tempo relações de afeto entre humanos e robôs.  Os encontros entre pessoas e esses novos atores sugerem dramas jamais sonhados.

O que Sherry aborda em seus estudos acadêmicos, Ivete nos mostra em histórias deliciosas nas quais as tecnologias fazem com que os personagens apareçam em novos enredos da velha paixão humana. Em cada história, a autora sugere reflexões sobre rumos da Sociedade da Informação e, ao mesmo tempo, nos surpreende com o pathos de personagens que vivem experiências inusitadas.

Neil Postman cunhou bordão que vale repetir: “a tecnologia dá, a tecnologia tira”. Há muito entusiasmo com a eliminação de distância nas relações entre os seres humanos, proporcionada pelas tecnologias digitais. Por outro lado, as supostas facilidades de contato podem gerar sentimentos de solidão. É isso que a protagonista de Avatar, uma das histórias de Ivete, experimenta: “Vivia a contradição do uso de tecnologia que aproxima aqueles que estão distantes e distancia as pessoas presentes na vida real”.

O tema da distância, alargada e encurtada, perpassa várias histórias. Na primeira história, Casamento a Distância, num mundo que ainda não conhecia computadores nem internet, o tema já aparece. E ele voltará várias vezes em dramas cujos personagens são entusiastas usuários das maravilhas eletrônicas que entraram definitivamente em nossas vidas. A gente não percebe todos os dramas que  acontecem quando as pessoas aparentemente esquecem o entorno e se concentram em suas telinhas. Ivete nos faz entender que esse enredamento, tão visível por toda parte, pode ser uma janela para paixões, medos amores, sofrimentos, alegrias, invisíveis para quem vê apenas pessoas entretidas com seus celulares.

Na minha leitura vieram diversas lembranças de obras ficcionais. Uma delas é Tia Júlia e o Escrevinhador, de Vargas Llosa. No romance do escritor peruano, Pedro Camacho, autor de radionovelas, transforma sentimentos dos ouvintes e de sua própria vida. Camacho e noveleiros viajam por mundos que jamais conheceriam sem as ondas do rádio. Num de seus contos, a autora nos leva aos tempos áureos do rádio. Mas, além do rádio, ela nos remete a outros mundos que computadores e internet estão criando continuamente. Em cada um desses mundos a aventura do viver vai ganhando contornos que Ivete nos mostra com muita beleza.

Na minha leitura, outro escritor apareceu várias vezes a dialogar com o texto, Alan Lightman, autor de Diagnosis. Lightman explora em seu romance decorrências dramáticas da fartura de informação  consumida sem qualquer freio. Essa fartura é examinada de modo agudo por Ivete, com decorrências que podem resultar em muita informação, mas pouco conhecimento. Esse é um aspecto que a educadora sugere continuamente à contista. Esse é um aspecto que, na leitura da obra, pode nos levar a pensar de modo mais equilibrado o uso de tecnologias e, ao mesmo tempo, perceber em cada história como os dramas humanos têm agora um mundo que se expande cada vez mais, embora as velhas paixões continuem as mesmas.

 Os personagens dos contos têm muito a ver com gente de carne e osso que conhecemos em nosso dia a dia. O livro de Ivete nos ajuda a entender melhor  novos cenários e personagens produzidos pelas tecnologias da informação e comunicação. E a autora nos oferece essa oportunidade de uma maneira muito prazerosa e gentil, por meio de histórias que dão aos novos espaços do viver rumos até agora desconhecidos.

 

 

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