Tecnologia e Tempos Modernos

 

Em meus tempos de professor de tecnologia educacional, eu costumava utilizar o filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, como referência para conversas sobre tecnologia e cultura. Após o filme, eu passava um subsídio para leitura dos alunos. Eventualmente, tal subsídio podia vir, em diversos parágrafos, com toda quinta palavra oculta. E os alunos eram desafiados a recuperar o texto original fornecendo as palavras faltantes.

Pra quem interessar e pra antigos alunos que passarem por aqui, reproduzo a seguir o subsídio. Acho que o escrevi no final dos anos de 1990. Mas, minha cópia, arquivada nos meus guardados, é de 2002.

Novas Tecnologias e Cultura
Tempos Modernos

Jarbas Novelino Barato
USJT 2002
Novas tecnologias da informação e comunicação (TIC) são constituídas por artefactos físicos e artefactos mentais. Os artefactos físicos geralmente são ferramentas (mecânicas e eletrônicas) que expandem as capacidades humanas de olhar, falar, manipular. Substituem memória. Expandem possibilidades de classificar, armazenar e recuperar informações. Os artefactos mentais também são ferramentas, mas não são tangíveis. São também expansores das capacidades humanas, sobretudo da capacidade de pensar; criar e manipular símbolos; memorizar; classificar eventos, fenômenos e objetos, etc. Todas as tecnologias – físicas e mentais – causam profundas mudanças no meio ambiente cultural. Elas redesenham corpo e alma dos homens. Conhecer, analisar e criticar isso é tarefa importante em educação. Não há uso inocente das TIC’s.

No cinema, desde a década de 1920, aparecem filmes para abordar o rumo dos impactos causados pela tecno-ciência. A primeira película voltada para o tema, Metrópoles, de Fritz Lang, é um clássico.

O imortal Carlitos produziu outro clássico na mesma linha: Tempos Modernos. O filme de Charles Chaplin tem algumas características que merecem nossa consideração.

O filme abre com um imenso relógio que ocupa praticamente toda a tela. Por que tanto destaque para o relógio? A resposta tem a ver com a importância dessa máquina na vida nossa de cada dia. O relógio é a primeira máquina “abstrata”, que não imita qualquer princípio ou fenômeno natural. A máquina em questão estabelece uma ordem imutável, períodos perfeitamente equivalentes, possibilidade de articulação de ações simultâneas, controle. Não é por acaso que o filme de Carlitos abre com um relógio que domina a tela. É uma alegoria. Na verdade o relógio domina a vida. A nossa vida.

Na fábrica de Tempos Modernos, a grande novidade é uma tecnologia da eficiência baseada em estudos de tempos e movimentos. Engenheiros procuravam encontrar o tempo ideal para cada gesto, para cada giro de uma ferramenta, para o ritmo da linha de montagem. Fabricar mais e mais depressa era o ideal. Como já observei, ao falar do relógio, o que se queria eram tempos determinados artificialmente por funcionamento de máquinas e equipamentos. Tempo natural, tempo humano, desaparece ou resulta em prejuízo para a produção. O ritmo humano tem de, necessariamente, adaptar-se ao tempo da eficiência. O que determina cada gesto, cada movimento são máquinas (linha de produção e relógio), não a anatomia humana.

Na fábrica, o funcionamento das máquinas é decidido por um gerente insensível, interessado apenas em resultados da produção. A ordem, o tempo abstrato do relógio e o controle invadem inclusive a vida pessoal dos trabalhadores. Muito tempo no banheiro merece advertência do gerente. Alimentar-se pode vir a ser algo de interesse para a empresa se máquinas eficientes puderem garantir almoço sem perda de tempo ou movimentos menos econômicos.

A idéia tradicional de que máquinas e equipamentos são extensão do homem é invertida. Carlitos é um extensão (um complemento) da máquina, do sistema. O homem se torna uma máquina de suas próprias máquinas. Mas o homem não é uma peça a mais apenas na hora de produzir, a mecanização do trabalho transforma o trabalhador. E ele continua com os gestos e movimentos mecânicos depois que sai da fábrica.

No filme, Carlitos é literalmente engolido pelo sistema (pela grande máquina). A nova tecnologia produz um novo homem, gerado no útero da máquina. Isso, obviamente, tem desdobramentos importantes em termos de cultura e educação.

Os Tempos Modernos hoje são outros. Carlitos não seria mais um complemento de um formidável monstro mecânico. Provavelmente seria um laborioso usuário de computador. A máquina não mais amoldaria seu corpo, sua anatomia. Almodaria sua mente. Esses são desdobramentos possíveis das novas tecnologias que invadem nosso espaço cotidiano. Como já disse, não há uso inocente de TIC’S.

Há saídas? Claro que há. Elas exigem um pensar inclusivo sobre o uso das novas tecnologias. Nem deslumbramento de compradores ignorantes, nem condenação mal humorada do progresso. Precisamos abordar as novas tecnologias com cuidado e inteligência. Precisamos reconhecer as possibilidades que nos oferecem de mais inteligência. Precisamos, também, de equilíbrio para não abandonar velhas tecnologias que possuem certas virtudes que as novas não têm.

 

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