Escola Fortaleza

school securityAs escolas se parecem cada vez mais com fortalezas. Muros altos. Vigilantes em todos os portões. Restrição a saídas dos alunos sem acompanhamento de adultos. Circuitos internos câmaras de TV. Catracas. Em algumas escolas americanas há inclusive controle para verificar se alunos não carregam algo de metal. E os pais aparentemente apoiam tais medidas. Querem mais e mais segurança para seus herdeiros. Como diz o título deste post, as escolas de hoje são fortalezas.

A escola fortaleza, entre outras coisas, se propõe a proteger os alunos contra os perigos da cidade. O pressuposto é o de que as cidades são locais violentos, impróprios para crianças. Estas vêm de casa protegidas por adultos, quase sempre em veículos que estacionam em frente do portão de entrada, evitando que estudantes circulem, mesmo que seja por alguns metros, pelas calçadas.

É comum ouvir-se a afirmação de que é preciso tirar as crianças das ruas. Tal bordão refere-se a crianças das classes populares. O que está por trás disso é outra ideia do perigos das ruas: um lugar onde se aprende apenas o que não presta. Por isso, é preciso substituir a vida nas ruas por “sadias” aprendizagens dentro dos muros escolares. Tirar crianças das ruas, nessa direção, é uma forma de proteger a sociedade.

A escola fortaleza decreta o fim de aprendizagens autônomas das crianças. Estas, segundo o pensamento hegemônico, devem viver sempre protegidas em casa e na escola. Eventualmente poderão ir a playground, outro local que fica cada vez mais “seguro” e onde as crianças só brincam sob estrita vigilância de adultos.

Preocupações com segurança como as aqui indicadas acabam criando crianças com muita dependência, excessivamente protegidas. Nessa história, aprendizagens autônomas vão para o brejo.

O educador Francesco Tonucci propõe um caminho completamente diferente das rotas hegemônicas que resultam na escola fortaleza. Ele acha que as crianças também devem aprender nas ruas. Devem circular com independência pelas cidades. Devem ir sozinhas para a escola.

As ideias de Tonucci podem ser concretizadas num projeto chamado de Cidade das Crianças (La Città dei Bambini). No âmbito desse projeto, as crianças desempenham um ativo papel na humanização do tecido urbano. Exigem mais espaço para brincar nas ruas. Exigem diminuição de espaço para automóveis. Circulam livremente pelas ruas. E para espantados adultos, Tonucci diz que não é muito difícil mudar as coisas em nossas cidades. Caso haja vontade política, ele calcula que em dois ou três meses haverá condições para que as crianças possam andar pela cidade sem serem vigiadas.

O educador italiano afirma que o medo é muito maior que os perigos da cidade. E o medo prospera, pois políticos e meios de comunicação o promovem. Os políticos usam o medo para prometer medidas de segurança. Para eles, o medo é um ótimo ingrediente para criar dependência nos eleitores. Os meios de comunicação usam o medo como atração, como componente de um espetáculo. Basta dar uma olhado no sucesso de qualquer programa que dá grande destaque para a violência. A consequência é um cuidado exagerado com as crianças, privadas de qualquer oportunidade para experimentarem situações em que possam vivenciar o mundo sem a vigilância dos adultos.

Tempos atrás, numa estada no Chile para promover seu projeto da Cidade das Crianças, Tonucci concedeu uma entrevista de quinze minutos a um programa de TV. Trago para cá tal entrevista, pois assim interessados poderão conferir as ideias do educador italiano a favor de uma cidade mais humana e contra a escola fortaleza.

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