Archive for 7 de dezembro de 2015

Escola Fortaleza

dezembro 7, 2015

school securityAs escolas se parecem cada vez mais com fortalezas. Muros altos. Vigilantes em todos os portões. Restrição a saídas dos alunos sem acompanhamento de adultos. Circuitos internos câmaras de TV. Catracas. Em algumas escolas americanas há inclusive controle para verificar se alunos não carregam algo de metal. E os pais aparentemente apoiam tais medidas. Querem mais e mais segurança para seus herdeiros. Como diz o título deste post, as escolas de hoje são fortalezas.

A escola fortaleza, entre outras coisas, se propõe a proteger os alunos contra os perigos da cidade. O pressuposto é o de que as cidades são locais violentos, impróprios para crianças. Estas vêm de casa protegidas por adultos, quase sempre em veículos que estacionam em frente do portão de entrada, evitando que estudantes circulem, mesmo que seja por alguns metros, pelas calçadas.

É comum ouvir-se a afirmação de que é preciso tirar as crianças das ruas. Tal bordão refere-se a crianças das classes populares. O que está por trás disso é outra ideia do perigos das ruas: um lugar onde se aprende apenas o que não presta. Por isso, é preciso substituir a vida nas ruas por “sadias” aprendizagens dentro dos muros escolares. Tirar crianças das ruas, nessa direção, é uma forma de proteger a sociedade.

A escola fortaleza decreta o fim de aprendizagens autônomas das crianças. Estas, segundo o pensamento hegemônico, devem viver sempre protegidas em casa e na escola. Eventualmente poderão ir a playground, outro local que fica cada vez mais “seguro” e onde as crianças só brincam sob estrita vigilância de adultos.

Preocupações com segurança como as aqui indicadas acabam criando crianças com muita dependência, excessivamente protegidas. Nessa história, aprendizagens autônomas vão para o brejo.

O educador Francesco Tonucci propõe um caminho completamente diferente das rotas hegemônicas que resultam na escola fortaleza. Ele acha que as crianças também devem aprender nas ruas. Devem circular com independência pelas cidades. Devem ir sozinhas para a escola.

As ideias de Tonucci podem ser concretizadas num projeto chamado de Cidade das Crianças (La Città dei Bambini). No âmbito desse projeto, as crianças desempenham um ativo papel na humanização do tecido urbano. Exigem mais espaço para brincar nas ruas. Exigem diminuição de espaço para automóveis. Circulam livremente pelas ruas. E para espantados adultos, Tonucci diz que não é muito difícil mudar as coisas em nossas cidades. Caso haja vontade política, ele calcula que em dois ou três meses haverá condições para que as crianças possam andar pela cidade sem serem vigiadas.

O educador italiano afirma que o medo é muito maior que os perigos da cidade. E o medo prospera, pois políticos e meios de comunicação o promovem. Os políticos usam o medo para prometer medidas de segurança. Para eles, o medo é um ótimo ingrediente para criar dependência nos eleitores. Os meios de comunicação usam o medo como atração, como componente de um espetáculo. Basta dar uma olhado no sucesso de qualquer programa que dá grande destaque para a violência. A consequência é um cuidado exagerado com as crianças, privadas de qualquer oportunidade para experimentarem situações em que possam vivenciar o mundo sem a vigilância dos adultos.

Tempos atrás, numa estada no Chile para promover seu projeto da Cidade das Crianças, Tonucci concedeu uma entrevista de quinze minutos a um programa de TV. Trago para cá tal entrevista, pois assim interessados poderão conferir as ideias do educador italiano a favor de uma cidade mais humana e contra a escola fortaleza.

Encantamento com novas tecnologias

dezembro 7, 2015

De vez em quando leio ou ouço declarações de muito entusiasmo sobre uso de novas tecnologias em educação. Ouço e leio também promessas de um novo paraíso educacional caso as escolas embarquem na nova era da informação. Infelizmente, tanto otimismo não se confirma na prática. Não há, até o momento, dados confiáveis de que usos de novas tecnologias tenham produzido educação de qualidade muito superior ao que se conseguia antes com recursos modestos como livros, quadros negros, aulas magistrais etc.

Não sou inimigo das novas tecnologias. Acredito que elas têm potencial enorme em termos de tratamento da informação para fins de aprendizagem. E, inclusive, já produzi bastante coisas utilizando novas tecnologias de comunicação e informação. Mas, sempre tenho um pé atrás quando vejo declarações demasiadamente entusiasmadas sobre computadores, internet, tecnologias digitais and so on.

Algumas vezes os entusiastas vão longe demais. Num evento da Associação Brasileira de Tecnologia Educacional, ali pelo ano de 1987, meu amigo Jorge Fróes me recomendou a comunicação de uma professora que estava utilizando de modo muito criativo o Apple IIe. Aceitei a sugestão do Fróes e fui para a sala onde a moça iria fazer sua exposição. O trabalho que ela fazia nada tinha de excepcional. Ela usava softwares educacionais bem limitados, não por culpa dela, mas pela própria limitação do Apple IIe, assim como pela falta de imaginação dos autores dos programas educacionais para aquela saudosa maquininha. Mas, o entusiasmo da moça era muito grande. Aquilo me incomodou. E acabei saindo da sala antes do final da comunicação, quando a professora declarou “encontrei Deus no computador”.

Não vou aprofundar esses meus comentários sobre entusiasmos desmedidos com as novas tecnologias. Eu apenas introduzi o tema para deixar aqui registrada uma observação do meu amigo Steen Larsen sobre fascinação com os novos meios de informação e comunicação. Vamos pois à observação do grande educador dinamarquês.

Não há dúvida de que as novas tecnologias da informação abrem portas para que possamos alcançar melhores resultados em educação, mas isso não é garantido. No momento vemos uma fascinação planetária com as novas tecnologias que ocasionalmente tem cara de messianismo e onipotência. Novas tecnologias [dizem os entusiastas] irão resolver todos os problemas, e miraculosamente converter as salas de aula tradicionais em áreas poderosas de aprendizagem…

Fascinação sempre se baseia numa certa dose de ignorância. Quanto menos você sabe, mais você será uma vítima dessa fascinação que se apresenta de dupla forma: como deslumbramento de tecnófilos, ou como resignação de fatalistas que acham que a tecnologia tudo pode. (Steen Larsen)