Blogs e aprendizagem

Entre os meus guardados há um texto de entrevista que dei para uma publicação da rede Pueri Domus. Nunca soube se meu texto foi publicado, pois a Pueri Domus não me deu feedback depois que lhes enviei respostas às perguntas que recebi. Resolvi retomar aquele velho texto e publicá-lo em pedaços aqui no Boteco Escola. A matéria revela muito do que aprendi publicando blogs no ambiente educacional.

 
Publicação Pueri Domus:
_ Os blogs podem funcionar como uma ferramenta pedagógica eficiente? Qual a vantagem em usar os blogs no ensino? Eles representam uma boa estratégia para atrair os alunos para o estudo?

 
Jarbas Novelino Barato:

 
_ Eu não daria aos blogs o nome de ferramenta pedagógica. Quando se faz isso acontece o empobrecimento de algo que não é bem entendido. Sempre temo a ânsia dos educadores que querem usar novos meios de comunicação humana sem entendê-los muito bem. Isso pode acontecer com os blogs.

Acho que, em primeiro lugar, é preciso ter uma boa visão do que são blogs no campo da comunicação humana. A partir disso, a gente pode conversar sobre possíveis ganhos educacionais em usos de tal alternativa de comunicação em nosso mundo. Pesquisas ressaltam que os blogs são principalmente locais de encontro onde se pode conversar com liberdade, sem imposições, com muita espontaneidade, dizendo a própria palavra. Essa característica dos diários eletrônicos não é evidente. Ela só é percebida quando examinamos, no tempo, o desenvolvimento de blogs de sucesso.

Autores que mostram a importância dos blogs como um local de encontros humanos significativos costumam comparar essa forma de comunicação do ciberespaço com a antiga praça pública (ágora) das cidades gregas. Tal praça era o local onde se exercia uma democracia direta. Há ainda outras comparações muito utilizadas. Uma delas é a que vê os blogs como algo parecido com os cafés do século XIX, espaços públicos de encontro onde se discutia cultura, política, literatura etc. sem qualquer censura.

Conversar, esse é o verbo que melhor define o funcionamento de um blog. E uma característica importante da conversa é o interesse imediato aliado à surpresa. O que quero dizer com isso? Não convém “pedagogizar” os blogs, convertendo-os numa ferramenta para passar conteúdos previamente estruturados. Em bons usos dessa alternativa de cibercomunicação o que se espera são aprendizagens não reguladas. Ou seja, aprendizagens que nascem de um processo que se constrói na direção daqueles famosos versos de Antonio Machado: “caminante no hay camino, se hace camino al andar”. Isso parece muito pouco pedagógico, pois o que estou dizendo aqui é que a aprendizagem será consequência do blogar, mas não é possível prever que resultados serão obtidos desde o começo.

Há muitos blogs que se convertem num instrumento de controle docente e são usados para discutir a “matéria”, passar recados do professor, registrar opiniões dos pais etc. Provavelmente tal modo de usar pode funcionar bem, mas ele empobrece demais a natureza original dos blogs. Melhores usos desse modo de comunicação são aqueles em que a proposta é a de criação de um espaço para conversas sobre temas de interesse do autor (professor e/ou aluno). Isso tem muito pouco a ver com programas escolares. Um autor (individual ou coletivo) desenvolve um blog colocando mensagens (posts) destinadas a um público que tem interesses semelhantes.
A expectativa de todo blogueiro é a de que seus posts serão lidos por interessados e, se possível, comentados. Além disso, os blogueiros esperam que algumas de suas mensagens ecoem pelo ciberespaço (ou seja, a glória de um blogueiro é saber que algo que ele disse está sendo comentado em outros blogs ou páginas da Web).
Convém mostrar, a partir do que disse até agora, algumas características do blogar. Autores de blogs geralmente experimentam:

• um sentimento de que podem se expressar com liberdade
• certa alegria em perceber que seus posts vão clareando (para si próprios) seus interesses, conhecimentos, gostos, modos de pensar
• uma visão do evoluir do próprio pensar na medida releem suas mensagens e veem as direções que elas vão seguindo
• surpresas, na medida em que posts, comentários e outras ocorrências vão lhes trazendo conhecimentos de um modo fluente e sem esforço aparente
• estabelecimento de relações de amizade com parceiros do ciberespaço (blogueiros com interesses semelhantes ou pessoas que lhes passaram informações que ampliaram seus interesses e modo de ver o mundo ou assuntos que rola nos blogs)
• um sentimento de confiança ao saber que suas mensagens sensibilizam pessoas em locais distantes ou até em outros países
• um sentimento de encontrar a “própria turma” no ciberespaço

Acho que poderia listar mais coisas, mas os pontos que levantei já são suficientes para a gente perceber a riqueza educacional dos blogs. Eles são acima de tudo ferramentas que podem colocar as pessoas em encontros no ciberespaço. Essa circunstância provavelmente vai expandir interesses e resultar naquilo que estou chamando de “aprendizagem não regulada”. Essa é a grande vantagem de usar blogs no ensino, pois um bom blogueiro é um aprendiz e ensinante do ciberespaço. Aprende ao tentar dar sentido à sua fala por meio dos posts. Aprende ao receber comentários de seus leitores (companheiros de papo). Ensina ao emitir opiniões, falar que sabe de um modo espontâneo, dar prosseguimento a conversas iniciadas por comentários. Aprende ao conhecer novos sítios e espaços Web indicados por seus leitores. Ou seja, a grande vantagem dos blogs é a de que eles, se usados com liberdade e sem imposições, são um instrumento de ensinar e aprender por meio da conversa. E mais, como são uma dimensão do ciberespaço, proporcionam a seus autores a possibilidade de ingressarem em comunidades virtuais sem muitos limites de idade, formação, nível escolar, espaço etc.

Atrair os alunos para o estudo não me parece ser uma função dos blogs, se a atração no caso for entendida como uma forma de amenizar a necessidade de estudos. Me explico. Há uma tendência de ver o uso novas tecnologias em educação como algo agradável e até divertido. A partir desse entendimento muitas pessoas (meus alunos inclusos) acham que as novas tecnologias podem amenizar a “chatice” do estudo. Há dois equívocos nisso: equiparar estudo a entretenimento (na verdade o estudo está mais próximo do trabalho que do lazer), equiparar diversão a prazer (grandes prazeres nada têm a ver com artes circenses, mas com experiências humanas profundas).

Acho que a grande vantagem das novas tecnologias é a possibilidade de abrir novos campos de aprendizagem. No caso dos blogs, o que mais me encanta é a possibilidade de um aprender completamente diferente daquele proporcionado por ferramentas mais antigas.

Uma resposta to “Blogs e aprendizagem”

  1. O peso do smartphone « EP Darcy Ribeiro Says:

    […] BLOGS https://jarbas.wordpress.com/2015/05/07/blogs-e-aprendizagem/ […]

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