Microcontos: história de um desafio

Algum tempo depois que atingimos a meta de mil e poucos microcontos, num blog que editei com obras de velhos amigos do SENAC, escrevi texto que poderia ser prefácio para nosso sonhado livro de microcontos. O livro não saiu. O candidato a prefácio ficou guardado nos meus arquivos até agora. Mas, acho que o texto precisa de uma chance na internet. Por isso, vou publicá-lo aqui. Para matar saudade. Para relembrar um bela aventura de arte com letras.

 

História do desafio
Jarbas Novelino Barato
Um grupo de aposentados do Senac São Paulo, reforçado por profissionais que estiveram muitos anos na casa e hoje trabalham em outros endereços, produziu estes mil e poucos microcontos. Pode parecer que o feito é uma dessas invenções criadas para ocupar gente da “melhor idade”. Mas, não. As muitas histórias mínimas, que resultaram nesta coleção de pequenas jóias e bijuterias feitas de palavras, surgiram acidentalmente.

Tudo começou quando eu andava a procura de algum desafio que ajudasse meus alunos a perderem o receio de escrever. Em minhas buscas acabei encontrando um grande movimento de microliteratura na Internet. Textos curtos e criativos, contando ou sugerindo histórias com muita economia verbal, um achado perfeito para os sonhos literários de cibernautas. Assim, escritores pouco ou muito conhecidos embarcaram na publicação de blogs para fazer circular suas obras. Essa paixão pelas letras casou-se com as urgências de nosso tempo. Tudo rápido. Tudo imediato. Tudo para um aqui e agora que se sucede em parcelas cada vez menores de tempo. Personagens, cenários, enredos, dramas, tramas precisam ser mostrados de modo imediato. Essa literatura instantânea e acomodada em blogs já foi antecipada em outros espaços de comunicação. Frases em camisetas, dizeres em cartazes, mensagens de humor e sabedoria em para-choques de caminhões, textos em filipetas de todos os tipos com pretensões de vender políticos e produtos vários, painéis de muitas naturezas por toda parte, frases em adesivos que enfeitam para-brisas de automóveis e vidros de janelas de adolescentes exigem economia de palavras. Ao mesmo tempo, o limite de espaço desafia o escrevinhador a achar construções imaginosas que conquistem imediatamente o leitor. Em todos os casos a leitura se dá num relance de olhos. Mas as mensagens que valem a pena querem conquistar espaços permanentes na imaginação de quem as lê. O jogo é interessante. E o desafio comunicativo nesses espaços limitados exige estratégias de composição que podem ser muito criativas.

Uma das vantagens da microliteratura é a possibilidade do autor ver sua obra pronta em muito pouco tempo. Isso alimenta um prazer de criar que emerge assim que o artesão das letras faz, em pequenas peças, obras completas. Em outras palavras, a microliteratura possibilita uma fruição quase que imediata do prazer de criar arte com as palavras. E era algo assim que procurava para meus alunos.

Mas eu não queria levar para a sala de aula ou para o laboratório de informática a literatura mais sofisticada de autores famosos do ciberespaço. Queria algo produzido por gente comum, pois pretendia mostrar que fazer arte com as letras não é um privilégio raro. Para tanto embarquei na onda e escrevi alguns minicontos que poderiam servir de exemplo. Mas não fiquei satisfeito com minhas produções. Eu precisava testar a idéia num meio que compreendesse a questão e se animasse a colaborar comigo na campanha de incentivo à escrita por meio de microliteratura. Lembrei-me então da comunidade virtual formada por aposentados do Senac São Paulo. Os membros da comunidade encontram-se no ciberespaço por meio de uma lista. Escrevi uma breve mensagem sobre microliteratura pedindo aos companheiros da lista colaborações na forma de minicontos. Deu certo. Recebi em pouco tempo mais de uma dezena de minicontos. Consegui belos exemplos para as minhas aulas.

Provavelmente tudo teria cessado num círculo de conversa e produção de minicontos para suprir necessidades de um professor preocupado com a baixa estima de seus alunos pelas letras. Mas um dos membros da lista, o Zeca Ildefonso, lançou um desafio: produzir na comunidade os “Primeiros Mil Microcontos” e publicar a obra em livro. O desafio foi aceito imediatamente. Cerca de uma dezena de aposentados do Senac São Paulo estava irremediavelmente conquistada pelos prazeres de produzir peças de microliteratura. Faltava apenas um espaço para publicar as produções que iam surgindo com muita velocidade. Para isso criei o blog “Primeiros Mil Microcontos”, que foi colocando na Web de modo imediato criações de mais de vinte autores. A produção, no início, chegou a picos de cem histórias numa única semana. Parecia que a meta seria atingida em três meses. Esse ritmo febril durou até mais ou menos a produção dos primeiros quinhentos microcontos. Na segunda metade, as coisas caminharam mais devagar, com uma produção que não chegava à meia centena por semana. No processo, mais autores apareceram. E o empreendimento literário dos mil e poucos microcontos acabou sendo obra de mais de duas dezenas de contadores de histórias mínimas.

Alguns esclarecimentos precisam ser feitos antes de continuar a história do nascimento do Primeiros Mil Microcontos. O primeiro deles refere-se ao nome das produções literárias que ocupou aposentados do Senac e simpatizantes por sete meses seguidos. No começo achei que o gênero de microliteratura que estávamos produzindo poderia ser chamado de minicontos. Este, aliás, foi o nome que utilizei nos primeiros comunicados para os meus alunos. Mas, um alerta do Carlos Seabra e a descoberta da Casa das Mil Portas, do Nemo Nox, começaram me trazer informações mais precisas sobre o tipo de histórias mínimas que começamos a produzir. A partir de então, adotamos definitivamente o nome de microcontos. O segundo esclarecimento refere-se a conceito. Em A Casa das Mil Portas, espaço que publica microcontos de blogueiros lusos e brasileiros, as histórias mínimas não podem ultrapassar o limite de cinquenta letras. É um critério exigente e tradicional. Resolvi propor algo um pouquinho mais liberal, textos de no máximo sessenta letras. Mas um erro de edição substituiu letras por palavras. E se o erro não fosse corrigido teríamos microcontos gigantes, uma aberração na terra da microliteratura. Outro alerta do Carlos Seabra pôs as coisas nos trilhos. Adotamos o critério de microcontos com cento e cinquenta toques [espaços incluídos]. O critério não é arbitrário. Ele já existia no universo da literatura em novos meios de informação e comunicação. Acontece que as telinhas de celulares têm espaço para um máximo de cento e sessenta toques. Assim, uma mensagem completa para tais telinhas fica em torno dos cento e cinquenta toques, sobrando um espaço de dez toques para a assinatura do autor ou autora. Essa definição nos pareceu boa pois coloca limites físicos determinados por um dos instrumentos mais populares das comunicações em nossos dias. Ao mesmo tempo, a fronteira estabelecida é bastante mais liberal que a norma da meia centena de letras. Um limite mais folgado acabou se mostrando uma medida justa para escrevinhadores com pouca prática nas artes do texto mínimo. Mesmo assim, os novos microcontistas nem sempre se continham e as histórias mínimas ultrapassavam a margem dos cento e cinquenta toques. Mas com tempo e prática, os autores foram dominando a arte de muito comunicar em espaços diminutos.

No parágrafo de abertura, falei em joias e bijuterias. E é isso mesmo. Algumas das pequenas histórias aqui publicadas são joias. Outras são apenas bijuterias feitas por diligentes artesãos das palavras. É preciso lembrar que os autores não são profissionais das letras. Eles e elas são pessoas que trabalham ou trabalharam no Senac. Sonharam e sonham com as artes. Têm muitas histórias para contar. Gostam de desafios. Têm muita imaginação. Mas começaram a produzir microcontos apenas a partir do desafio proposto pelo Zeca Ildefonso. A publicação do blog, portanto, foi uma oficina de aprendizagem. E como nas velhas oficinas dos artesãos dos tempos pré-industriais, os aprendizes aprenderam fazendo. Quem acompanhou o blog desde o início percebeu a melhora constante dos microcontos contados pela comunidade dos antigos trabalhadores do Senac São Paulo.

A oficina artesanal na qual se fabricaram mais de mil contos mínimos ensinou muitas lições. A primeira delas foi a de que homens e mulheres maduros podem aprender e criar coisas novas. A segunda foi a de que os tais microcontos são um formato muito interessante de produzir arte com as letras. A terceira foi a de que na comunidade dos aposentados do Senac São Paulo há um número grande de pessoas que apreciam o prazer de escrever. Muitas dessas pessoas estavam escondendo talentos. A oportunidade de escrever microcontos fez com que tais talentos emergissem com humor, histórias originais, invenção, elegância, surpresa, arte, provocação. Nada escapou. Memórias dos tempos de trabalho no Senac. Memórias da infância. Crítica social. Política. Amores. Desenganos. Paixões, resolvidas, esquecidas, permanentes. Literatura. Cultura. História. Trabalho. Religião. Arte, artistas, arteiros. Passado. Presente. Futuro. Aliterações. Imaginação. Contas a pagar. Contas a receber. Aqui e ali, coisas que são patrimônio de um passado comum e que, talvez, não sejam entendidas por gente da nova geração. O conjunto dessas produções artesanais emocionou os autores e primeiros leitores.

A oficina artesanal ensinou mais. Ela mostrou uma tendência que pesquisadores do saber descobriram recentemente: conhecimento e aprendizagem são empreendimentos de comunidades de prática. E prática, no caso, é algo com muitos significados. Os autores refletiram nas obras suas práticas no trabalho e na vida. Práticas de amores, paixões e fazeres. Práticas de viver. Um outro sentido da palavra foi a experiência de produzir histórias numa comunidade virtual, numa prática social novíssima que só se tornou possível com a popularização do ciberespaço. Quem acompanhou a produção viu que alguns autores a princípio tímidos foram se soltando aos poucos. E cada autor foi aprendendo com os outros autores. Às vezes uma história contada por um autor abriu caminho para histórias paralelas criadas por outros autores. Assim, embora cada autor assine suas histórias, o conjunto inteiro é verdadeiramente uma obra coletiva, fruto da aprendizagem de pessoas que ensinaram a aprenderam a arte dos microcontos.

Há organizações que marcam muito fortemente as pessoas que por ela passaram. O Senac parece ser uma dessas organizações. As experiências vividas nos fazeres de educação profissional criaram certa cumplicidade que não desapareceu com o tempo. Os aposentados e antigos trabalhadores da casa têm algo em comum. Têm um espírito muito particular. Sem essa marca da organização, a possibilidade de produzir mais de mil microcontos seria impossível.

As colaborações aconteceram de acordo com os ritmos e ousadias de cada autor. Alguns apareceram de quando em quando com umas poucas histórias. Outros apareceram com muita constância e com muitas histórias. Houve até quem aparecesse uma única vez com um único microconto. Certamente houve gente que acompanhou todo o processo mas não se arriscou a contar suas histórias talvez querendo mais espaço que os limitados cento e cinquenta toques no teclado. Vez ou outra, amigos ou convidados enviaram microcontos. Tais histórias foram publicadas no blog embora sem a necessária numeração para a devida contagem na busca da meta dos primeiros mil microcontos.

O empreendimento da comunidade dos aposentados do Senac São Paulo foi descoberto por cibernautas, alguns deles microcontistas do Brasil e de outras terras. Assim, por exemplo, nosso blog passou a ser citado como blog amigo pelo ‘Mil e uma pequenas histórias’, do blogueiro Luís Ene, de Portugal. Em Espanha, Carlos Santos, do blog Sekeirox, também citou os nossos microcontos como uma referência. No Brasil, Fátima Franco, blogueira de encantadores espaços para contos infantis, adotou-nos como ciberamigos. Quando os autores, na segunda metade da produção, pareceram ter perdido o pique, chegaram muitas mensagens de pessoas que nunca se encontraram com qualquer dos antigos trabalhadores do Senac São Paulo, pedindo mais histórias e incentivando os contistas a cumprir a meta dos mil ou mais microcontos. Assim, além do incentivo de gente da casa – principalmente os atuais trabalhadores do Senac São Paulo – a aventura de escrever microcontos recebeu apoio de leitores distantes que se encantaram com o desafio criado na comunidade dos antigos trabalhadores das casas do comércio paulista.

A meta foi atingida. Os mil e poucos contos estão contados. Mas a obra não está terminada. A vontade de contar mais histórias continua. Mas a maior história já foi contada: a história de que escrever com arte é um desafio ao alcance de todos aqueles que se encantam com as letras.

2 Respostas to “Microcontos: história de um desafio”

  1. Francisco de Moraes Says:

    Tive o prazer de ser um dos velhinhos com alguma produção de microcontos nesse blog. Se minha conta estiver correta, foram publicados 26 deles, classificáveis na categoria de artesanato de aprendiz.

  2. Adauto de Andrade Says:

    Buenas!

    E por que não publicá-lo?

    Existem diversos serviços na Internet que viabilizam isso, através da “impressão sob demanda”. Foi assim que consegui realizar o sonho de publicar meu livro com os “causos” lá do blog.

    Aliás, comecei meio que por experiência, publicando o “Livro da Família Andrade”. Vi que o negócio funcionava e a impressão era de qualidade. Daí publiquei o “Filosofices de um Velho Causídico”. Não contente, dali ainda saiu outro filhote: “Criança dá Trabalho”.

    E já estou arquitetando os próximos…

    Dê uma olhada. O site é o http://www.clubedeautores.com.br . Vale a pena. E, se você publicar, garanto que eu compro!🙂

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