Arte do trabalhador

Albarda, 2012 (Pereiro)

Qualquer trabalho é uma arte. Nos dias de hoje, com o esvaziamento do trabalho, o império das máquinas e a invasão de sistemas que subordinam pessoas a rotinas acabamos nos esquecendo da estética mais significativa do viver; a estética de obras que o trabalhador produz, mudando o mundo e mudando seu próprio eu.

A arte do trabalhador aparece com muita frequência em romances. Personagens que produzem alguma coisa quase sempre manifestam seu orgulho por uma obra bem feita, bonita. Em minha recente releitura de O Joio e o Trigo, de Fernando Namora, fiquei encantado com um trecho em que o grande romancista mostra o orgulho de um artesão, um seleiro.

Joana, uma das protagonistas da história, encomenda uma albarda (arreio de animal de carga) para a burra da família. O profissional diz que a sela ficará pronta em três dias. No dia combinado, Loas, marido de Joana, vai buscar a albarda. Mas, o seleiro tinha sumido. Loas sai atrás dele pela região e fica sabendo que o profissional está exibindo a albarda por toda a parte. Finalmente o dono da burra consegue encontrar o seleiro numa taberna. Este lhe dá uma explicação que copio a seguir:

_ Olhe, meu amigo _ insistiu _, isto é uma albarda como você nunca viu na vida. E eu não podia lha entregar sem que pelo menos meia dúzia de pessoas a vissem. Sim, mostrei-a por aí, como obra-prima que é. Todos nós temos um bocado de brio com aquilo que nos sai das mãos. Não tinha esse direito? (p. 202)

Tempos depois, Namora descreve como Loas falava da sela que adquirira :

Sempre que se referia à albarda, recordava o homem da taberna. Ali estava um bom tipo, um artista, destes que dão valor às coisas, que têm sentimentos. Se fosse alguém capaz de perceber de lavoura, tê-lo-ia convidado para fazer parte da courela. Talvez ele pudesse amar a terra ou um animal, como sabia amar a arte que, por magia, lhe saía das mãos grosseiras. (p. 206)

Os dois pequenos trecho do romance de Fernando Namora tem muita substância sobre trabalho e valor. Uma dia quero usá-los num artigo sobre educação e trabalho que aborde a estética do feito em obras de trabalhadores identificados com seu ofício. Por enquanto fico com as citações,achando que elas podem sugerir reflexões interessantes para quem esteja no campo da educação profissional e tecnológica.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: