Discurso de Formatura

Faz tempo que prometi tornar público o meu discurso na formatura de Pedagogia, 1972. Cumpro agora essa promessa.

Antes de reproduzir o discurso, alguns esclarecimentos. Minha turma era a da tarde. Alguém sugeriu meu nome para orador da turma. Pedi às minhas amigas e meus amigos que não fizessem isso. Todos sabiam que eu não era bem visto pela repressão e pela direção da faculdade. Eu disse que não gostaria de passar por constrangimentos. No ano anterior, eleito representante de classe, não pude exercer minhas funções. Fui destituído pelo diretor da faculdade antes de tomar posse. Minhas explicações foram aceitas e fiquei tranquilo. Duas semanas depois, o convite de formatura trazia meu nome como orador da turma.

Conversei com a comissão de formatura da minha classe. Reclamei. Fui então informado de que a decisão de colocar meu nome no convite fora da turma da noite. Numa classe que não era a minha, fui eleito por unanimidade. Não tive mais o que fazer, fui preparar o discurso.

Escrevi um discurso que fugia um pouco do convencional. Mas, não fui muito longe. Não queria qualquer problema com a repressão e, ao mesmo tempo, precisava elaborar uma fala que correspondesse ao desejo da maioria dos meus colegas. Não compus uma grande peça de oratória, mas acho que dei conta do recado.

Alguns dias antes da formatura, num gesto de calculada rebeldia, fui até a sede da circunscrição militar de Ribeirão e entreguei cópia do meu discurso ao coronel que me vigiava. Disse a ele que o militar a ser destacado para ouvir minha fala na formatura já iria sabendo o que eu ia dizer.

Na foto, apareço discursando, com mesa das autoridades e coral ao fundo.

formatura 04

 

DISCURSO DE FORMATURA: TURMA DE PEDAGOGIA DA FFCL BARÃO DE MAUÁ
RIBEIRÃO PRETO – DEZEMBRO DE 1972
JARBAS NOVELINO BARATO

Queremos, inicialmente, agradecer. Agradecer nossos pais, direção da faculdade, professores e todos que, de uma ou de outra maneira, tornaram possível este momento. Gostaríamos de deixar lavrado um agradecimento todo especial. Nesta hora de reconhecimento de nossa dívida pessoal para com todos que participaram diretamente da nossa formação, não poderíamos deixar de reconhecer nossa dívida social para como povo brasileiro. Graças a esse povo que tem construído este país com sacrifício e suor – e mesmo com sangue – foi possível que ocupássemos por tanto tempo os bancos escolares, embora uma maioria significativa deste mesmo povo tenha tido até hoje pouca ou mesmo nenhuma oportunidade de educação escolar. A esse povo, o nosso povo, o agradecimento de todos nós.

Certamente todos aqui presentes gostariam de saber o que nós pretendemos profissionalmente e o que nós pensamos a respeito da Educação. Tentaremos responder essas questões. Porém, sabendo que as palavras são insuficientes, queremos reafirmar o princípio já conhecido de que não há melhor resposta para tais questões que o trabalho, a ação. Esperamos, em nossa vida profissional, poder colocar em prática os princípios que julgamos corretos na ação educativa. E, ao mesmo tempo em que solicitamos a todos que exijam de nós coerência entre ideais e ação, pedimos que nos dêem oportunidades para realizar aquilo que pretendemos.

Nossas pretensões profissionais não dependem apenas de nossa boa vontade ou de nosso preparo profissional. Numa hora de mudanças no campo da Educação, como está ocorrendo hoje, depende da efetivação dos projetos de Reforma. Os ideais reformistas, desde a Lei de Diretrizes e Bases, têm reconhecido a importância significativa dos diplomados em pedagogia nas diversas áreas da ação educativa. Entretanto, a concretização dos projetos reformistas tem sido morosa e os lugares que deveriam ser ocupados pelos pedagogos, em grande parte, estão sendo ocupados por pessoas de outras áreas ou estão esperando uma regulamentação para que possam vir a ser ocupados por nós. Tal situação gera um clima de angústia entre os formados em pedagogia, que constrangidos pela falta de oportunidades de trabalho dentro de sua própria área, apesar da necessidade premente de pedagogos em campos específicos, vêem-se obrigados a procurar trabalho em áreas que não lhes são próprias.

Ao constatarmos aqui a situação dos formados em pedagogia, não pretendemos iniciar uma ação reivindicatória em termos de oportunidades de trabalho. Gostaríamos apenas que as exigências da realidade educacional fossem atendidas o mais breve possível. Acreditamos que nosso problema pessoal seria então resolvido e a angústia gerada pela incerteza diante do amanhã seria substituída pela esperança de poder trabalhar na área que nós escolhemos e para a qual nos preparamos na faculdade.

Cercados por tantos mitos a respeito da Educação, não cremos que ela seja uma espécie de missão quase que sagrada e que nós sejamos sacerdotes leigos da deusa cultura. Não acreditamos numa educação que se assemelhe a uma cerimônia mágica capaz de libertar o homem. Pensamos que a ação educativa deve ser perpassada por um humanismo realista e, acima dos sistemas e das estruturas sociais, pretendemos colocar o homem. Pedimos que todos vejam nesse nosso compromisso com o ser humano, o nosso compromisso profissional. E, novamente, achamos que a resposta mais significativa para esse compromisso deverá ir além do que aqui dizemos para se tornar uma resposta na ação.

Talvez nossa pretensão de uma educação humanística deva ser melhor explicitada. Numa época de tantos “humanismos” confessamos que nossa pretensão é modesta: pretendemos apenas que a educação se volte para as necessidades de cada homem. Não sonhamos elaborar complicados esquemas conceituais a respeito do destino da humanidade. Queremos partir de um humanismo terra-a-terra sem os grandes vôos de um otimismo utópico. Bastará que nos lembremos de que todos os homens são irmãos e que merecem igual respeito e que devem ter os mesmos direitos. Renunciamos a quaisquer ideologias que, apesar de sua beleza aparente, escondem interesses particulares e não têm o seu ponto de partida nas necessidades reais de cada ser humano.

Confessar uma atitude humanista em qualquer área de ação é hoje um lugar comum. É quase que uma resposta de etiqueta à expectativa social. Não queremos ser enquadrados entre aqueles que se confessam humanistas por conveniência. Mais ainda, pedimos que o uso constante desta palavra não desgaste o seu conteúdo. Confessamos, ao mesmo tempo, que não estaremos livres do manejo quase que demagógico desta palavra para acobertar uma ação que não vise em primeiro lugar o ser humano. Por isso, mais uma vez, pedimos que todos nos cobrem coerência entre ideais e a ação.

Ao lado da confissão, lugar comum, acima apontada, espera-se outra: a confissão de fé cristã. Faremos também essa confissão, mas seremos realistas. Há entre nós muitos que são cristãos de fato e outros que não o são.

Essa situação não impede uma confissão humanista de nossa parte, não elimina nossa unidade de propósitos.

O reconhecimento da nossa diversidade de crença exige uma permissão para que falemos como cristãos; não para cumprir as exigências do segundo lugar comum esperado, mas para deixar claros certos equívocos correntes. Renunciando as conveniências de uma fé tradicionalista, não queremos batizar nenhuma instituição. Nós acreditamos na ação de cristãos, mas não cremos em instituições cristãs.

Procuramos com essa atitude fugir da idolatria das coisas feitas cristãs, tais como: cultura cristã, filosofia cristã, educação cristã, país cristão. Consagrar tais instituições como cristãs faz esquecer o próprio Deus e, conseqüentemente, o próprio homem. Não queremos tornar Deus um prisioneiro daquilo que construímos em seu nome, como também não queremos tornar o homem escravo daquilo que inventamos para colocar a seu serviço. Portanto, ao confessamos a nossa fé, não queremos sacralizar o mundo, mas servir ao homem. E nessa tarefa, cristãos ou não, estaremos todos unidos.

Cristãos ou não, achamos que caberia, no final de um compromisso com o humanismo, a lembrança de uma oração, antiga e ao mesmo tempo atual, de apelo a Deus para que o mundo se torne mais humano.
Salmo 84
Justiça e Paz

Senhor, sempre foste amigo dos homens,
tantas vezes mudaste a sorte do teu povo:
nossas culpas foram perdoadas,
nossos pecados, esquecidos.
Retiraste tuas ameaças,
aplacaste o furor da tua cólera

Quero ouvir o que o Senhor vai dizer.
Certamente, nos vai falar de Paz,
a nós, seu povo e seus amigos,
Sim, a salvação está muito perto dos que o temem,
e nossa terra verá de novo a sua presença radiante

Nesse dia,
amor e fidelidade se encontrarão,
Justiça e Paz se abraçarão.
Como chuva, a justiça descerá do céu,
e da terra brotará a fidelidade.
Deus mesmo dará os seus dons,
e nossa terra dará os seus frutos.
À sua frente, o Senhor enviará sua justiça,
abrindo entre nós um caminho para a Paz.

 

Uma resposta to “Discurso de Formatura”

  1. marisi aranda pereira gomes da cruz Says:

    Muito bom, principalmente no texto que teve como iniciativa do salmo, que é a palavra de Deus, e enfim disse tudo.

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