Interesse e motivação em introduções

Em materiais didático, não importa a mídia, as introduções costumam estar voltadas para o assunto. Este modo de apresentar um tópico obedece a uma lógica que não leva em conta o leitor, o usuário, o aluno. Já batalhei muito na guerra contra introduções tradicionais. Boa parte de tais batalhas foram travadas com alunos que escreviam introduções tradicionais para WebQuests. Eles não conseguiam fugir de um modelo do qual foram vítimas a vida inteira nos livros didáticos.
Introduções devem ser escritas para conquistar quem vai ler o material, ver o vídeo, usar o software, trabalhar numa WebQuest etc.
Minha última batalha por introdução criadora de interesse aconteceu num projeto que desenvolvi para a TV do MEC. O projeto se chamava Desafio Escolar e era executado por uma empresa de vídeo e cinema muito competente. Mas, os roteiristas e outros profissionais envolvidos (incluídos os de educação) insistiam em fazer introduções tradicionais. Para convencer toda essa gente de que era preciso fazer algo diferente escrevi um subsídio para uma das propostas de Desafio Escolar que desenvolvi, uma situação que colocava os alunos numa aventura de produção de materiais contra o bullying.
Acho que o subsídio que elaborei coloca bem a questão é é breve (apenas duas laudas). Por isso, em vez de retomar minhas sugestões sobre introdução em contextos didáticos, acho que posso reproduzir aqui o mencionado texto. É o que faço a seguir.

Nota sobre primeira parte do programa e introdução ao tema na escola

A primeira parte de um Desafio deve buscar interesse. Interesse pelo que? Interesse por um assunto que deve ser estudado. E interesses não nascem de informações sobre o conteúdo, nascem da compreensão de problemas ou de encantamentos sugeridos por determinadas situações.
Não cabe apresentar informações na introdução. Ela não é uma ocasião para instruir, para ensinar. Nela, o que é apresentado deve provocar nos alunos curiosidade, deslumbramento, perguntas. Deve provocar sentimento de que o desafio proposto faz sentido e é uma atividade que vale a pena.
Na Introdução, escola e produção de TV devem escolher modos de apresentação que caminhem na direção do interesse. No caso do bullying, uma das formas de criar interesse é a de oferecer um contexto que mostre problemas de violência física e/ou simbólica contra pessoas ou grupos “diferentes”. Algo que crie algum impacto e mostre a irracionalidade de práticas gratuitas de ataque a pessoas mais fracas ou que tenham alguma característica particular. Nessa parte não se deve apresentar aquilo que os alunos precisam aprender sobre o assunto. Nessa parte, o que importa é que os alunos “comprem” o tema.
Fazer introdução a assuntos de uma Desafio (pelo menos em desafio como o nosso, que segue orientações metodológicas parecidas com as do modelo WebQuest) exige alguma mudança em formas de apresentação. Introduções em materiais didáticos ou em materiais de TV com finas educacionais costumam oferecer uma visão geral do assunto ou antecipar o que vem pela frente. Não é isso que queremos.
O que queremos é uma apresentação que mostre importância do que vamos abordar. E para mostrar importância de algo precisamos, entre outras coisas, emocionar, envolver, indignar, relacionar tema com vida das pessoas.
Para situar o que estou tentando passar, vou oferecer um exemplo concreto. Tom March, autor de ótimas WebQuests, fez uma Introdução excelente para um trabalho que propunha estudo da ética, tendo como referência questões sociais importantes em nosso mundo. Para tanto, o autor escolheu um caso concreto que envolveu ética e ciência, Tuskeege Tragedy. É preciso reparar que o caso escolhido por Tom não era material para ser estudado. Era um fato da história contemporânea que gerou indignação e levantou bandeiras com relação á ética. Segue o texto de introdução do material em foco:
“Introdução
Imagine que você é uma pessoa pobre vivendo em tempos economicamente difíceis. O seu governo lhe oferece tratamento médico gratuito. Parece bom. Mas a verdadeira razão pela qual o governo o procurou é porque você tem certa doença. Em vez de lhe proporcionar assistência médica, os doutores estão apenas acompanhando o que acontece quando a doença observada não é tratada. Suponha que ocorra um milagre e a ciência encontre uma cura para a tal doença. Mas, em vez de lhe dar o novo remédio, os médicos continuam o experimento que tem por objetivo observar o desenvolvimento “natural” da moléstia. Passam-se anos; alguns de seus companheiros, que também estavam sendo objeto de estudo, morrem, outros passam a doença para suas mulheres e filhos. Será que isso é uma sinopse para um novo filme? Será que alguém seria tragado por um roteiro tão inacreditável como esse? Será que esse é mais um caso de “arte que imita a vida”? Deixemos de suspense: aqui está a verdade, de acordo com uma reportagem da CNN:
“No começo da década de 1930, 399 homens foram inscritos pelo Serviço Público de Saúde dos EUA para um plano de assistência médica gratuita. O Serviço estava conduzindo um estudo sobre os efeitos da sífilis no corpo humano. Os homens nunca foram informados de que tinham sífilis. Os médicos lhes disseram que eles tinham “sangue ruim”. Esses sujeitos observados jamais foram tratados, mesmo depois da descoberta da penicilina em 1947. Quando o estudo tornou-se público em 1972, 28 homens tinham morrido de sífilis, 100 outros tinham falecido por causa de complicações relacionadas com essa doença. Pelo menos 40 esposas tinham sido infectadas, e 19 crianças contraíram a moléstia ao nascerem.”
(Retirado do CNN Interactive’s Tuskegee Study Website).
É difícil imaginar algo tão cruel como essa história. É por isso que muitas pessoas passaram a usar o caso da Pesquisa Tuskegee em comparações com outros tópicos como aborto, controle de armas, e experimentos em campos de concentração. Há razões para esse tipo de comparação? Nesta WebQuest, você decidirá.
No nosso caso (Bullying), a introdução pode ser desenvolvida em atividades que envolvam vídeo e música no âmbito da escola. No programa de TV o que precisa ser apresentado são as situações que serão mostradas aos alunos para que estes vejam que é importante fazer o que propõe o Desafio. Se conseguirmos provocar interesse, os alunos estudarão o tema cientes da importância de se prepararem bem para realizar a tarefa que será proposta.

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