Sociedade da informação. Da informação… Da informação…

blog tOs educadores usam com certo entusiasmo a expressão Sociedade da Informação. E costumam achar que a fartura de informação que há na Web faz com que a escola perca cada vez mais sentido. Para mim, este modo de ver o que anda acontecendo em nosso mundo é um equívoco. A fartura de informação não gera necessariamente mais conhecimento. Alan Kay, cientista da computação, já chamava atenção para isso num artigo que publicou em Scientic American em 1995. Kay observava que com tanta informação disponível as pessoas estão cada vez mais incapazes de dizer o que há por trás da informação. Perderam o rumo dos significados.
Análise interessante sobre o fenômeno foi feita por Jodi Dean em Blog Theory. Em 2011 escrevi resenha do livro de Dean. Na resenha, tento enfatizar alguns dos pontos que a autora considera importantes nas práticas comunicativas na Web. Ela, como Kay e muitos outros autores, chama atenção para aspectos que deveriam ser analisados pelos educadores.
Não pretendo resumir a resenha que fiz. Acho que ela não faz inteira justiça a toda a riqueza do livro de Jodi Dean. Não cabe, portanto, reduzir mais ainda considerações sobre a obra. Por esse motivo, resolvi trazer para cá o texto integral da resenha, esperando assim oferecer uma boa referência para julgar os rumos da Sociedade da Informação.

Dean, Jodi. Blog Theory: Feedback and capture in the circuits of drive. Malden, MA: Polity Press, 2010, 153 p.
Novas tecnologias da informação e comunicação – NTIC’s ganham espaço cada vez maior na vida cotidiana. Essas tecnologias são vistas como avanços desejáveis, pois os ganhos que trazem em termos ampliação do conhecimento são imensos. Tal interpretação do papel das NTIC’s tem uma dupla face. De um lado, ela entende que a produção e acumulação de saberes é processo contínuo e cumulativo. De outro lado, ela ressalta a necessidade de se adotar as mudanças que as mais recentes tecnologias trazem. Comentários nos meios de comunicação e em produções acadêmicas tendem à tecnofilia. Ao mesmo tempo, a aceitação entusiasmada das NTIC’s tem muitos traços de ingenuidade.
O pensamento hegemônico sobre as novas tecnologias da informação e comunicação sugere que sociedade e indivíduos têm conhecimento cada vez maior, que a educação dará um salto de qualidade, e que a prática política ganhou grandes espaços de exercício da liberdade. Tais conclusões não são fruto de análises aprofundadas das NTIC’s. São, muito mais, conseqüências de crenças que ignoram qualquer análise crítica dos novos meios de comunicação.
Blog Theory, obra de Jodi Dean, contesta o pensamento hegemônico. Examina o fenômeno dos blogs, tentando perceber o significado dessa prática comunicativa na sociedade e para os blogueiros individualmente. A autora, porém, não se restringe aos blogs. Na verdade, realiza uma análise mais ampla, incluindo em seu estudo outras práticas comunicativas que ganharam espaço expressivo na Web.
A intenção de Dean é a de analisar criticamente as NTIC’s a partir de uma tradição que busca entender o significado e impactos sociais das tecnologias, assim como a maneira pela qual as forças hegemônicas se apropriam das ferramentas de comunicação. Ela procura superar o nível das aparências para desvelar o que está acontecendo no plano coletivo e individual. Há mudanças. Mas, que mudanças estão acontecendo em modos de ver a vida, no plano dos valores, na vida política, no plano epistemológico? Respostas e a essas perguntas balizam o caminho percorrido por Dean.
A autora reconhece que análises críticas da NTIC’s não é tarefa fácil. A atualidade das análises é efêmera, pois as novas redes de comunicação são turbulentas, sempre mutantes. Muitos de seus aspectos definidores desaparecem em pouco tempo. A obsolescência de equipamentos e ferramentas é extremamente acelerada. Por esses motivos, livros que abordem criticamente os novos meios de comunicação correm risco de ficarem desatualizados assim que chegarem às livrarias. Por outro lado, utilizar a própria Web para registrar aspectos críticos em blogs e outros ambientes de publicação digital é providência vã, pois a conteúdo não merecerá devida atenção.
Dean mostra que os livros desempenham papel importante na elaboração e registro de análises críticas. Sugere que as mídias digitais não conseguem substituí-los em tal função. Conclui que eles continuam a ser o veículo mais adequado para articular análises que evidenciem as conseqüências mais profundas das NTIC’s.
O funcionamento da Internet, segundo a autora, mostra a emergência do capitalismo da comunicação. Esse fenômeno vem recebendo diversos nomes, com destaque para Sociedade da Informação. Mas, quase sempre, os analistas ignoram o capital como o maior interessado na produção, circulação e uso de uma commodity intangível que vem mudando relações entre as pessoas, formação de identidade, modos de ver o mundo. Para Jodi Dean “o capitalismo marca a estranha convergência da democracia e do capitalismo em redes de comunicações e mídias de diversão” (p.4).
Para mostrar desdobramentos ideológicos do ambiente mediático de nossos dias, Dean examina como movimentos de esquerda com raízes nos anos de 1960, acreditando em virtudes intrínsecas das redes de comunicação, acabaram caindo em armadilhas e passaram a defender valores que criticavam. Para ela, este é o caso, por exemplo, dos novos comunalistas. Estes, ao abraçarem promessas libertárias da Internet, aliaram-se aos adversários de outrora – as forças armadas, o capital, a burocracia – promovendo idéias neoliberais e justificando flexibilização do trabalho e outras decorrências de um capitalismo dentro do qual se entranha a comunicação.
As observações de Jodi Dean sobre aspectos ideológicos promovidos no e pelo uso das redes digitais nada tem a ver com teorias conspiratórias. A autora examina as práticas comunicativas correntes e nelas encontra características que não são evidentes para usuários e entusiastas das novas mídias. A autora busca caracterizar que cultura e sociedade estão sendo construídas naquilo que se convencionou chamar de Sociedade da Informação.
Na produção e circulação de informações, a autora vê um fenômeno que precisa ser considerado, o fenômeno da reflexibilidade. Este fenômeno, em síntese, é caracterizado por uma circularidade na qual informação gera mais informação sem qualquer referência a realidades que não integrem as redes digitais. No plano individual, a reflexibilidade gera comportamentos análogos aos da obsessão pelo jogo. Utilizadores de redes sociais entram num circuito que não privilegia conteúdos, mas, o constante uso de veículos de informação.
Nos planos axiológicos e epistemológicos, Jodi Dean sugere que a utilização das novas mídias caminha na direção do declínio da eficiência simbólica. Ou seja, as pessoas deixam de ter uma referência sólida para julgar informação. Vale tudo. Em blogs e outros meios de expressão digital, acredita-se que todas as opiniões são válidas. A tendência reforça traços de relativismo que já presentes na cultura ocidental antes do advento das redes digitais. No caso dos valores, há um esvaziamento de referências aceitas coletivamente. No caso da ciência, há uma crença de que todo e qualquer saber é equivalente. O resultado dessas maneiras de ver é o de que banalidades sem fundamento e afirmações ancoradas em investigações sistemáticas em nada diferem. São informações que entram no circuito, reivindicando tratamento igualitário.
Predomina na rede digital impulso para o uso, não importando outros fins. A lógica do sistema é a de um consumo cada vez mais avassalador de informações, não pelo valor intrínseco destas últimas, mas pelo sentimento de participar de um processo informativo que não cessa. A comunicação constante é uma obrigação. Mais ainda: uma obsessão. É preciso comunicar-se, não importa para que, nem o que comunicar.
Dean consagra um capítulo inteiro à questão do afeto (Affective Networks). A autora observa:
O capitalismo da comunicação nos manda divertir, ao mesmo tempo ele nos adverte que não estamos nos divertindo o bastante, ou tão bem como os outros. Nossa diversão permanece frágil, arriscada. (p. 92)
A ordem para nos divertir aparece de diversas formas. Uma delas é a de sentir-se membro de uma comunidade que, segundo a autora, “é uma comunidade sem comunidade”. Contraditoriamente, as redes facilitam a superação do isolamento, embora as pessoas continuem isoladas. Outra forma é a da repetição. Faz-se a mesma coisa o tempo todo. Não importa o significado do que é repetido. Importa sempre a repetição, num ritmo cada vez mais envolvente. Repetição e redundância é o nome do jogo. Isso já era característico nos meios de comunicação de massa que chegaram um pouco mais cedo que as redes digitais. Essa circunstância foi e é largamente utilizada em publicidade na TV. Convém, mais uma vez, recorrer ao texto da autora:
A dimensão aditiva da comunicação pela comunicação marca um excesso. Esse excesso não é novo significado ou perspectiva. Ele não se refere a um novo conteúdo. Em vez disso, ele advém da repetição, da agitação ou emoção por mais. Na duplicação reflexiva da comunicação, a diversão incorporada à comunicação pela comunicação desaloja intenção, conteúdo, e significado. O extra na repetição é diversão, a diversão que é capturada no impulso e na diversão expropriada pelo capitalismo da comunicação. (p.116).
A meta, como já se disse, é a de usar a rede. E usá-la à exaustão. O discurso ideológico justifica tal uso com promessa de mais conhecimento. Mas, conforme diz a autora “quanto mais conhecimento incorporamos, menos sabemos”. Na verdade, o que predomina é a circulação de informação, não a sua apropriação pelos usuários. Uma das conseqüências disso é a falta de ação. Em vez de agir, busca-se mais informação. Os resultados encontrados não satisfazem. Por isso mais informações são procuradas. Esse processo não tem fim. E estar nele é fonte de prazer. A produção de informação com características de reflexibilidade é uma criação dos usuários. Eles acabam produzindo o ambiente em que vivem. As conexões estabelecidas no interior do sistema configuram as pessoas. Gerar informação, consumi-la, reproduzi-la, dentro de um loop, substitui busca de sentido, de significado, é tudo que se quer.
Apesar do título de seu livro, Dean não tem como foco os blogs, mas as práticas mediáticas que se tornaram comuns com a chegada dos recursos digitais. O livro, porém, tem um capítulo dedicado aos blogs. A autora faz menção às características técnicas dos diários eletrônicos. Examina as analogias mais comuns que são utilizadas para defini-los. Ela, porém, não se prende a visões mais tradicionais. Para além de aparências óbvias de blogs como diários eletrônicos ou formas de expressão de um novo jornalismo, Jodi Dean mostra como a prática deles está a serviço da expressão da subjetividade.
A autora vai buscar nas práticas epistolares do antigo Império Romano, assistida por estudos realizados por Michel Foucault, analogias para iluminar o sentido da escrita em diários eletrônicos. Revela que as correspondências produzidas pelos latinos tinham acima de tudo características de auto-escrita. A arte de escrever cartas era vista como um elemento de reflexão. Neste sentido, importava pouco o que comunicar. Importava o próprio exercício de produzir as cartas, mesmo que estas não fossem enviadas aos seus destinatários. Essa é uma descoberta intrigante. O ato, a prática era mais importante que o escrito. E é isto o que acontece com os blogs. Valem para eles as observações feitas para todo o sistema de comunicação digital. Os blogs são uma alternativa de ingresso na ciranda interminável de gerar e consumir informação, pouco importando o conteúdo. Eles também concretizam o sentimento de participação no qual se acentua a dimensão afetiva. Não são, assim, diferentes de qualquer outro formato que facilita a participação dos usuários na Web.
Blog Theory é um livro denso e exigente. A autora, para desenvolver seus argumentos, recorre a uma ampla literatura influenciada principalmente por Lacan. Cada capítulo da obra mereceria uma resenha própria para que não se perdessem elementos importantes das análises feitas por Dean. Porém, os registros aqui feitos são suficientes para situar a obra e sua importância em áreas relacionadas com informação e comunicação.
Importa assinalar como Blog Theory sugere novos modos de ver NTIC’s em educação. O estudo de Dean mostra que aproveitamentos de qualidades aparentes da Web para finalidades pedagógicas não podem acontecer de modo ingênuo. O predomínio de práticas de comunicação pela comunicação é um traço que deveria merecer análises críticas dos educadores. Usos educacionais das NTIC’s, caso ignorem uma visão crítica, irão apenas facilitar ingresso dos alunos em circuitos comunicativos que desconsideram conteúdos e significados.

Jarbas Novelino Barato. Professor. Mestre em Tecnologia Educacional pela San Diego State University (SDSU). Doutor em educação pela UNICAMP.

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