Valores e educação profissional

Estou redigindo a parte final do relatório de meu estudo sobre valores, trabalho e educação profissional e tecnológica. Essa parte final, como quer meus parceiros da UNESCO, deve sugerir direções em termos de políticas públicas e processos didático-pedagógicos. A tarefa não é fácil e confesso que estou com bastante dificuldades para concluir este último relatório parcial.

Antes de sugerir direções, elaborei uma síntese do que foi observado na forma de enunciados. Não sei se todos eles estão claros e dizem o que quero dizer. Por isso, publico-os aqui na esperança de que amigos contribuam com suas opiniões, sugestões e críticas. Os enunciados são os que seguem:

 

  • Há valores intrínsecos ao trabalho. Tais valores fazem parte do saber ser que se articula no fazer.
  • Observações do fazer em oficinas podem revelar valores subjacentes ao trabalho.
  • Ambientes de trabalho refletem valores em sua organização e funcionamento.
  • Valores dependem de aceitação e de concretização no cotidiano dos trabalhadores. Nada mudam se forem reduzidos a proposições.
  • A aprendizagem de valores em ambientes de trabalho é consistente porque ocorre por meio de experiências vivenciais.
  • Experiências vivenciais são formas pelas quais os organismos entendem o mundo no qual estão inseridos.
  • Muitos valores presentes na ação são invisíveis.
  • É conveniente sistematizar os valores que emergem na ação, classificando-os em categorias, para facilitar diálogos sobre ética, estética e axiologia no campo do trabalho.
  • Valores universais, nascidos fora dos ambientes de trabalho, devem ser transformados em medidas no cotidiano das profissões para que passem a ter sentido para os trabalhadores.
  • Direções da educação enraizada na história do trabalho devem ser consideradas para que orientações didáticas de origem escolar não as substituam, com o decorrente prejuízo na formação dos trabalhadores.
  • Há indicações de que a ética do cuidado é uma das referências mais importante na educação moral dos trabalhadores.
  • Em sua associação com o trabalho, estética não se reduz a belas artes, mas deve ser entendida como compromisso do trabalhador com suas obras.
  • Emprego de categorias dualísticas com tecnicismo/humanismo é um equívoco que ignora os valores intrínsecos ao trabalho.
  • O fazer em ambientes de trabalho é prática social fundamental na tessitura de comunidades de prática.
  • A presença de obras no percurso de aprendizagens em EPT é fundamental para a construção de identidades, e no favorecimento de atitudes de colaboração e companheirismo.
  • O cuidado que as instituições educacionais dedicam à organização de ambientes de trabalho/aprendizagem revela como tais organizações valoram trabalho, trabalhadores e alunos.
  • Valores de algumas comunidades de prática – ou de corporações de ofício – podem contrariar interesses sociais mais amplos.
  • Na organização de seus cursos e dos ambientes de trabalho/aprendizagem, instituições educacionais podem promover valores que não são comuns no mundo do trabalho.

 

 

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Uma resposta to “Valores e educação profissional”

  1. Ivete Palange Says:

    OI, Jarbas
    Tenho algumas dúvidas sobre as proposições apresentadas. Não sei se são pertinentes, mas as apresento a você com a intenção de colaborar. Desculpe a ousadia.

    “Valores dependem de aceitação e de concretização no cotidiano dos trabalhadores. Nada mudam se forem reduzidos a proposições.”

    Essa ideia é que os valores emergem na prática cotidiana e não são impostos por proposições exteriores a ela? Se essa for a intenção acredito que a proposição deva ser mais clara.
    Sugestão:

    Os valores estão presentes no cotidiano dos trabalhadores e são concretizados na ação. Eles não se modificam a partir de proposições desvinculadas dessa prática

    “Muitos valores presentes na ação são invisíveis.”

    A invisibilidade é para todos? Para quem observa e pratica? Acredito que essa invisibilidade acontece diante de uma observação menos atenta. Para aqueles que desenvolvem os valores eles podem não ser conscientes, mas também são invisíveis?

    “É conveniente sistematizar os valores que emergem na ação, classificando-os em categorias, para facilitar diálogos sobre ética, estética e axiologia no campo do trabalho.”

    A categorização dos valores não os reduzem? As categorias devem ser baseadas em critérios explícitos? É possível construir categorias que sejam amplas o suficiente e relacionadas entre si em um contexto que seja significativo ao trabalhador? Quem e como deve desenvolver a categorização?

    ” Valores universais, nascidos fora dos ambientes de trabalho, devem ser transformados em medidas no cotidiano das profissões para que passem a ter sentido para os trabalhadores.”

    Esses valores universais podem ser identificados no cotidiano das profissões? Se podem ser identificados não precisam ser transformados em prática. Por exemplo, o respeito pelo outro não necessariamente é um valor do cotidiano do trabalho. Ele é mais amplo é do convívio social. Mas esse mesmo valor pode ser identificado na prática do trabalho.Não consigo pensar em um valor universal que não possa ser identificado no ambiente de trabalho. Então tenho dúvidas em relação a transformá-lo para ter sentido mas ele precisa ser identificado, explicitado nas condições de convívio cotidiano para fazer sentido ao trabalhador.

    “Direções da educação enraizada na história do trabalho devem ser consideradas para que orientações didáticas de origem escolar não as substituam, com o decorrente prejuízo na formação dos trabalhadores.”

    Há mudança de valores nessa história do trabalho? Como identificar essa mudança? Ela deve ser considerada nessa história e contribuir para a formação do trabalhador hoje?

    Um abraço,
    Ivete

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