Produção para a paz

Durante a crise de emprego no começo de 1970, os operários da Lucas Aerospace propuseram um contraplano que converteria uma indústria da guerra numa indústria da paz, garantindo com isso trabalho para todos os empregados da firma. O contraplano mereceu análises em diversas publicações. Num período em que eu estava estudando com certo afinco questões de emprego/desemprego, fiz um resumo do artigo de Casassus sobre o caso da Lucas Aerospace. Para interessados, segue tal resumo.

 

CASASSUS, C. E CLARK, J. (1978). UNE ALTERNATIVE AU CHÔMAGE: lE CONTRE-PLAN DE PRODUCTION DES TRAVAILLERS DE LUCAS AEROSPACE. SOCIOLOGIE DU TRAVAIL, 4/78, 379-397

CONTEXTO
• A luta contra o desemprego e as demissões coletivas na Inglaterra (1974 e ss.) foi caracteristicamente tradicional: reivindicação por uma retomada da economia e propostas de redução das jornadas de trabalho.

• Desemprego como questão “política”. Luta centrada na conservação dos empregos existentes. Nenhuma iniciativa que se referisse ao conteúdo do trabalho, à natureza dos produtos, ao direito de estabelecer políticas de produção…

• “Mesmo quando a reivindicação do direito ao emprego começa a ser objeto de lutas importantes, os fundamentos estruturais das demissões permanecem intocados, o nível de emprego continua a ser uma consequência das escolhas de produção dominadas pela lógica do mercado (ou seja, do lucro) ou pela implantação de novas tecnologias… (380)
CARACTERÍSTICAS DO CONTRA-PLANO
…(eles – os empregados da Lucas) “apoiam sua ação de defesa do emprego propondo intervir na escolha dos produtos, das tecnologias e dos modos de organizações do trabalho”. (380)
EFEITOS DA RECESSÃO
“Para os trabalhadores altamente qualificados, a recessão e a restruturação da indústria resultam em:

1. Desemprego estrutural: que significa, ao mesmo tempo, um desperdício da mão-de-obra (mesmo que esta pudesse vir a ser aproveitada na produção de bens necessários) e um crescimento de despesas que recaem sobre o contribuinte (seguro desemprego, seguridade social)…

2. Desqualificação da mão-de-obra: a automação transfere para as máquinas o conhecimento humano, situação esta que conduz a uma desqualificação do trabalhador…” (381)
SENTIDO DO CONTRA-PLANO
Propõe intervenção na escolha tanto dos produtos quanto da organização do trabalho. Contesta, desta maneira, o direito exclusivo dos empregadores decidirem sobre política de produção.

A proposta geral do plano é assegurar o direito ao trabalhado, em vista das ameaças ao emprego. Mas, mais do que isto, o plano procura assegurar o direito de usar as ferramentas e as qualificações profissionais para produzir bens que interessem à sociedade como um todo.
SOBRE O “MERCADO”
“Nós resolvemos ir além daquela divisão absurda que a sociedade nos impõe entre produtores e consumidores. Esta divisão parece sugerir que existem duas nações, uma que trabalha nas fábricas e escritórios e outra, inteiramente diferente, que vive no lar e na comunidade”. (386)
TEMAS DO CONTRA-PLANO
• Escolher a tecnologia

Critério: mais ênfase em necessidades sociais, menos ênfase em oportunidades de lucro.

• Servir a comunidade

Investir em produtos socialmente necessários.

• Humanizar o trabalho

Aplicar tecnologias para melhorar condições de trabalho, sem alienar do trabalhador o conhecimento tecnológico.

Vincular uso intensivo de mão-de-obra com uma tecnologia relativamente avançada e responsável.

• Produtos ecológicos

• Crítica à divisão do trabalho

“Contra-plano constitui um desafio ao direito patronal de determinar que bens produzir. Domínio exclusivo de um “staff” de diretores ou gerentes, de proprietários e quadros superiores, o desenvolvimento industrial tem sido resultado de decisões ditadas por critérios de lucro, pela aceitação inconteste duma especialização estreita (…) e pelo caráter inelutável da automatização e das demissões. (388)

• Reverter o primado valor de troca sobre o valor de uso

“A pesquisa de uma tecnologia alternativa está voltada sobretudo para a superação do vazio existente entre necessidades e a produção real que ocorre na economia capitalista. Nesta economia, o avanço da ciência e das tecnologias é utilizado apenas para a produção rentável, ou seja, para a produção de bens voltados exclusivamente para o valor de troca.

Predomina, portanto, a lógica do mercado: o valor de uso é evocado apenas para incentivar o consumo (publicidade). Os resultados desta dominância da lógica do mercado começa a ser colocada em causa, pois ela implica em: deteriorização da qualidade dos produtos, desperdício dos recursos naturais e sobretudo dos recursos humanos, deteriorização da qualidade de vida”. (390)
CONTRA-PLANO E “FUNÇÃO GERENCIAL”
A formulação de alternativas para uma política de produção ameaçou a “função gerencial” dentro da Lucas. Ao mesmo tempo, ela mostrou que os trabalhadores são capazes de formular as mencionadas alternativas de modo responsável…

 

 

 

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