Muitos caciques para poucos índios

Nos anos de 1980, o pesquisador Martin Carnoy fez uma observação interessante sobre seu filho. O rapaz tinha acabado de concluir o curso de história na famosa Universidade de Berkeley. O que poderia fazer com a formação recebida? Nada. Se ele quisesse trabalhar, suas chances maiores eram as de ser entregador de pizzas ou atendente de posto de gasolina. E o diploma universitário? Segundo o pai, o documento apenas atestava que o filho sabia mais história que a média dos americanos. Para profissionalizar-se, o novo historiador precisaria cursar dois anos numa faculdade de educação antes de se candidatar ao cargo de professor na rede escolar da Califórnia, ou de investir cinco anos em estudos de pós-graduação para vir a ser um pesquisador na área.

O caso do filho de Martin Carnoy ilustra uma crescente “desprofissionalização” dos cursos superiores nos Estados Unidos. Muitas são as explicações para o fenômeno: encolhimento do mercado de trabalho, desejo crescente da população por mais educação, aumento da idade de ingresso de jovens em atividades produtivas etc. Não interessa aqui entrar no mérito dessas causas. Interessa, porém, constatar que um percentual expressivo dos cursos superiores se converteu numa continuação da educação geral do cidadão, sem qualquer compromisso imediato com o trabalho.

Será que isso também está acontecendo no Brasil? Parece que sim. O número de advogados e pedagogos formados que não exercem as respectivas profissões é grande. E isso não é conseqüência apenas de falta de planejamento ou de má qualidade do ensino. O que vem acontecendo no mundo todo, como observou o sociólogo Alberto Moncada no distante ano de1978, é que há muito mais gente com diploma superior que as necessidades do mercado de trabalho. E não há sinais de que esse movimento vá cessar. Sem perspectivas de profissionalização imediata, muitos cursos superiores convertem-se num item de “consumo”, importante do ponto de vista de status e de formação cultural.

Não há nada de errado com a tendência aqui apontada. Ela é o resultado de dinâmicas econômicas e sociais. O que há de errado, no caso, é a construção de expectativas de que a formação universitária é sempre o melhor caminho para o paraíso ocupacional.

Nos velhos tempos de oferta pequena de vagas nas universidades, esperar um bom emprego ou trabalho bem remunerado por causa do diploma universitário era uma esperança justificada. Hoje, isso quase sempre é uma ilusão. A maior parte dos formandos, se já estiver trabalhando, continuará a fazer o que já fazia antes do sonhado diploma.

Segundo Moncada, criar vagas escolares é mais barato que criar novos empregos. Os investimentos públicos são menores ainda quando a expansão escolar se dá sobretudo por meio da rede privada. Posso acrescentar que criar ensino superior não profissionalizante é muito mais barato que criar cursos de capacitação profissional de nível técnico vinculados a necessidades imediatas do mercado de trabalho. Essa é uma questão que precisa ser bem entendida por pais, jovens, mídia e elaboradores de políticas educacionais.

Dirigi uma escola que oferecia, entre outros, o curso de técnico em óptica. Cada turma desse curso comportava no máximo quarenta alunos. Por essa razão a escola tinha uma oficina de óptica com quarenta bancadas e dois outros laboratórios um de montagem, outro de aplicações computadorizadas. O custo de montagem de tais ambientes de ensino giravam em torno de US$500,000.00 (quinhentos mil dólares). Os avanços técnicos em óptica demandavam atualizações de equipamentos a pelo menos cada quatro anos. Na mesma escola havia outros cursos (técnico em prótese dentária, técnico em podologia, técnico em radiologia médica, técnico em farmácia etc.) com demandas parecidas de ambientes especiais de ensino. Com cerca de oitocentos alunos nos cursos técnicos, a referida escola tinha um parque de laboratórios muito maior, completo e atualizado que muitas universidades privadas da cidade de São Paulo. Vale reparar que essas universidades tinham em média cerca de dez mil estudantes.

Observo,mais uma vez, que não há nada de errado com os fenômenos aqui apontados. Erro há quando as leituras do que vêm acontecendo reforçam falsas esperanças com relação a emprego e trabalho.

É preciso fazer uma observação antes de seguir em frente. Os cursos técnicos de uns vinte anos para cá mudaram muito. Eles já não são mais cursos secundários para adolescentes. São programas de capacitação para jovens e adultos que concluíram o ensino médio. Pelo menos essa é a realidade numa das maiores redes de ensino técnico do país, o Senac de São Paulo, por exemplo. Os alunos de tais cursos técnicos são jovens na casa dos vinte anos (uma pesquisa nacional na década de noventa mostrava que a idade média de alunos do Senac em todo o país era 23 anos).

Os cursos técnicos aos quais estou me referindo concentram-se exclusivamente nos conteúdos profissionais. Não comportam assuntos como Introdução à Psicologia ou Introdução Sociologia. Quase tudo o que é ensinado acontece em ambientes nos quais o aluno produz alguma coisa (uma lente, uma prótese dentária, uma peça de uma máquina etc.). A formação completa do profissional dura cerca de um ano e meio. Os currículos são bastante flexíveis e as escolas não precisam seguir calendários semestrais ou anuais (os cursos podem começar e terminar em qualquer mês do ano).

Essa nova formação técnica, em cursos pós-secundários mas não universitários, tem muitas vantagens. Entre elas, merecem destaque: relação muito próxima com o mercado, capacitação de profissionais capazes de fazer, orientação didática voltada para o saber fazer. Além disso, os alunos que escolhem tais cursos têm maturidade e uma visão bastante clara das oportunidades de trabalho na área.

Há duas ameaças ao tipo de ensino técnico que descrevo aqui: 1. volta aos antigos cursos técnicos para adolescentes no ensino de nível médio, 2. migração das formações para o nível superior. No primeiro caso, volta-se para uma oferta de ensino que, em nome da qualidade, acaba sendo um bom curso para preparar os filhos da classe média para os concorridos vestibulares das boas escolas de engenharia. O fenômeno já foi estudado por Luis Antônio Cunha nos anos de 1970, numa pesquisa que mostra que boa parte dos formandos das escolas técnicas federais tinha como destino as escolas politécnicas. No segundo caso, o desejo corporativo por mais status e o uso de requisitos de mais estudo como elemento de controle para ingresso no mercado de trabalho acabam empobrecendo a formação técnica dos profissionais, uma vez que os currículos das faculdades tendem a privilegiar o “falar sobre” em vez do “fazer”.
O quadro que esbocei neste texto mostra a emergência de um novo ensino técnico que poderia ser melhor aproveitado pelos sistemas educacionais, pelos candidatos a emprego e pela economia do país. Mas ignorância e preconceitos acabam criando obstáculos nesse sentido. Uma das conseqüências é a interpretação de que o ingresso no paraíso dos bons empregos passa necessariamente pelas faculdades. Mas, como mostrei logo no início, o ensino superior vem desempenhando, cada vez mais, funções de educação geral, sobretudo nas áreas das ciências humanas. Não há nada de errado nesse movimento. As dinâmicas sócio-populacionais estão exigindo que as pessoas passem cada vez mais tempo nas escolas para não pressionar demasiadamente um mercado de trabalho que cresce de modo muito lento.

A sabedoria popular nos ensina que excesso de superiores gera situações em que há “muito cacique para poucos índios”. Ou seja, muita gente capaz de planejar, coordenar e gerir. Mas pouca gente capaz de fazer, produzir. Talvez seja hora de virar esse jogo.

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