Educação e mercado

livro jarbasEm 2006, a Editora SENAC.SP convidou um jornalista para me entrevistar. O objeto da conversa seria meu livro Educação Profissional: Saberes do Ócio ou Saberes do Trabalho? 

O jornalista não leu o livro e me fez aquelas perguntas que predominam  no modo como a imprensa  sugere conversas sobre educação, enfatizando questões econômicas. Respondi, por escrito e com muita paciência, as perguntas que ele me fez. Procurei não criticar as questões postas, quase sempre equivocadas. Vou trazer para cá a dita entrevista, publicando uma pergunta e respectiva resposta de cada vez. Começo com a pergunta sobre educação e mercado.

* Na sua opinião ainda existe uma lacuna entre a qualificação profissional e as
exigências do mercado de trabalho? Por quê?

Essa preocupação de relacionar qualificação profissional com demandas do mercado é um falso problema. Quem pensa desse modo acredita que é possível uma relação mecânica entre mercado e educação. Educação conseqüente não é uma preparação para um aqui e agora, é uma tentativa de preparar pessoas para um futuro incerto, dadas as muitas possibilidades que os homens têm de construir a história. Mercado é apenas uma indicação, não um destino ou fatalidade.

O importante em educação é pensar o potencial humano de produzir conhecimento e mudar o mundo (incluindo o mercado de trabalho). Sua pergunta parte do princípio que educação, sobretudo a profissional, deve estar a serviço do mercado. Não posso respondê-la, pois se o fizesse estaria me colocando ao lado de pessoas que têm a visão mecanicista que procurei situar no início de minha resposta.
É bom reparar que o argumento da lacuna entre mercado e qualificação profissional aparece principalmente em épocas de desemprego. Essa é uma forma sutil de culpar as vítimas pelo seu destino (o número de gente muito bem qualificada e desempregada em nossos dias, incluindo jornalistas, não é pequeno). As altas qualificações de que tanto se fala atualmente são requisitos apenas para um segmento muito pequeno do mercado de trabalho.

Os modos de produzir ficaram muito mais simples que as velhas formas de trabalhar para a maioria dos casos. Ou será que alguém acredita honestamente que montar sanduíches numa cadeia de fast food (assim como muitas outras funções criadas nos últimos tempos na indústria e em serviços) é trabalho que demanda qualificação profissional expressiva? Na verdade, o trabalho vem perdendo conteúdo na maioria dos casos.

O discurso da mudança contínua, de demandas tecnológicas aceleradas, de competências amplas e mutantes vale apenas, como disse, para uma elite de trabalhadores. E isso não é novo. Já nos anos setenta do século passado, o sociólogo espanhol Alberto Moncada nos informava que ocupações cognitiva e psicologicamente compensadoras representavam apenas dez por cento do mercado de trabalho. O resto eram oportunidades de um trabalho rotineiro e muito pouco exigente do ponto de vista de exercício da inteligência. Não há qualquer evidência de que as tendências apontadas por Moncada tenham mudado. Assim , ao contrário do que se diz, quando olhamos os grandes números o que acontece hoje é uma contradição que tende a aumentar cada vez mais: a escolaridade das pessoas avança significativamente e o conteúdo do trabalho regride de modo significativo. Infelizmente, a tendência analítica que aponta o problema que estou tentando colocar aqui mal é ouvida (este é o caso, por exemplo, da obra primorosa de Cláudio Salm, Escola e Trabalho, publicado no final dos anos setenta).

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2 Respostas to “Educação e mercado”

  1. Luzia Helena Juliatti Says:

    Realmente, a escola dever ter a preocupação de levar o aluno a refletir sobre o processo de aprendizagem, que é contínuo e o mais importante é o “aprender a aprender”, que dá autonomia ao aluno. O profissional que busca constantemente aperfeiçoar seus saberes sempre está pronto para o mercado, que tem algumas eventuais mudanças. O melhor mesmo é o profissional que não se prende às competências de uma qualificação, mas que se dispõe ao desafio de aprender ou fazer diversas atividades, ou seja, muitas vezes, ele tem mesmo é que saber “se virar nos 30”.

  2. Consuelo Fernandez Says:

    Resposta brilhante para pergunta opaca de tão antiga.

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