Blogs e tecnologia educacional

Em 2007 dei uma entrevista para a revista Mestre. Do que escrevi, em reposta às perguntas que me fizeram, pouca coisa foi publicada, apenas uma nota sob uma foto minha que ocupava uma página inteira da revista. O texto integral ficou entre meus guardados e eu até já tinha me esquecido dele. Hoje, vendo velhos arquivos, reencontrei a entrevista. Publico-a aqui na sua forma integral.

– Gostaria que você me contasse como foi a criação do Boteco Escola. O que originou a ideia.

 

Em 2005 comecei a trabalhar a questão do uso de blogs na educação com meus alunos do 4° ano de pedagogia. Durante dois anos utilizei uma abordagem semelhante à utilizada por Bernie Dodge, da San Diego State University, e David Carraher, da Universidade de Harvard, enfatizando a questão da escrita. Eu estava convencido de que blog é sobretudo um espaço que pode criar grandes incentivos para a escrita e a leitura. Mas não fiquei satisfeito com os resultados obtidos. Meus alunos, assim como os alunos do Bernie e do David, assumiram a tarefa de produzir blogs como um dever escolar. O resultado foram espaços burocráticos (feitos para ganhar uma nota, nada mais) e sem alma. Neste ano resolvi mudar,. Porém não sabia como. Por causa de minha insatisfação comecei a reestudar blogs nos campos da comunicação e da educação. E descobri uma coisa nova. Descobri que os blogs são sobretudo lugares organizados para promover boas conversas. Resolvi passar essa mensagem para os meus alunos.
Se a gente acredita em algo é bom dar exemplo. Por isso, em vez de apenas pedir a meus alunos que criassem espaços para conversas interessantes, resolvi criar um blog especial para conversar com meus estudantes e com educadores interessados em usos de meios para se comunicarem no ciberespaço. No começo a ficha não caiu. Eu estava fazendo um blog tradicional, apesar de saber que a maior atração da blogosfera é a conversa, o papo sem compromisso. Aí resolvi encontrar espaços de conversa que pudessem inspirar meu trabalho. E descobri que em nossa terra o melhor exemplo de espaço para bons papos é o boteco. Descobri mais coisas. Há muitos blogs inspirados pela idéia de que bares, botecos e tascas é um exemplo a seguir na construção de locais de encontro na blogosfera. Conseqüência? Meu blog passou a se chamar Boteco Escola. Estou cada vez mais convencido que o clima de liberdade, de bom humor, de amizade, de gosto de viver presente em bons botecos pode ser uma fonte de inspiração para os educadores.

 

– Você dá aula há quanto tempo?

 

Dou aula desde 1967. Comecei com professor do antigo ginásio e do curso normal. Mas fiquei fora do magistério durante bastante tempo (de 1972 a 1992), época em que exerci cargos de supervisão e direção no Senac de São Paulo. Em 1992 voltei à sala de aula, desta vez na universidade, lecionando de tecnologia educacional nos cursos de pedagogia e licenciatura. Mas mesmo nos meus tempos de supervisão e direção não deixei de todo o trabalho docente. Muitas e muitas vezes atuei como docente em cursos de formação em serviço para docentes do Senac, da Secretaria de Educação e de outras instituições.

 

– De que maneira trabalha para ajudar seus alunos a se interessarem por assuntos educativos na internet?

 

Me esforço muito para mostrar a meus alunos que tecnologia é uma articulação entre a ferramenta (a internet o computador, os softwares etc.) e a imaginação. Nesse sentido acho que simples uso da internet não produz bons resultados em termos de aprendizagem. Isso pode resultar em trabalho correto, mas sem encantar o aluno para que este mergulhe no mundo de conhecimentos que precisa aprender.
Navego bastante pelo ciberespaço procurando coisas novas ou conferindo espaços que já conhecia. Seleciono exemplos que podem ajudar meus alunos a melhor entenderem como utilizar a rede mundial de computadores. Às vezes, por exemplo, peço a meus estudantes para criarem suas próprias obras no SlideShare, aquele espaço da internet onde as pessoas podem compartilhar suas obras em Powerpoint. Outras vezes mostro recursos como o Geografhy Zone, um software que oferece bons desafios para a aprendizagem de geografia política e humana num clima de jogo. E assim por diante.
Meu trabalho principal no campo de tecnologia educacional relacionada com a internet, além de experiências com blogs, acontece sobretudo em projetos voltados para as WebGincanas (um modelo de organização da informação que estou desenvolvendo desde 2004) e para as WebQuests, a genial invenção de Bernie Dodge. Confesso que meus alunos nem sempre se entusiasmam com tais propostas. Mas não desanimo. Sei que usos imaginativos das novas ferramentas tecnológicas não são algo que se possa aprender num curso ou num projeto. Exigem muito mais. Exigem mergulhos profundos no mundo da comunicação humana.

– Já sofreu alguma retaliação por parte de seus colegas ou recebe mais apoio?

Não. Nunca tive problemas com colegas de magistério por causa de meu envolvimento com as novas tecnologias da informação e da comunicação. Na universidade, mesmo os educadores que não conhecem bem as novas mídias me incentivam muito e pedem para que eu apresente para os alunos mais alternativas de uso das ferramentas tecnológicas.

– Conte-me um pouco sobre suas principais crenças quando o assunto é educação.

 

Minhas convicções educacionais são muito parecidas com aquelas indicadas por Gardner num livrinho chamado The Disciplined Mind. Acho que a educação é uma atividade que deve promover três coisas importantes para a humanidade: a verdade, a beleza e a bondade. Podemos desenvolver verdade por meio de uma aprendizagem das ciências. Podemos desenvolver gosto pela beleza por meio de programas que ajudem nossos alunos a apreciar as grandes obras de arte criadas por gênios com Mozart, Aleijadinho, Portinari, Machado de Assis etc. etc. Podemos promover bondade por meio de programas que ajudem nossos alunos a crescerem em termos de educação moral. Não precisaria acrescentar mais nada. Mas ouso fazê-lo. Creio que educação é atividade que deve fazer com que as pessoas desenvolvam mais e mais suas capacidades para encontrar o sentido das coisas e o sentido da vida. O sentido das coisas está ligado à nossa capacidade de entender o mundo por meio da ciência. O sentido da vida está ligado às nossas capacidades de buscar sempre o melhor possível (busca ética), e de apreciar a beleza das coisas e das produções humanas (busca estética). Essas coisas simples são tudo que a gente precisa ensinar…

 

– Dados pessoais

 

Sou professor. Mestre em tecnologia educacional pela San Diego State University e Doutor em Educação pela Unicamp. Escrevi dois livros, um sobre tecnologia educacional, outro sobre educação profissional. Participei de diversos projetos de produção de softwares para e educação. Sou blogueiro velho e uso bastante o ciberespaço para conversar com educadores e gente de comunicação aqui no Brasil e em outras partes do mundo. E apesar dos atuais vexames da equipe, continuo a ser um devoto corintiano.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: