Archive for 22 de junho de 2014

Prova de tecnologia educacional

junho 22, 2014

Entre os meus guardados, tenho provas que fiz para cumprir o dever de elaborar instrumentos que pudessem me ajudar a dar nota para os alunos. Eu nunca fui muito rigoroso em dar notas. Sempre utilizei critérios para que meus estudantes já partissem para a prova com nota 4, pois ninguém é ZERO. Nunca cheguei a dizer isso claramente para meus alunos. Eu partia da nota 4 como mínimo, o que tornava muito difícil a reprovação de quem eu avaliava. Neste post não vou conversar sobre avaliação. Vou apenas matar saudades, reproduzindo uma prova de tecnologia educacional que elaborei em 2006.

Tecnologia Educacional 4apgn
Avaliação Semestral

Universidade São Judas Tadeu
Curso de Pedagogia
Prof. Jarbas N Barato
Parte 1 (3 pontos)

Nas questões que seguem, escolha a melhor alternativa.

1. Atualmente, com a divulgação das novas TIC’s –Tecnologias da Informação e Comunicação – é comum um modo de pensar que pode ser chamado de instrumentismo. Esse modo de pensar pode ser caracterizado como:
___a) um entendimento de que os novos meios são “apenas ferrramentas” cujo uso depende de planejamento didático-pedagógico.
___b) a idéia de que basta adquirir e usar as novas ferramentas para que haja tecnologia no espaço escolar.
___c) a tendência de achar que o uso de novas ferramentas faz com que os alunos aprendam mais e melhor.
___d) a idéia de que usar ou não as novas ferramentas de comunicação é indiferente.
___e) a convicção de que os educadores precisam necessariamente utilizar as novas ferramentas.

2. Com as novas tecnologias da informação e da comunicação:
___a) passamos a contar com mais ferramentas para diversificar a comunicação dos conteúdos de conhecimento
___b) começamos a reorganizar os conteúdos e a estruturar maneiras inéditas de pensar
___c) podemos tornar a aprendizagem mais divertida, obtendo conseqüentemente melhores resultados
___d) passamos a enfrentar o desafio de maior dispersão e falta de atenção dos estudantes, dada a superficialidade dos novos meios
___e) assistimos a uma mudança radical no papel do professor.

3. Na história da educação, o deslumbramento causado pelo cinema oferece ótimo exemplo de erros de avaliação quanto ao papel que os novos meios de comunicação podem desempenhar em termos de aprendizagem. Isso fica muito claro em declarações de:
___a) Albert Einstein
___b) Henry Ford
___c) Thomas Edison
___d) Santos Dumont
___e) Emile Freinet

4. Cinema e TV, dos meios de comunicação que se desenvolveram no século XX:
___a) tiveram papel importante na educação escolar
___b) foram usados apenas por educadores inspirados pela Escola Nova
___c) ficaram restritos a programas de educação a distância
___d) educaram as pessoas fora dos muros escolares
___e) sofreram sérias resistência dos educadores

5. Visões negativas caracterizam os blogs como:
___a) forma de comunicação restrita a quem gosta de escrever
___b) publicações que incentivam promoção pessoal, superficialidade e fofocas
___c) instrumento de comunicação que exige muito conhecimento do funcionamento da Web
___d) moda passageira que não criará raízes no universo da comunicação humana publicações que incentivam promoção pessoal, superficialidade e fofocas
___e) produção muito trabalhosa, considerados os resultados de aprendizagem que proporcionam

6. Na linha de crítica ao instrumentismo, especialistas em tecnologia educacional chamam nossa atenção para o fato de tecnologia é:
___a) uma opção entre muitas outras
___b) é inteligência humana, não máquinas e equipamentos
___c) uso bem planejado dos recursos disponíveis
___d) opção que exige muita pesquisa do educador
___e) uso adequado dos novos meios de comunicação

7. O ingresso de novos meios de comunicação não tem efeito aditivo (antigo mundo + nova ferramenta). Há no caso mudança profunda comparável a:
___a) ruptura de paradigmas na ciência
___b) revoluções no campo do comportamento e dos costumes
___c) reformas substanciais na estrutura da educação
___d) alteração profunda de visão de mundo
___e) impacto ecológico de um novo organismo no meio ambiente

8. Especialistas preocupados com os rumos que a utilização dos novos meios de comunicação e informação vêm tomando, previnem-nos contra:
___a) a desumanização provocada pela tecnologia
___b) a idéia de que informação e conhecimento são sinônimos
___c) a perda de valores importantes promovidos pelas antigas tecnologia
___d) a idéia de que toda a aprendizagem precisa ser divertida
___ e) a ilusão de que os novos meios nos tornam mais inteligentes

9. Para serem usados com sucesso em educação, os blogs:
___a) precisam ser entendidos primordialmente como meios de comunicação com virtudes próprias
___b) devem ser replanejados para atender a finalidades específicas de aprendizagem
___c) precisam passar por uma atenta supervisão dos educadores para evitar superficialidades
___d) devem atender a orientações pedagógicas previamente definidas
___e) precisam ser produzidos de acordo com normas éticas e de bom gosto

10. Blogs, se usados como espaço de conversação, promovem aprendizagens não reguladas. Tais aprendizagens são conseqüência:
___a) da liberdade que o aluno ganha ao se tornar efetivamente um autor
___b) da experiência de redação que o aluno vai desenvolvendo à medida que publica seus posts
___c) da interação que vai acontecendo à medida que seus posts repercutem no ciberespaço
___d) das amizades virtuais que vão surgindo à medida que sua obra fica conhecida
___e) do efeito causado pela reflexão necessária à produção de suas mensagens

11. Blogs exigem produção textual. Mas não desenvolvem apenas redação no sentido tradicional. Eles são um instrumento importante para:
___a) familiarizar os alunos com o ambiente Web
___b) desenvolver sentimento de autoria
___c) desenvolver gosto pela redação
___d) aperfeiçoar estilo dos alunos-autores
___e) oferecer oportunidade para aprendizagens de produção hipertextual

12. Nas alternativas que seguem, assinale aquela que não corresponde a um entendimento correto do uso de blogs em comunicação e educação:
___a) eles (os blogs) são uma ferramenta para jovens
___b) para publicá-los, não é necessário muito conhecimento de informática, computadores e internet
___c) conversar, esta é a idéia central da produção e uso de blogs
___d) antes de usar, é preciso que os educadores compreendam a natureza comunicativa dos blogs
___e) ingressar na blogosfera é um meio de exercer cibercidadania

Parte 2 (4 pontos)

O mote de nossa disciplina este ano é a fórmula tecnologia = ferramenta + imaginação. Esse modo de pensar é um pouco diferente dos modos hegemônicos de ver o uso das novas ferramentas comunicativas no processo de ensino-aprendizagem. Explique, num ensaio de pelo menos vinte linhas de texto, as direções que a mencionada fórmula sugere para a atuação dos educadores.

 

Escola e Internet

junho 22, 2014

Reproduzo texto do meu amigo Bernie Dodge. É um escrito antigo, mas ainda muito atual.

 

Escolas, Habilidades e Andaimes na Internet*
Bernie Dodge
SDSU
A Internet e mais especificamente a World Wide Web, é sem dúvida a tecnologia mais comentada desde a invasão da televisão ocorrida após a Segunda Grande Guerra. Atualmente, mesmo os americanos mais tecnofóbicos ou mais excluídos sabem algo sobre ela, e ouviram mais de uma metáfora empregada para descrevê-la. Assim como aqueles cegos que examinavam o elefante, nós algumas vezes percebemos a Internet como uma auto-estrada, outras vezes como uma loja de jogos ou playground, outras vezes ainda como o mais atraente passeio de compras.

Desde um ponto de vista educacional, a Internet se parece com a maior biblioteca do mundo, ou pelo menos como a mais surpreendente livraria. Ela traz para as salas de aula uma imensa quantidade de informação, algumas delas mais frescas que o noticiário do jornal da manhã… outras enviesadas, outras apenas completamente erradas. Ao mesmo tempo (e de certa maneira relacionando-se com a qualidade da informação) a Web faz com que seja possível a todos, com acesso e habilidade, tornar público seu pensamento para uma imensa audiência. Não há editores, distribuidores ou gasto de grana com papel. Isso derruba os muros das salas de aula em ambas as direções: os alunos têm acesso a muito mais informação que nas épocas anteriores, e, ao mesmo tempo, têm uma imensa audiência para seus produtos.

Parece útil pensar então na Web, de ambos os lados de nossas escolas, como uma vasta fonte de dados e uma porta para milhões de leitores. O que está no meio disso tudo é a transformação da informação. Como é que isso tudo se compara com a escola tradicional dos longos e negros anos A. W. (Antes da Web)? Num certo sentido, as escolas parecem estar hermeticamente fechadas para o mundo exterior. As crianças ficam limitadas a livros e revistas da biblioteca escolar como fontes de informação, fontes que nunca são muito atualizadas nem profundas. Em termos de demonstração, a criatividade dos alunos não costuma ir além de uns cartazes pregados nas paredes de escola. E, nas piores salas de aula, a informação raramente foi transformada, na maior parte das vezes foi apenas gravada por tempo suficiente para se passar na prova.

O que faz nosso tempo uma ocasião muito interessante para o educador é a parte da entrada de informações (input) do modelo (de transformação de informação). Apesar da Web estar ainda na sua infância, nos já temos a oportunidade de analisar os mesmos dados que estão sendo trabalhados por cientistas ou operadores da Bolsa.

Nós podemos preparar experiências que requeiram o estudo de material que nossas escolas jamais poderiam comprar. Nós podemos mostrar-lhes museus, obras de artes e fotografias. Nós podemos afogá-los numa enchente de notícias mais detalhadas que as que podem ver na tela da TV em suas casas. De acordo com David Jonassen e associados, os contextos mais efetivos de aprendizagem são aqueles baseados em problemas ou casos, que engajam os alunos na situação requerendo deles a aquisição de habilidade ou conhecimento para resolver o problema ou manipular a situação.

Fazer o melhor uso de todos os novos inputs requer dos alunos certas habilidades; e no entusiasmo para trazer a Internet para a sala de aula, nós nos esquecemos de preparar os alunos para o trabalho. Isso pode nos levar para aquilo que podemos chamar de aprendizagem virtual, na qual os alunos estão muito ocupados explorando a Web ou conversando (via Internet) com especialistas distantes, mas não suficientemente preparados para aprender muito com a experiência.

Se há uma idéia chave nesta apresentação, ela é a de que os alunos de qualquer idade precisam ser apoiados (ajudados) na aquisição da habilidade de processar informação na medida em que integrarmos tecnologia às nossas escolas. O que distingue atividades excelentes de telecomunicações das apenas boas é o grau de apoio dos educadores no processo.

 

 
*Original: Schools, Skills and Scaffoldind on the Web
Tradução: Jarbas Novelino Barato
novembro/2002

 

Blogs e tecnologia educacional

junho 22, 2014

Em 2007 dei uma entrevista para a revista Mestre. Do que escrevi, em reposta às perguntas que me fizeram, pouca coisa foi publicada, apenas uma nota sob uma foto minha que ocupava uma página inteira da revista. O texto integral ficou entre meus guardados e eu até já tinha me esquecido dele. Hoje, vendo velhos arquivos, reencontrei a entrevista. Publico-a aqui na sua forma integral.

– Gostaria que você me contasse como foi a criação do Boteco Escola. O que originou a ideia.

 

Em 2005 comecei a trabalhar a questão do uso de blogs na educação com meus alunos do 4° ano de pedagogia. Durante dois anos utilizei uma abordagem semelhante à utilizada por Bernie Dodge, da San Diego State University, e David Carraher, da Universidade de Harvard, enfatizando a questão da escrita. Eu estava convencido de que blog é sobretudo um espaço que pode criar grandes incentivos para a escrita e a leitura. Mas não fiquei satisfeito com os resultados obtidos. Meus alunos, assim como os alunos do Bernie e do David, assumiram a tarefa de produzir blogs como um dever escolar. O resultado foram espaços burocráticos (feitos para ganhar uma nota, nada mais) e sem alma. Neste ano resolvi mudar,. Porém não sabia como. Por causa de minha insatisfação comecei a reestudar blogs nos campos da comunicação e da educação. E descobri uma coisa nova. Descobri que os blogs são sobretudo lugares organizados para promover boas conversas. Resolvi passar essa mensagem para os meus alunos.
Se a gente acredita em algo é bom dar exemplo. Por isso, em vez de apenas pedir a meus alunos que criassem espaços para conversas interessantes, resolvi criar um blog especial para conversar com meus estudantes e com educadores interessados em usos de meios para se comunicarem no ciberespaço. No começo a ficha não caiu. Eu estava fazendo um blog tradicional, apesar de saber que a maior atração da blogosfera é a conversa, o papo sem compromisso. Aí resolvi encontrar espaços de conversa que pudessem inspirar meu trabalho. E descobri que em nossa terra o melhor exemplo de espaço para bons papos é o boteco. Descobri mais coisas. Há muitos blogs inspirados pela idéia de que bares, botecos e tascas é um exemplo a seguir na construção de locais de encontro na blogosfera. Conseqüência? Meu blog passou a se chamar Boteco Escola. Estou cada vez mais convencido que o clima de liberdade, de bom humor, de amizade, de gosto de viver presente em bons botecos pode ser uma fonte de inspiração para os educadores.

 

– Você dá aula há quanto tempo?

 

Dou aula desde 1967. Comecei com professor do antigo ginásio e do curso normal. Mas fiquei fora do magistério durante bastante tempo (de 1972 a 1992), época em que exerci cargos de supervisão e direção no Senac de São Paulo. Em 1992 voltei à sala de aula, desta vez na universidade, lecionando de tecnologia educacional nos cursos de pedagogia e licenciatura. Mas mesmo nos meus tempos de supervisão e direção não deixei de todo o trabalho docente. Muitas e muitas vezes atuei como docente em cursos de formação em serviço para docentes do Senac, da Secretaria de Educação e de outras instituições.

 

– De que maneira trabalha para ajudar seus alunos a se interessarem por assuntos educativos na internet?

 

Me esforço muito para mostrar a meus alunos que tecnologia é uma articulação entre a ferramenta (a internet o computador, os softwares etc.) e a imaginação. Nesse sentido acho que simples uso da internet não produz bons resultados em termos de aprendizagem. Isso pode resultar em trabalho correto, mas sem encantar o aluno para que este mergulhe no mundo de conhecimentos que precisa aprender.
Navego bastante pelo ciberespaço procurando coisas novas ou conferindo espaços que já conhecia. Seleciono exemplos que podem ajudar meus alunos a melhor entenderem como utilizar a rede mundial de computadores. Às vezes, por exemplo, peço a meus estudantes para criarem suas próprias obras no SlideShare, aquele espaço da internet onde as pessoas podem compartilhar suas obras em Powerpoint. Outras vezes mostro recursos como o Geografhy Zone, um software que oferece bons desafios para a aprendizagem de geografia política e humana num clima de jogo. E assim por diante.
Meu trabalho principal no campo de tecnologia educacional relacionada com a internet, além de experiências com blogs, acontece sobretudo em projetos voltados para as WebGincanas (um modelo de organização da informação que estou desenvolvendo desde 2004) e para as WebQuests, a genial invenção de Bernie Dodge. Confesso que meus alunos nem sempre se entusiasmam com tais propostas. Mas não desanimo. Sei que usos imaginativos das novas ferramentas tecnológicas não são algo que se possa aprender num curso ou num projeto. Exigem muito mais. Exigem mergulhos profundos no mundo da comunicação humana.

– Já sofreu alguma retaliação por parte de seus colegas ou recebe mais apoio?

Não. Nunca tive problemas com colegas de magistério por causa de meu envolvimento com as novas tecnologias da informação e da comunicação. Na universidade, mesmo os educadores que não conhecem bem as novas mídias me incentivam muito e pedem para que eu apresente para os alunos mais alternativas de uso das ferramentas tecnológicas.

– Conte-me um pouco sobre suas principais crenças quando o assunto é educação.

 

Minhas convicções educacionais são muito parecidas com aquelas indicadas por Gardner num livrinho chamado The Disciplined Mind. Acho que a educação é uma atividade que deve promover três coisas importantes para a humanidade: a verdade, a beleza e a bondade. Podemos desenvolver verdade por meio de uma aprendizagem das ciências. Podemos desenvolver gosto pela beleza por meio de programas que ajudem nossos alunos a apreciar as grandes obras de arte criadas por gênios com Mozart, Aleijadinho, Portinari, Machado de Assis etc. etc. Podemos promover bondade por meio de programas que ajudem nossos alunos a crescerem em termos de educação moral. Não precisaria acrescentar mais nada. Mas ouso fazê-lo. Creio que educação é atividade que deve fazer com que as pessoas desenvolvam mais e mais suas capacidades para encontrar o sentido das coisas e o sentido da vida. O sentido das coisas está ligado à nossa capacidade de entender o mundo por meio da ciência. O sentido da vida está ligado às nossas capacidades de buscar sempre o melhor possível (busca ética), e de apreciar a beleza das coisas e das produções humanas (busca estética). Essas coisas simples são tudo que a gente precisa ensinar…

 

– Dados pessoais

 

Sou professor. Mestre em tecnologia educacional pela San Diego State University e Doutor em Educação pela Unicamp. Escrevi dois livros, um sobre tecnologia educacional, outro sobre educação profissional. Participei de diversos projetos de produção de softwares para e educação. Sou blogueiro velho e uso bastante o ciberespaço para conversar com educadores e gente de comunicação aqui no Brasil e em outras partes do mundo. E apesar dos atuais vexames da equipe, continuo a ser um devoto corintiano.