Educação de pé no chão

Trago para cá velha foto de um grupo de alunos da escola em que fiz o curso primário, o Grupo Escolar Coronel Francisco Martins, de Franca, SP. Não é coisa do meu tempo. A turma mostrada é da década de vinte do século passado, eu frequentei a escola na metade dos anos cinquenta. Tenho dois objetivos com a iniciativa: homenagear o velho Coronel e refletir um pouco sobre um detalhe da foto. Com o registro, minha escola da infância já fica homenageada. Vamos ao segundo objetivo.

Há na turma vários meninos de pés descalços. Certamente suas famílias não tinham recurso para comprar calçados. Eles iam para escola com os pés cascudos e grossos que, quando muito, viam uma botina na missa dos domingos. A constatação tem um lado triste e um lado alegre. A tristeza é a de que aquela molecada de pé no chão devia ser muito pobre. A alegria é a de que, apesar da pobreza, os meninos descalços tinham acesso à educação e conviviam com crianças de todas as extrações sociais.

No meu tempo, trinta anos depois, ainda havia muitos meninos descalços no Coronel. Eu era um deles. Faço este registro sem qualquer mágoa. O Coronel era uma escola muito boa e eu fiz um ótimo curso primário. Além disso, como os meninos pobres dos anos vinte, convivi com crianças de todos os segmentos sociais. No meu quarto ano, por exemplo, além dos muitos filhos de operários, nossa classe tinha filhos de donos de fábricas, de proprietário de um hotel, de médicos, de fazendeiros. Acho que essa diversidade não mais existe em nossas escolas públicas. Os filhos das classes abastadas estão hoje em escolas particulares.

Convido os leitores a olhar bem os pés dos meninos descalços. Não são pés compactos. Os dedos estão bem separados pois não foram formatados pelos sapatos. Olhem também as caras da meninada. Há brancos, há mestiços, há caboclos, há negros. Essa composição possivelmente ainda exista na escola pública. Mas, é improvável que ocorra na escola privada.

A contemplação da foto sugere muitas outras reflexões sobre educação. Convido os leitores a fazê-las, examinando detalhes desta foto histórica à beira do centenário. E, se quiserem colaborar com suas reflexões, registrem-nas aqui em comentários.

pé no chão

 

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Uma resposta to “Educação de pé no chão”

  1. Luzia Helena Juliatti Says:

    Prezado Professor, a escola era popular e valorizavam-se os professores, o ensino e os livros. Não havia sapatos e ninguém sofria da síndrome da centopéia, como hoje em dia! Minha mãe foi professora primária e sempre nos conta que tirava os sapatos para caminhar até a escola, pois havia lama. E assim faziam os alunos que tinham um sapato ou chinelo. Lá, calçava-se os sapatos (se os tivesse) após lavar os pés. Tudo era aproveitado na escola, nada desperdiçado, pois as dificuldades eram enormes e todos tinham que aprender a valorizar tudo. Uma coisa era certa: todos concluíam o primário sabendo a tabuada, conferir um troco. O básico era ensinado e aprendido. Hoje, vemos todos calçados, mas nem todos sabem conferir ou mesmo dar um troco sem olhar na tela do computador do ponto de venda. Isso me deixa triste, quase tanto como saber que algumas pessoas só possuíam um par de sapatos para o domingo… Grande abraço.

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