Nova geração de velhos

velho no trampo 1 Outro título para este post: cursos para terceira idade é coisa do passado. Creio que o texto que segue explica bem isso.

Está na cara que há um novo fenômeno demográfico no planeta, a formação de um estrato representativo de cidadãos com mais de sessenta anos. O grupo com mais de sessenta anos já chega ou ultrapassa os 20% da população em muitos países. E a tendência é a de que mais e mais nações chegarão lá em breve.

O fenômeno não é novo apenas porque o número de velhos está crescendo. Novidade maior é a de que essa gente mais madura é saudável e produtiva. Quer e precisa trabalhar. Além disso, muitos países com índices de crescimento populacional abaixo das taxas de reposição precisam do trabalho dos velhos.

Comecei a me interessar pelo fenômeno do envelhecimento da população bem antes de chegar aos sessenta. Mas, não encontrei número significativo de estudos sobre a matéria. Parece-me que o fenômeno inicialmente ficou restrito aos especialistas em demografia. Em outras áreas das ciências sociais, os estudos eram raros ou inexistentes. Muitas vezes refletiam apenas curiosidades de caráter folclórico.

Por causa dos reflexos do envelhecimento da população sobre os sistemas de assistência médica, o fenômeno da novidade dos velhos mereceu inicialmente mais atenção no campo da saúde. Mas, nos campos que mais me interessam, educação e trabalho, ainda não há boa quantidade e qualidade de estudos.

Em educação é típica a proposta que fica apenas na superfície da questão: as universidades da terceira idade. Já faz algum tempo que instituições de cursos superiores criaram programas especiais para os velhos. Tais programas são quase sempre ofertas de atividades para que os idosos possam “ocupar o seu tempo”. Há inclusive marketeiros que consideram tais programas um nicho de mercado, ideia que consagra as universidades da terceira idade como negócio oportuno. Nada tenho contra os cursos para ocupar o tempo dos velhinhos, pois estes últimos vão para a escola com muito entusiasmo e interesse. Mas, como já disse, a universidade da terceira idade é uma ideia do passado. Os velhos não querem apenas se ocupar na escola, querem aprender coisas úteis para continuarem ativos, para continuarem na força de trabalho.

Com dez ou mais por cento da população na marca dos sessenta ou maios anos, a principal questão não é a oferta de atividades para ocupar tempo. O desafio maior é o de identificar e oferecer oportunidades de trabalho e educação formal para número expressivo de pessoas maduras. Os sessentões e setentões estão aí. A economia precisa deles não como consumidores, mas como  produtores. E eles precisam de trabalho. A capacitação profissional  e atualização profissional das pessoas mais idosas precisam de cuidados especiais em termos metodológicos. Nada ver com as soluções construídas para a aprendizagem de crianças e jovens. O que é bom para os jovens não o é necessariamente para gente madura. Há aqui um desafio pedagógico sério que ainda não foi considerado por faculdades de educação.

Na minha vizinhança, vejo senhoras idosas fazendo um trabalho leve de assistência para consumidores de supermercado ou livraria. Algumas empresas ofertam tal tipo de emprego para mostrar uma face mais humana de vendas.  Aplaudo a medida. Mas, isso é uma gota d’água no oceano de necessidades de emprego para velhos. A grande maioria dos homens e mulheres maduros querem trabalhos normais.

Ainda predomina a ideia de que produtividade é função de entusiasmo juvenil. Por isso, muitas empresas se empenham em juvenilizar seus quadros, oferecendo, para os velhinhos, condições bem favoráveis de aposentadoria. Essa medida entrou em conflito com o envelhecimento da população, pois nas próximas décadas os jovens trabalhadores não poderão sustentar ganhos de aposentadoria que garantam boa qualidade de vida para quem já ultrapassou a barreira dos sessenta. É muito mais sábio assegurar para os velhos trabalho “normal”, em vez de ocupações para “idosos”.

Há um bocado de preconceitos no campo da capacitação e atualização profissional de gente mais velha. Preocupa-me, por exemplo, a ideia hegemônica de que sessentões tem dificuldades insuperáveis para lidar com tecnologias digitais. Quando gente velha usa computadores no cotidiano e no trabalho sem grandes dramas, há quem ache que os casos sejam de exceção. Pura bobagem. Os computadores pessoais já estão na praça há mais de trinta anos. Quando começaram a invadir o mundo, os velhos de hoje eram jovens adultos, muitos deles pioneiros em usos das maquinetas no trabalho, na educação, na vida pessoal. Isso aconteceu até com um desconfiado caipira como eu. E olha que nos anos oitenta usar computadores exigia a aprendizagem de muitos truques, uns até bem complicados.

Volto ao tema mais geral da educação dos velhos nos dias de hoje. É preciso ter em conta que velho aprende. Mas, não aprende de acordo com a psicologia da aprendizagem que é ensinada até hoje nas faculdades de educação. Para eles, não funcionam os antigos preceitos de didática tradicional. Talvez eles precisem de mais tempo. Certamente tem uma rica experiência que não pode ser ignorada. Precisam de programas que façam sentido para seu presente e futuro. Poucos deles precisam apenas de ocupar o tempo com coisas que os gringos chamam de nice to know, a maioria merece programas voltados para o need to know. E quando forem para a universidade dispensarão aqueles cursinhos desenhados para a terceira idade.

Aqui vão duas indicações de leitura sobre o tema:

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3 Respostas to “Nova geração de velhos”

  1. Pilar Farre Says:

    Gostei muito do seu texto. É um chamado para tema pouco considerado neste pais e isso ocorre, penso eu, porque ficamos atrelados a sistemas e propostas educacionais que não servem mais a sociedade. Que não consideram que as pessoas estão vivendo + e bem em boa parte do mundo. Pessoas envelhecem e continuam produtivas por muito anos depois da chamada aposentadoria formal, que em nosso país, diga-se de passagem não significa possibilidade de qualidade de vida. Pessoas com mais de 60 anos são, na grande maioria, produtivas, criativas e interessadas em trabalhar e dar continuidade ao seu desenvolvimento. Tenho diversos exemplos em meu grupo de relações mais próximas. No entanto, a nao ser que tenham se aposentado em áreas que favorecem a prática de um trabalho autônomo – consultores internos de empresas ou instituições; prestadores de serviços em diversas frentes; profissionais de ONG na área social ou atuem em alguma área do serviço público, a grande maioria terá, como vc diz, muita dificuldade em encontrar uma ocupação que aproveite a sua experiência e conhecimentos e, mais ainda, uma formação voltada para o desempenho profissional. Nas universidades, nos famosos cursos para pessoal + velho, além da oferta de “momentos superficiais de ampliação da cultura geral”, enfatiza-se a oferta de programas básicos de informática e dos voltados ao aprendizado e aperfeiçoamento de idiomas estrangeiros – nada contra, mas é uma alternativa planejada para preencher tempo ou torná-lo + útil ( ocupar cérebros ociosos) ou favorecer contatos/vida social…
    Tomara que vc continue interessado e aprofunde as suas reflexões. E nos mantenha a par dos resultados desse caminho. Da minha parte, por ora, vou lerereler o seu texto e os outros dois indicados e pensar melhor essa temática. Instigante.
    Abraços caro mestre.
    Pilar Farre

  2. marinhos Says:

    Meu caro Jarbas, com certeza sou um dos novos velhos. Novos tempos, novos velhos …

  3. Annamaria Vicini Says:

    Muito interessante! Na Italia tambem temos este problema

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