Antropologia: um subsídio

Vai aqui um subsídio que escrevi, mas não utilizei, em tempos que dava aula na Pedagogia:

  Antropologia Filosófica

 

Jarbas Novelino Barato

Subsídio didático

Usj

Antropologia é a ciência da humanidade. Ou seja, é a ciência que estuda a especificidade de um bicho muito especial; um bicho capaz de entender que ele próprio pode ser objeto de estudo. De uns cento e poucos anos para cá existe uma ciência muito interessante chamada antropologia social. Ela estuda sobretudo as diversas culturas humanas e tenta estabelecer generalidades que possam ser aplicadas a qualquer agrupamento humano mais ou menos permanente. Os antropólogos pesquisaram bastante as estruturas de parentesco, por exemplo, pois acreditam que por mais diversas que sejam as sociedades humanas, as regras sobre os laços familiares [com configurações extremamente diversas] são um dado universal. Além disso, a produção de mitos, o cuidado com as crianças, os modos de elaborar a comida, o culto aos mortos etc. são temáticas que aparecem em qualquer livro de antropologia cultural. Mas todas essas coisas não são filosofia. A antropologia filosófica é bastante diferente da antropologia social.

 

De onde partir para uma reflexão filosófica sobre a humanidade? Acho que um caminho pode ser o de como a cultura popular vê a vida. Para começar a conversa, vou eleger uma das grandes obras do cinema. O filme A Noite dos Desesperados. Produzido em 1969, o citado filme retrata uma situação acontecida durante a Grande Depressão de 1929 [época em que a economia mundial passou por uma profunda crise, marcada por desemprego em massa e enormes problemas econômico-sociais]. No filme, os personagens centrais  são os participantes de um torneio de dança cujos vencedores seriam o casal que permanecesse por mais tempo na pista. O torneio se estende por muitos dias. Os casais, exaustos, lutam com todas as forças para não pararem de dançar. Todos sonham com um prêmio que lhes dará alguma esperança numa época de muito desespero. A dignidade humana sucumbe frente a interesses imediatos de sobrevivência. O filme é uma história que mostra uma das muitas faces deprimentes da vida humana e antecipa os famosos reality shows que conhecemos tão bem em nossos dias.

 

O nome original do filme é They shoot horses, don’t they? [Eles atiram em cavalos, não atiram?]. E tal título tem uma razão de ser: uma das personagens pede para ser executada com um tiro. Qual o argumento? Cavalos com ferimentos graves são sacrificados geralmente com um tiro de misericórdia. Os nobres animais se quebrarem uma das pernas num lugar inóspito não têm qualquer chance de continuar a viver. Por isso, execuções de cavalos com fraturas é uma cena comum nos velhos filmes de bang-bang. Matar cavalos feridos é um ato de piedade. No filme, a personagem que implora por uma execução apresenta-se como alguém sem qualquer esperança, sem qualquer razão de viver. Vê em sua execução um ato de misericórdia.

 

Há alguma diferença entre cavalos gravemente feridos e seres humanos inteiramente desesperados? Que razões apresentar para condenar quem pede uma execução em tais circunstâncias? Eles não atiram em cavalos? Por que não atirar num ser humano que perdeu a razão de viver? O filme, assim como as questões aqui levantadas, é uma grande metáfora. Mas, apesar do tom ficcional, apresenta um desafio que precisa ser considerado seriamente. A eliminação de seres humanos sem esperanças de vida não é apenas uma matéria de ficção. Na velha Esparta, crianças nascidas com alguma deficiência física ou mental eram eliminadas [atiradas do alto de uma montanha da cidade]. Platão, em a República, apóia a solução espartana. Em nossos dias, há muitos defensores de medidas de eliminação fetos que possam apresentar sinais de determinados defeitos físicos ou mentais. Certos registros etnográficos dizem que nalgumas tribos esquimós, pessoas de muita idade são deixadas para trás nas vastidões geladas do Ártico. Para que os mais jovens possam comer e sobreviver, os velhos, que já não podem produzir, são deixados à própria sorte [e morrem, de frio e fome, com certeza].

 

Os fatos dramáticos do filme, e das culturas espartana e esquimó, mostram o lado negativo de um modo de ver a humanidade. Na verdade, acreditamos que a vida humana, qualquer que ela seja, precisa ser defendida. Nesse sentido, valorizamos de um modo muito particular a vida dos seres humanos. Consideramo-nos como algo especial. Essa diferença que pensamos existir entre nós e os outros animais pode ser um ponto de partida para a construção de uma antropologia filosófica. Mas que temos nós de especial? Por que não devemos ser eliminados quando um ferimento profundo, físico ou afetivo, parece indicar que a vida deixou de ter sentido? Por que essa sacralidade da vida humana?

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