O Saber do Trabalho

Faz alguns anos que escrevi resenha de livro do Mike Rose sobre saber dos trabalhadores. A resenha foi publicada no Boletim Técnico do Senac, mas não consigo encontrá-la na Web. Por isso, recorro á primeira versão de tal resenha, arquivada entre meus guardados.

Resenha de livro

ROSE, Mike. O Saber no trabalho: valorização da inteligência do trabalhador. Trad.  de Renata Lúcia Bottini. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2007, 253 p.

 Descritores do conteúdo do trabalho ignoram dimensões importantes dos saberes dos trabalhadores. Tais descritores padecem de sérios limites por causa de modos de ver as profissões e de metodologias que não consideram as tramas cognitivas e sociais demandadas pelo fazer. O resultado são modos de ver a atividade produtiva, sobretudo a manual, como uma prática sem inteligência. As conseqüências disso no campo educacional consagram o famoso erro de Descartes, a divisão insuperável entre mão e cérebro, corpo e mente. Mike Rose, professor da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), busca superar esse modo tradicional de ver o saber dos trabalhadores.

O autor  cresceu entre ferroviários e foi criado por uma mãe que sustentou a família com seus ganhos como garçonete. Ele chegou à universidade por meio de mecanismos de inclusão para alunos das camadas populares. Tais acidentes biográficos ajudaram-no a construir uma abordagem do trabalho que faz  emergir a riqueza da inteligência presente em profissões como as de garçonete, cabeleireira, carpinteiro. Uma abordagem muito diferente daquelas que alicerçam análises ocupacionais ou definições de competências.

No primeiro capítulo, o autor vê os serviços de restaurante a partir de entrevistas com sua mãe e outras garçonetes. E Rose vê muito mais que competências e habilidades no trabalho das garçonetes. Vê um rico exercício da inteligência que decorre da dinâmica dos fazeres necessários aos serviços de restaurantes. Boa parte dessa dinâmica é invisível para analistas centrados em aspectos observáveis do trabalho. Não fica evidente para esses analistas, por exemplo, estratégias utilizadas para otimizar atendimento a oito mesas com clientes que chegaram em tempos distintos e têm demandas muito diferentes de serviços; ou estratégias de memória para relacionar pedidos e gostos de clientes num horário de rush no qual cada garçonete atente a cerca de trinta pessoas.

No segundo capítulo, o autor analisa a profissão de cabeleireira com base em encontros com profissionais de diversos tipos de salões de beleza. O resultado é bastante parecido com o obtido a partir da conversa com as garçonetes. Nos três capítulos seguintes, Rose estuda profissões da área de construção civil. Mas desta vez suas observações não foram feitas a partir de diálogos com profissionais experientes. Ele examina o saber de profissões como as de encanador, eletricista e carpinteiro acompanhando o cotidiano escolar de estudantes e professores. As análises, no caso, mostram o fluxo de um saber que não cabe na forma dicotômica do par teoria e prática. Ao descrever discurso e fazeres dos estudantes, Rose mostra desdobramentos estéticos e éticos que estudos convencionais  ignoram completamente.

O sexto capítulo foi construído a partir de duas biografias de trabalhadores: um supervisor de linhas de montagem, uma soldadora que ensina seu ofício num curso de nível tecnológico. O supervisor formou-se em atividades do chão de fábrica. A soldadora aprendeu seu ofício em cursos técnicos e tecnológicos. Ambos, porém, vêem o saber do trabalho a partir de uma cultura operária. Nos capítulos finais, Rose procura articular toda a riqueza de suas análises de profissões manuais com a elaboração do saber. Para isso recorre a estudos contemporâneos no âmbito das ciências cognitivas. E observa que tais estudos tornam inadequado o tratamento dicotômico do saber em teoria e prática, conhecimento e habilidade. Para mostrar que a visão tradicional estigmatiza certo trabalho manual, o autor acompanhou, no regime de residência de um hospital, a formação de cirurgiões. Uma das conclusões de Rose é a de que o fazer-saber de médicos cirurgiões tem a mesma natureza que o fazer-saber de carpinteiros. Ocorre, porém, que o trabalho médico tem um status muito elevado, circunstância que valoriza as técnicas de cirúrgicas sem considerar sua natureza de saber em ação.

A escolha da profissão de garçonete como ponto de partida para os estudos que resultaram no livro não foi determinada apenas pela biografia do autor;  Rose escolheu a garçonete como um ícone de seus estudos porque essa profissão é vista nos Estados Unidos como atividade que requer pouca inteligência e escassa capacitação. Referências á garçonete são muito parecidas com as afirmações que se fazem no Brasil sobre o pedreiro. Num e noutro caso, ambas a profissões são vistas com destino para pessoas de limitadas capacidades intelectuais. A riqueza dos saberes exigidos pelas duas profissões acaba ficando invisível. Os próprios trabalhadores que exercem tais ofícios são invisíveis. Essa invisibilidade ocorre por causa dos pressupostos a partir dos quais pesquisadores abordam o trabalho manual. A invisibilidade do saber profissional no caso é conseqüência de uma escolha metodológica. Saberes, tradições, visões de mundo e valores elaborados pelos trabalhadores em seus fazeres profissionais acabam não entrando na pauta de investigação. Sobram apenas habilidades mensuráveis e objetivamente descritíveis.

O aspecto central do livro de Mike Rose é a interação entre o trabalhador e sua obra. O autor desvela a relação entre o profissional e a vontade de realizar um trabalho bem feito. Este modo de ver não reduz o saber trabalhar a habilidades ou competências, a parcelas de conhecimento desvinculadas de compromissos sociais e da satisfação de produzir. Esta orientação para a obra pode ser muito promissora para investigações  sobre conteúdos do trabalho e escolhas metodológicas na área de educação profissional.

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