NOVAS TECNOLOGIAS: RESISTÊNCIA E SUBMISSÃO

Há uns dois meses, um amigo do CNE me pediu para ler e escrever algumas considerações sobre uma lista de objetivos propostos ao MEC para orientar ensino-aprendizagem de atitudes no campo da educação profissional e tecnológica. A lista era bastante problemática, incluindo muitas expectativas que refletiam uma visão acrítica de valores.

Das observações que fiz, interessam os comentários que elaborei para analisar criticamente a seguinte atitude:

* [O aluno] Usa diferentes tecnologias no contexto do processo produtivo e da sociedade do conhecimento.

É um pouco estranha esta expectativa. Ela tem dois pressupostos duvidosos. O primeiro é o de que novas tecnologias (digitais), aplicadas ao processo produtivo e à vida cotidiana, são boas per se. O segundo é o de que trabalhadores e cidadãos que se recusam a utilizá-las têm necessariamente um comportamento condenável.

É preciso lembrar que a introdução de novas tecnologias no processo produtivo é, muitas vezes, causa deprejuízos para os trabalhadores, com empobrecimento ou desaparecimento de algumas ocupações, e com redução de oportunidades de emprego. Nesses casos, resistência dos trabalhadores não é uma atitude condenável. Introdução de novas tecnologias pode revelar contradições, conflitos de interesses. Se ignorar isso, o sistema educacional passa a mensagem de que o reconhecimento de contradições por parte dos trabalhadores é uma resistência irracional a uma das virtudes dos novos tempos. [Esse comentário deveria ser considerado em políticas de capacitação de professores para que estes usem TIC’s]

Há cidadãos que, por livre escolha, decidem restringir em suas vidas uso das novas tecnologias da informação e comunicação. Essa pode ser uma escolha fundada em bons motivos. Afinal de contas, o que há de errado com pessoas que não querem ver seu espaço privado invadido continuamente por chamadas de celulares? [BTW, eu sou uma dessas pessoas]. Estar sempre em rede, usar GPS ou qualquer outro recurso parecido, utilizar as redes sociais da Web etc. não é uma obrigação, nem é uma virtude. É uma opção (ou, às vezes, uma imposição incentivada pelos interesses de vendas das empresas fornecedoras de serviços de informação). Por isso, parece que o papel dos sistemas educacionais no caso não é o de promover uma visão que pode interessar apenas ao mercado, mas o de ajudar os estudantes a não embarcarem ingenuamente em novidades.

Trabalhar as possíveis contradições que podem resultar de certos arranjos de usos das novas tecnologias no plano produtivo, assim como trabalhar a questão do uso livre de modernos meios de comunicação, não é tarefa fácil para as escolas. Mas, estas não podem se isentar de suas obrigações de convidar os alunos a refletirem sobre as consequências do uso intensivo e indiscriminado de novas tecnologias. A definição da “atitude esperada” nessa primeira proposta sugerida ao MEC parece desconsiderar duas categorias importantes em conversa sobre valores: contradição (que pode refletir interesses de classe), e liberdade de escolha. Convém, portanto, rever a formulação de expectativa de “virtude” neste primeiro item.

Há uma ampla literatura que discute usos de novas tecnologias da informação e comunicação numa perspectiva crítica. Vou mencionar algumas das obras e autores que abordam a questão. É preciso ressaltar que muitos desses autores não são sisudos filósofos ou conservadores que olham desconfiados para o progresso. Algumas das vozes que fazem alertas contra a tecnofilia que deixa de lado considerações sociais e históricas são de cientistas das ciências da computação. Começo com Donald Norman, cientista que foi vice-presidente de R&D da HP e da Apple. Num de seus livros (Things that make us smart. Addison-Wesley, 1993), Norman mostra que as tecnologias precisam ser desenvolvidas tendo em vista modos humanos de lidar com informação e elaborar conhecimentos. Ele lembra, entre outras coisas, que há uma perspectiva equivocada nos modos de ver ciência e tecnologia. E dá um exemplo de como tal erro aparecia nos velhos tempos. Em 1933, a Feira de Chicago teve o seguinte lema:

A ciência descobre, a indústria aplica, os homens se adaptam.

A proposta de “adaptação” sugere neutralidade da ciência e tecnologia. Ignora história. Sugere submissão a processos guiados por conveniências de engenharia, não por interesses humanos. A observação do autor chama nossa atenção para diversos aspectos que não podem ser ignorados no âmbito da educação. Não há espaço aqui para contemplar algumas das ideias de Norman sobre tecnologia e vida do cidadão. Interessados podem recorrer a um texto do próprio autor numa tradução provisória feita tempos atrás e disponibilizada aqui no Boteco Escola.

Observo que a primeira atitude esperada é uma versão modernizada da Feira de Chicago.

Outra referência importante em conversas sobre novas tecnologias da informação e comunicação é a que segue:

  • KAPTELININ, Victor; NARDI, Bonnie A. (2006). Acting with technology: activity theory and interaction design. Cambridge: Massachusetts: MIT Press.

 

A obra referenciada utiliza como marco conceitual A Teoria da Atividade, um modo de ver tecnologia, influenciado pelo pensamento de Vygotsky. Os autores oferecem um panorama compreensivo da Teoria da Atividade, ilustrado por narrativas sobre diversos projetos de design interativo de produtos de TIC.  

Escrevi resenha dessa obra de Kaptelinin e NardiEm tal resenha, cito trecho dos autores e acrescento comentário que cabe aqui:

 

Em TA as pessoas agem com tecnologia; as tecnologias são planejadas e utilizadas em contexto de pessoas com  intenções e desejos. Pessoas agem como sujeitos no mundo, construindo e concretizando suas intenções e desejos com objetos. TA mostra a relação entre pessoas e ferramentas como uma mediação; ferramentas são mediadoras entre pessoas e mundo. (p.10)

 

É necessário clarear o significado de dois conceitos associados aos princípios atrás enunciados: assimetria entre pessoas e coisas, e desenvolvimento humano. O primeiro conceito procura marcar diferenças entre atores humanos e ferramentas e sistemas. A principal diferença é a de que pessoas, ao contrário de outros atores do jogo tecnológico, agem por causa de certos motivos. O segundo conceito procura enfatizar que as pessoas passam por diferentes fases de desenvolvimento nos planos psicológicos, sociológicos e históricos. Sem entender o desenvolvimento humano é impossível entender mediações das ferramentas.

 

Em sua obra, Kapetlinin e Nardi mostram que decisões sobre usos de novas tecnologias podem encontrar resistências. E os autores alertam-nos de que é preciso examinar tais resistências como expressão de contradição. Eles ressaltam que as tecnologias fazem parte de um jogo entre atores que podem ter interesses conflitantes. Neste sentido, sugerem que a resistência muitas vezes não é luddismo irracional, mas expressão de aspectos sócio-históricos que não podem ser ignorados em momentos de decidir que aplicações tecnológicas convém implantar.

Outra obra a considerar:

  • COYNE, Richard. Designing information technology in the postmodern age: from method to metaphor. (1997)Cambridge, MA: MIT Press.

Resenhei também este livro. Haveria muito o que comentar a partir da obra de Coyne, um cientista de computação da Universidade de Edinburgo. Anoto apenas que o autor insiste na necessidade de ver tecnologia no bojo da história, não como uma categoria neutra e sem ligações com interesses. Infelizmente não disponho de tempo para comentar algumas das ideias de Coyne. Deixo a indicação da resenha para quem se interessar pelo assunto.

Faço uma última indicação: Computer Power and Human Reason, obra do cientista da computação Joseph Weisenbaum (W. H. Freeman and Company, 1976). O autor, entre outras coisas de interesse para essa nossa conversa, destaca:

  • Computadores não chegaram na hora H para nos ajudar a resolver problemas cada vez mais complexos. Boa parte de tais problemas nasceu de uma opção por aumentar controle e vigilância sobre o cidadão.  Boa parte dos problemas que exige enormes recursos computacionais é consequência de opções políticas.
  • Nos acostumamos a pensar que tecnologias digitais e ciência devem independer de escolhas éticas. Isso, para Weizenbaum é um engano que pode trazer sérias consequências indesejáveis para a vida e para a natureza.
  • Computadores até podem imitar conhecimento humano. Mas, até agora não conseguem imitar sabedoria. E mesmo que venham a consegui-lo, convém não permitir que tal coisa aconteça.

 

Em anos recentes, apareceram muitas obras críticas sobre a questão do desenvolvimento e uso de tecnologias da informação e comunicação. Vou indicar algumas delas, sem comentá-las:

 

  • CARR, N. (2010) Shallows: What the internet is doing to our brains. New York: W. W. Norton & Company.
  • CHRISTIAN, B.(2011). The Most Human Human: What talking with computers teaches us about what it means to be alive. New York: Doubleday.
  • PARISER, E. (2011) The Filter Bubble: What the internet is hiding from you. New York: The Penguin Press.
  • VAIDHYANATHAN, S. (2011). The Googlization of everything (And Why We Should Worry). Los Angeles: University of California Press.
  • WRESCH, (1996) Disconected: Haves and have-nots in the information age. New Jersey: Rutgers University Press.
  • WU, T. (20110). The Master Switch: The rise and fall of information empires. New York: Alfred A. Knoff.

No campo ficcional, há também obras que abordam criticamente as tecnologias da informação e comunicação. Cito dois romances que merecem leitura para conversas sobre o tema;

  • FITIPALDI, Felix Acosta. (2010). Ctrl-Alt-Supr reiniciar. Montevideo: Trandinco SA.
  • LIGHTMAN, Alan. (2000). The Diagnosis. New York: Random House, Inc.

Há comentários neste Boteco sobre os seguintes livros aqui referenciados:

Uma resposta to “NOVAS TECNOLOGIAS: RESISTÊNCIA E SUBMISSÃO”

  1. Novas tecnologias: resistência e submissão | Escola, computador e Cia. Ilimitada Says:

    […] Para ler todo o post do Jarbas, clique aqui.  […]

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