TIC e Educação: Onde as coisas mudam? (3)

Na conversa que rola sobre o tema no blog da Tatiane Martins, publiquei trecho de um paper que escrevi para a Fundação Telefonica em 2005. Achei que valia a pena publicar o tal trecho aqui também.

Há uma questão muito difícil de ser trabalhada. Trata-se dos efeitos educacionais que os usos não escolares de uma tecnologia podem causar sobre a educação. Muitas soluções tecnológicas são frutos do acaso e não há como prever suas conseqüências (Norman, 1993).  Tecnologias da comunicação e da informação tiveram e têm, portanto, conseqüências inteiramente inesperadas. Gutenberg, segundo Postman (1993), acreditava que o livro impresso seria um grande promotor da fé católica. O que o inventor da imprensa jamais foi capaz de imaginar é que os livros, sobretudo a bíblia, seriam um elemento importante no surgimento do protestantismo. Sei que não há muito a fazer, mas os usos não escolares da Internet certamente terão efeitos imensos sobre a educação. Um desses efeitos já está em andamento: a fé crescente numa educação divertida. Como disse atrás, muitos educadores converteram-se a essa fé. Onde estão as origens? Muito provavelmente nos  meios de comunicação cuja marca maior é o entretenimento. Acho que a Internet poderá reforçar esse traço. E a solução não está, a meu ver, num empenho para mostrar que a Internet pode ser usada educacionalmente. Se fizermos isso, perderemos a guerra antes da primeira batalha. Domesticar pedagogicamente a mídia é um erro que já deveríamos ter aprendido desde os tempos da “televisão educativa”. O tema precisa ser melhor discutido e entendido por nós educadores.

 

Encerro este trabalho com uma consideração que deveria ser a primeira. Tom Snyder, genial inventor de modelos para softwares educacionais tem uma expressão que jamais pode ser esquecida: “não existem materiais didáticos a prova de professores”. (Snyder, 1988). Esse alerta surgiu de uma experiência do citado autor. A editora para qual ele trabalhava promovia seus softwares por meio de concorridas conferências para professores. Numa delas, palestrando para mais de quinhentos educadores, Snyder deu-se conta de que estava sugerindo que os materiais poderiam funcionar como elementos centrais do processo ensino-aprendizagem. Nesse momento achou que estava enganando a si próprio. Os agentes de mudança não são as ferramentas, mas as pessoas que as usam. Por isso, por mais fascinante que sejam os possíveis usos da Internet em educação, é preciso não esquecer que mais fascinantes são os atores das tramas do aprender. Alunos e professores, essas são as peças essenciais no processo de mudança e em usos mais efetivos e conseqüentes  das novas tecnologias da informação e comunicação.

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