Inteligência das mãos

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 Foto de AntonioTedim

O entendimento comum costuma reservar para as atividades manuais um lugar secundário no campo da inteligência. O fazer das mãos é visto como “mera habilidade”. Ou seja, é visto como atividade que não exige muito conhecimento ou até mesmo nenhum conhecimento. Chegamos a isso depois de alguns milênios de elaboração de saberes que privilegia abstrações intelectuais cuja manifestação se reduz a proposições, a discurso.

A desvalorização do trabalho manual é estranha. Em primeiro lugar porque a manifestação mais evidente de inteligência humana é o trabalho. É pelo trabalho que mudamos o mundo. É pelo trabalho que construímos novos mundos que nos transformam. Em segundo lugar porque nossa atuação no mundo é corporal. O mundo ignora o discurso, mas pode mudar em função de movimentos. Os movimentos mais expressivos são os das mãos.

Deixamos de olhar para as mãos. Há quase que uma cegueira social nesse sentido. E isso é engraçado. De vez em quando, nos cafés que frequento, passo longo tempo observando pessoas conversando. Não as ouço, nem quero saber o que falam. Presto atenção no balé das mãos. Essas não param. Enfatizam o discurso. Reforçam explicações. Comunicam os sentidos que a palavra não consegue expressar. Mas, quem fala e quem escuta não percebe toda a expressividade das mãos em diálogos comuns, em conversas do cotidiano.

Ao ver o balé das mãos dos conversadores, confirmo minhas convicções de que na história da nossa espécie os gestos antecederam as palavras. Hoje sobram resquícios da riqueza gestual em movimentos dos quais não tomamos consciência.

Não quero estender em  demasia este post. Quero apenas provocar e propor. A provocação aparece nos parágrafos anteriores. A proposição vem a seguir.

Convido os educadores a olharem para mãos no trabalho. Como isso pode ser demorado, caso procuremos ver trabalhadores em seus locais de trabalho, acho que a solução pode ser um filme. E temos filmes assim. Acabo de ver um deles, In Praise of Hands.

O filme é uma produção de 1974 e mostra gente produzindo em várias partes do mundo: Japão, México, Canadá, Polônia etc. As cenas concentram-se nas mãos, na sua articulação, no seu movimento fluente, na sua influência para que a obra vá ganhando forma. As mãos se movimentam a partir de avaliações constantes das mudanças que vão acontecendo com a matéria prima. Trabalhador, ferramentas e materiais articulam-se com fluência, com aparente naturalidade. Todas as produções são exemplos primorosos de inteligência, de inteligência das mãos.

Paro por aqui, sugerindo aos interessados que vejam o filme com muito carinho e reparando como as mãos expressam um saber que não cabe nos limitados limites do discurso.

Segue link para o filme.

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