Educação, felicidade, prazer e diversão

Acabo de enviar comentário no Face Book, numa conversa com ex-alunas sobre educação, felicidade e diversão. Meu comentário faz referência a artigo da Professora Ariana Cosme. Indico link do referido artigo, publicado pela Folha de São Paulo:

A partir do artigo, escrevi as seguintes considerações:

Li o artigo. Sensato. Mas, para continuar a conversa é preciso estabelecer algumas distinções. A primeira delas é a de que felicidade não é sinônimo de diversão. Há muitos palhaços infelizes. Tédio é um vizinho da infelicidade. Gente entediada não é necessariamente infeliz, mas está no caminho… Excitação produzida por espetáculos não é sinal de felicidade. O espetáculo pode envolver completamente o indivíduo, mas não lhe dá a paz de consciência necessária para ser feliz.

 

A escola pode ser um espaço de infelicidade. Há uma história exemplar sobre isso. Santo Agostinho (o grande africano nascido na Numídia em 354 DC) narra seus dissabores na época em que foi obrigado a aprender as primeiras letras. Em suas Confissões, ele lembra o pavor que sentia diante do mestre escola, um personagem que usava meios violentos para que as crianças “entrassem na linha” (cumpre observar que observação semelhante é feita por Henri Marrou no clássico “História da Educação na Antiguidade”). Para Agostinho, a escola primária foi uma época de pavor. Nela, os alunos eram certamente infelizes.

Há um contraste interessante na vida de Agostinho. Nas mesmas Confissões ele narra o prazer que lhe deu aprender as categorias de Aristóteles, um conteúdo de filosofia que era um desafio quase que intransponível para seus colegas de estudos universitários em Cartago. Vencer o desafio das categorias deu ao rapaz africano grande prazer, embora o estudo do conteúdo fosse exigente, sem qualquer traço de diversão.

 

Na escola, prazer em aprender é motivo para felicidade. A grande questão no caso é como trabalhar para que a aprendizagem seja prazerosa (embora, quase nunca divertida). Há outros elementos necessários no caminho da felicidade, autoestima é um deles e a autora, a meu ver ressalta este ponto ao mostrar que os alunos não são ignorantes. Não sabem tudo. Tem muito que aprender. Mas, isso acontece também com os professores. Outra coisa: qualquer emprego de violência (física ou simbólica) para colocar alunos na linha é motivo de infelicidade.  Hoje a violência física é rara. Mas, a violência simbólica está muito presente. Faz alguns anos que dediquei alguns posts do Boteco Escola a isso, mostrando que a arquitetura escolar quase sempre é manifestação de violência simbólica.

 

Felicidade não é direito apenas do aluno. Felicidade é um direito do cidadão. Há aqui, porém, um problema: o que é felicidade? A autora do artigo parece considerar que a resposta é de todos sabida. Tenho cá minhas dúvidas. E, se não temos ideias muito claras sobre o que é felicidade, podemos correr o risco de confundi-la com diversão. É o que parece estar acontecendo nas faculdades de educação. Há muito investimento em diversão com a vã esperança de que alunos envolvidos com atividades espetaculares serão necessariamente felizes.

Jarbas Novelino Barato (comentário no Face Book, dia 15/01/2013)

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7 Respostas to “Educação, felicidade, prazer e diversão”

  1. Vanessa Vieira Says:

    Gostei muito do texto professor Jarbas. A colocação sobre a felicidade é sensacional. Não podemos usar esta palavra como uma palavra apenas, ela exige mais de nós.

    Muito bom te ler!

  2. Liliana Leite da Silveira Penna Says:

    o que é felicidade? um dos significados para mim é ter prazer em conhecer, em descobrir novas coisas.. na escola e na vida. E feliz o mestre que mostra como isso pode ser prazeroso. Feliz o discípulo que aprende a delícia do conhecimento. Sendo assim, a Educação pode e deve ser prazerosa, pode e deve nos fazer feliz…. .

  3. Ivo Martins Cambui Says:

    Professor Jarbas, que bela enfoque felicidade, gostei. O importante mesmo e vivencia-lá. Abraços do seu admirador.

  4. Sérgio Lima Says:

    Caro Prof. Sérgio Jarbas.

    Tenho duas felicidades em ler esse texto.
    1- A sensatez e as informações do texto em si.
    2- A alegria de saber que ele não se perderá ou ficará inacessível a todos, se ficasse somente dentro dos jardins murados do FB.

    Abs

  5. giulio vicini Says:

    Não sei se a questão é “felicidade” e se existe de direito e de fato um direito à felicidade. Acho que a escola poderia melhorar partindo de uma busca das coisas que podem torná-la um ambiente mais agradável para os alunos. Por que não perguntar a eles o que poderia tornar a escola mais agradável e como fazer isto? Não poderia ser o começo?

  6. Antonio Morales Says:

    Jarbas…conhece este vídeo? http://vimeo.com/37982580#at=0

    Este documental muestra el trabajo de un profesor, Toshiro Kanamori, durante un año en la escuela pública infantil Minami Kodatsuno de Japón, en la ciudad de Kanazawa (de unos ocho mil habitantes).

    En él, se muestra como Toshiro Kanamori, enseña a los niños a descubrir las claves de la felicidad y la convivencia. Su método se basa en educar a los niños desde un ambiente de respeto absoluto y desarrollando la empatía. Toshiro Kanamori respeta y empatiza con sus alumnos, enseñando a estos que escuchen sus emociones. Escucharse ayuda a conocerse a si mismo, empatizándo con los demás y traduciéndose esto, en un creciente respeto y sentimiento de felicidad.

  7. eduardo sposito Says:

    Jarbas,
    Felicidade, assim como o conhecimento, a sabedoria, o amor… e muitas outras coisas, não é um ponto de chegada. É um caminho a ser percorrido, uma meta a ser buscada.
    E como todo caminho ele é feito de momentos alegres ou tristes. de desespero e de euforia, de fracassos e de sucessos.
    A desgraça é quando perdemos a gana de trilhar esse caminho em busca da felicidade. E a escola tem um papel importante para que isso não ocorra.
    E ela tem dois grandes instrumentos para isso.
    O primeiro é a sua própria razão de ser: ser um espaço onde os alunos podem ter acesso ao conhecimento socialmente acumulado, organizá-lo e transformá-lo.
    O segundo é o caráter coletivo da escola. Você não aprende sozinho. você aprende com os outros… inclusive com o professor.
    E eu não vejo outra maneira melhor de se buscar a felicidade, se não for coletivamente: é na solidariedade que a tristeza, os deseperos, os fracassos são amenizados e superados.
    Se a escola desistimula a vontade universal de aprender e não promove a ação coletiva, ela está desviando o sweu pessoal do0 caminho da felicidade.
    Caminhemos!

    Eduardo

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