Introdução em eventos educacionais

Há certa tradição no sentido de que as introduções em eventos educacionais estejam centradas no assunto, não nas pessoas que precisam aprender. Isso é um erro comum. Erro de entendimento. Erro de uma herança que é muito comum em livros didáticos.

Durante muitos anos, em minhas aulas de tecnologia educacional, trabalhei com WebQuests. Meus alunos, individualmente ou em grupos, deviam desenvolver WebQuest sobre assunto de sua área e agrado. Um dos gargalos que apareciam nos projetos apresentados era a Introdução. Quase sempre, essa parte incial da WQ era redigida a partir do modelo que eles conheciam, o modelo dos livros didáticos. Eu sempre dizia a meus alunos: “na Introdução, vocês precisam conversar com os fregueses, devem buscar interesse, não apresentar o assunto”. Mas, sempre era muito difícil conseguir mudanças significativas. Velhos modelos costumam ter muita força.

Enfrentei o mesmo problema num projeto que desenvolvi para a TV Escola há uns três anos, num  programa que se chamava Desafio Escolar. Tal programa registrava um desafio de elaboração de algum evento ou produto por equipes de alunos, abordando assuntos quase sempre pluridisciplinares. Exemplo: redação de um manual para que pequenos agricultores aprendessem a criar abelhas nativas (este foi  primeiro desafio que propus). O Desafio Escolar era análogo ao modelo WebQuest. Ele consistia num convite para produzir algo concreto, exigindo pesquisa e estudos de cada equipe envolvida no trabalho. Outro desafio sobre o qual já fiz comentário aqui foi o Mesa Americana, um convite para que os alunos produzissem um jantar exclusivamente com alimentos nativos das Américas.

Nos Desafios, a abordagem da escola e dos alunos era situação equivalente a introduções em eventos educacionais. Mas, a tradição “didática” também pesava no caso. O roteirita, quase sempre, não seguia minha indicação e fazia “introduções” que lembravam livros didáticos. No processo de revisão de roteiro, eu insistia na necessidade de uma introdução centrada nos fregueses, não no assunto. Confesso que, na maioria das vezes, fui voto vencido.

Num dos Desafios, a proposta foi a de realizar uma manifestação pública contra o bullying. Tal manifestação deveria ter todas as caracterícas de eventos públicos para que a população alvo ficasse sensibilizada, envolvendo um mix de campanha, folhetos, palavras de ordem, discursos, músicas e outros instumentos de comunicação os alunos achassem necessários. Não vou entrar em detalhes quanto ao desenvolvimento do Desafio Escolar sobre bullying. Quero apenas mostrar um registro de observação que fiz sobre a questão da “introdução”, uma vez que a primeira introdução apresentada pelo roteirista não se casava com os princípios uma chamada capaz de buscar interesse dos alunos. Recupero o que escrevi na ocasião. Acho que minhas notas são um ponto de partida para conversas sobre introdução em qualquer material ou evento com finalidades educacionais.

Nota sobre primeira parte do programa e introdução ao tema na escola

A primeira parte de um Desafio deve buscar interesse. Interesse pelo que? Interesse por um assunto que deve ser estudado. E interesses não nascem de informações sobre o conteúdo, nascem da compreensão de problemas ou de encantamentos sugeridos por determinadas situações.

Não cabe apresentar informações na introdução. Ela não é uma ocasião para instruir, para ensinar. Nela, o que é apresentado deve provocar nos alunos curiosidade, deslumbramento, perguntas. Deve provocar sentimento de que o desafio proposto faz sentido e é uma atividade que vale a pena.

Na Introdução, escola e produção de TV devem escolher modos de apresentação que caminhem na direção do interesse. No caso do bullying, uma das formas de criar interesse é a de oferecer um contexto que mostre problemas de violência física e/ou simbólica contra pessoas ou grupos “diferentes”. Algo que crie algum impacto e mostre a irracionalidade de práticas gratuitas de ataque a pessoas mais fracas ou que tenham alguma característica particular. Nessa parte não se deve apresentar aquilo que os alunos precisam aprender sobre o assunto. Nessa parte, o que importa é que os alunos “comprem” o tema.

Fazer introdução a assuntos de uma Desafio (pelo menos em desafio como o nosso, que segue orientações metodológicas parecidas com as do modelo WebQuest) exige alguma mudança em formas de apresentação. Introduções em materiais didáticos ou em materiais de TV com finas educacionais costumam oferecer uma visão geral do assunto ou antecipar o que vem pela frente. Não é isso que queremos.

O que queremos é uma apresentação que mostre importância do que vamos abordar. E para mostrar importância de algo precisamos, entre outras coisas, emocionar, envolver, indignar, relacionar tema com vida das pessoas.

Para situar o que estou tentando passar, vou oferecer um exemplo concreto. Tom March, autor de ótimas WebQuests, fez uma Introdução excelente para  um trabalho que propunha estudo da ética, tendo como referência questões sociais importantes em nosso mundo. Para tanto, o autor escolheu um caso concreto que envolveu ética e ciência, Tuskeege Tragedy. É preciso reparar que o caso escolhido por Tom não era material para ser estudado. Era um fato da história contemporânea que gerou indignação e levantou bandeiras com relação á ética. Segue o texto de introdução do material em foco:

 “Introdução

Imagine que você é uma pessoa pobre vivendo em tempos economicamente difíceis. O seu governo lhe oferece tratamento médico gratuito. Parece bom. Mas a verdadeira razão pela qual o governo o procurou é porque você tem certa doença. Em vez de lhe proporcionar assistência médica, os doutores estão apenas acompanhando o que acontece quando a doença observada não é tratada. Suponha que ocorra um milagre e a ciência encontre uma cura para a tal doença. Mas, em vez de lhe dar o novo remédio, os médicos continuam o experimento que tem por objetivo observar o desenvolvimento “natural” da moléstia. Passam-se anos; alguns de seus companheiros, que também estavam sendo objeto de estudo, morrem, outros passam a doença para suas mulheres e filhos. Será que isso é uma sinopse para um novo filme? Será que alguém seria tragado por um roteiro tão inacreditável como esse? Será que esse é mais um caso de “arte que imita a vida”? Deixemos de suspense: aqui está a verdade, de acordo com uma reportagem da CNN:

“No começo da década de 1930, 399 homens foram inscritos pelo Serviço Público de Saúde dos EUA para um plano de assistência médica gratuita. O Serviço estava conduzindo um estudo sobre os efeitos da sífilis no corpo humano. Os homens nunca foram informados de que tinham sífilis. Os médicos lhes disseram que eles tinham “sangue ruim”. Esses sujeitos observados jamais foram tratados, mesmo depois da descoberta da penicilina em 1947. Quando o estudo tornou-se público em 1972, 28 homens tinham morrido de sífilis, 100 outros tinham falecido por causa de complicações relacionadas com essa doença. Pelo menos 40 esposas tinham sido infectadas, e 19 crianças contraíram a moléstia ao nascerem.”
(Retirado do CNN Interactive’s Tuskegee Study Website)

É difícil imaginar algo tão cruel como essa história. É por isso que muitas pessoas passaram a usar o caso da Pesquisa Tuskegee em comparações com outros tópicos como aborto, controle de armas, e experimentos em campos de concentração. Há razões para esse tipo de comparação? Nesta WebQuest, você decidirá.”

No nosso caso (Bullying), a introdução pode ser desenvolvida em atividades que envolvam vídeo e música no âmbito da escola. No programa de TV o que precisa ser apresentado são as situações que serão mostradas aos alunos para que estes vejam que é importante fazer o que propõe o Desafio. Se conseguirmos provocar interesse, o s alunos estudarão o tema cientes da importância de se prepararem bem para realizar a tarefa que será proposta.

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