Do auditório para o laboratório

Nesta foto (já publicada aqui no Boteco em outra ocasião), Steen Larsen é a grande figura ao meu lado (sou o único engravatado), numa conversa que tivemos com Paulo Freire, muitos anos atrás, na biblioteca da casa do grande educador brasileiro. A conversa rendeu um belíssimo artigo do Steen que pode ser visto aqui.

Meu amigo Steen Larsen usa analogia que acho ótima para falar da necessária mudança das escolas para melhor aproveitar as novas tecnologias da informação e comunicação. Tal analogia aparece em muitas das minhas falas e textos.

Qual é a analogia? Steen diz que a educação escolar tem como referência um auditório. Nesse auditório, os alunos recebem informação, funcionando como depósitos de conteúdos previamente selecionados por autores, livros didáticos, professores. O educador escandinavo diz que temos agora uma ótima oportunidade para virar a mesa e converter a educação escolar num laboratório, num local onde ocorre transformação de informações em conhecimentos pessoais.

Faz tempo que o Steen me enviou um artigo incompleto sobre o assunto. Traduzi trecho para publicar oportunamente. Mas, o arquivo ficou perdido entre meus guardados. Agora, um amigo do Face, Lirio Ar, acaba de me pedir indicação de entrevista em que falo da referida analogia. Tentei achar a  entrevista e não a encontrei. Achei, porém, a tradução do trecho do texto enviado pelo Steen. Assim, para encurtar caminho e oferecer para o Lirio a referência solicitada,  publico aqui as palavras do meu amigo-irmão lá da Dinamarca.

O COMPUTADOR  É UM INSTRUMENTO DE LABORATÓRIO

 Steen Larsen

 

 

A nova tecnologia da informação pode, sem dúvida oferecer possibilidades para se atingir melhores resultados na educação. Mas isso não é garantido. No momento vemos, mundo afora, uma fascinação com essa tecnologia que ocasionalmente atinge quase que um caráter messiânico: ela irá resolver todos os nossos problemas, e miraculosamente irá converter nossas salas de aula tradicionais em poderosas áreas de aprendizagem.

 

Fascinação é sempre algo baseado em algum nível de ignorância. Quanto menos você sabe, mais você será vítima dessa fascinação que existe em dois campos opostos: o positivo e o negativo. A fascinação positiva geralmente é caracterizada por grande conhecimento sobre computadores e tecnologias, e, simultaneamente, ausência de conhecimento sobre educação. Essa última condição leva as pessoas a pensarem que educação e instrução são uma questão de como colocar conhecimentos num software, e como apresentar o conhecimento assim formatado aos alunos. A fascinação negativa, por outro lado, geralmente é caracterizada por grande conhecimento sobre educação e, simultaneamente, ausência de conhecimento sobre computadores e tecnologias. Tal condição leva as pessoas a pensarem que as novas tecnologias irão destruir toda a educação humana e, como conseqüência final, eliminar a própria cultura.

 

Não devemos ficar fascinados. Devemos ter uma atitude realista com relação às novas tecnologias na educação. Se estivermos fascinados positivamente, correremos o risco de perder dinheiro. Se estivermos negativamente fascinados, correremos o risco de perder grande número de novas oportunidades. Assim, o principal princípio para nosso trabalho com computadores deve ser o de que essas máquinas e suas tecnologias são ferramentas – não um fim em si mesmas. Isso significa que devemos reconhecer que a qualidade da aprendizagem produzida pela tecnologia depende de qualidade de nossas considerações educacionais sobre o uso dela (da tecnologia), não da sofisticação da tecnologia enquanto tal. Não devemos eletrificar velhos princípios educacionais e, com base nisso, passar a acreditar que renovamos a educação. Cabe observar, porém, que o uso de computadores ocorre muitas vezes sem qualquer relação com princípios teóricos necessários.

O computador nasceu no laboratório científico, local dentro do qual teve um desenvolvimento como uma ferramenta para resolver diversos tipos de problemas. O ensino tradicional, por outro lado, nasceu no auditório, um local onde os estudantes mais ou menos passivamente escutam ou ouvem falar sobre a solução de problemas. Esta oposição entre laboratório e auditório é um dos mais sérios obstáculos para a implementação de novas tecnologias na educação. Se o computador for colocado de modo irrefletido nas salas de aulas tradicionais ele se converterá num professor eletrônico, o que mudará a educação apenas na superfície. Explicar isso e desenvolver as necessárias novas teorias da educação que podem prevenir o uso simplista dos computadores é a principal tarefa de universidades e outras áreas de pesquisa educacional, numa busca de auxílio para que a escola pública possa enfrentar os desafios das novas tecnologias.

Muitas investigações mostram que a apresentação de assuntos via computador é mais eficiente que o ensino tradicional de sala de aula, mas apenas no curto prazo. Algumas dessas investigações reexaminaram os resultados um ano e meio depois e descobriram que a vantagem desaparece a longo prazo, não havendo qualquer diferença significativa entre a apresentação via computador de uma aula expositiva tradicional. Por que? Porque o computador/professor eletrônico geralmente torna o aluno tão passivo e receptivo como o fazia o ensino tradicional de sala de aula. Assim como na forma auditorial tradicional um grande número de informações foi transferido para o estudante. Essas informações tendem a desaparecer rapidamente se não forem transformadas em conhecimento pessoal pelo aluno.

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