Microliteratura no parachoque do caminhão.

Durante muitos anos, os caminhoneiros faziam literatatura nos parachoques de seus veículos. Valia de tudo: crítica social, bravatas sexistas, mensagens religiosas, manifestações de solidariedade, etc. Tal literatura precisava ser micro, pois o espaço disponível para a escrita era pouco. No geral, os textos em parachoques não ultrapassavam cem caracteres, precedendo em muitos anos as produções literárias confinadas ao espaço disponível numa tela de celular. Quase sempre, os ditos em parachoques eram bem humorados, mesmo quando tinham destacado tom crítico. Exemplo disso é o texto que aparece na imagem que abre este post.

Há alguns anos, um legislador mal humorado resolveu proibir a literatura de parachoques de caminhões, alegando distração que poderia provocar acidentes. Não me lembro de algum acidente com tal causa. Por isso, acho que a proibição da microliteratura dos irmãos da estrada foi um ato de preconceito. Uma pena que isso tenha acontecido! É possível também que a interdição à escrita em parachoques de caminhões tenha como raiz um moralismo tacanho. Certamente o autor de tal lei não apreciava mensagens como esta que reproduzo a seguir.

A produção dos irmãos da estrada era uma expressão legítima de cultura popular. Ás vezes vencia o mau gosto. Mas, quase sempre, predominavam reações bem humoradas diante de uma vida dura e exigente de quem engole milhares de quilometro de estrada por todo o país. Ler a microliteratura de parachoques era divertido. Era educativo. Escrever nos parachoques era um exercício de liberdade, de autoexpressão. Era uma oportunidade para que os caminhoneiros pudessem dizer a própria palavra.

Meu interesse pelos escritos em parachoques de caminhões é literário. Os motoristas de nossa terra foram pioneiros num formato de literatura que muitos acham que é invenção dos tempos digitais. A literatura que produziram é uma forma de escrita muito criativa. Trago mais um exemplo para ilustrar esta fala.

Se você quiser se deliciar com um bom número de frases encontradas na traseira de caminhões clique aqui.

Ao pesquisar microliteratura de parachoques, resolvi imitar algumas invenções dos caminhoneiros. É divertido. É um desafio que pode nos ajudar a escrever criativamente. Com base nessa experiência pessoal, achei que cabe sugerir exercícios de escrita baseados nas criações de nossos irmãos das estradas. Essa possibilidade pode ser desenvolvida em diversos cenários. Imaginei dois deles. Primeiro: proposta de criação de um livrinho digital sobre Literatura de Parachoque, no qual metade das criações seria de frases que apareceram em caminhões e metade seria composta por criações dos alunos. Deixo a tarefa de desenhar tal projeto à iniciativa de quem queira desenvolvê-lo numa escola. Segundo: elaboração de uma WebQuest sobre Microliteratura de Parachoques. Delineio a estrutura da WebQuest.

  • Introdução: mostra de duas ou três figuras com parachoques literários; duas linhas sobre cultura popular; observação sobre prazer de ler e esc rever coisa que nos toca.
  • Tarefa: não vou escrever um texto definitivo para a tarefa, mas sugerir um rumo. A tarefa poderia ser proposta na seguinte direção: “Vocês são caminhoneiros e foram convidados a participar de um concurso de microlitaratura de parachoques. Para participar, vocês deverão produzir dez textos – de no máximo 150 caracteres – para parachoques, seguindo uma velha tradição dos profissionais do volante. Os promotores do concurso estabeleceram que as criações precisam abordar, pelo menos, cinco temas: política, religião, família, vida na estrada e educação. No trabalho preliminar vocês podem produzir quantas frases quiserem, mas, no final, deverão encaminhar apenas as dez que considerarem as mais criativas.”
  • Processo e Recursos: grupo de quatro participantes; divisão de papéis para estudar microliteratura, sociologia dos irmãos da estrada, repertórios de frases em parachoques de caminhões; fornecimento de fontes na internet para estudo dos alunos; sugestão de caminhos a serem seguidos; esclarecimento de que todos os integrantes deverão redigir frases de microliteratura de parachoques.
  • Avaliação: quem quiser criar a WebQuest proposta deverá elaborar uma rubrica que considere os quatro aspectos mais importantes a serem avaliados na produção dos caminhoneiros-escritores.

A título de subsídio, forneço a seguir dez exemplos de frases típicas da literatura de parachoques de caminhões. Cinco delas são autênticas e foram recolhidas em pesquisas feitas por meu amigo Frei Luiz Gonzaga, OAR. Cinco delas são criações minhas. Não vou revelar origem de cada uma delas. Deixo para você, leitor, um desafio: advinhe quais textos são autênticos e quais textos são criações minhas.

  • Existo porque insisto.
  • Deus não pede dízimo pra me abençoar.
  • Deus dá o juízo e a pinga tira.
  • Não beba dirigindo, você pode derrubar a cerveja.
  • Emprestei uns trocados pra Deus. Ele ainda não me pagou o que deve.
  • Na minha ausência, não tente conquistar a gata lá de casa. Ela odeia cachorro.
  • Errar é humano. Colocar a culpa em alguém é estratégia.
  • Partir e chegar é bom. Mas, eu gosto mesmo é de viajar.
  • Para quem está perdido qualquer atalho serve.
  • Troco este caminhão por três anos de anistia do IPVA.
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