Epistemologia, metodologia científica e percepção

Há um pressuposto importante quando falamos em conhecimento. O que sabemos tem como uma de suas bases o modo pelo qual percebemos o mundo.

Na linguagem comum, quase sempre, reduzimos percepçâo à visão. Diante de alguma questão sobre o saber, é comum a pergunta: “como você vê isso?”. Não falamos em percepção do mundo, falamos em visão do mundo.

As considerações aqui introduzidas de modo telegráfico surgiram a partir de comentário feito por minha amiga Ivete Palange a uma mensagem que postei no Facebook. Em tal mensagem, indiquei uma história clássica do folclore mundial que recontei num blog, provocando minhas alunas para pensarem sobre epistemologia. A história que recontei é a dos cegos que examinaram um elefante e, de acordo com sua percepção, formularam definições muito diferentes para o bicho. No final deste post vou copiar minha versão da história. Antes disso, copio o comentário da Ivete:

Adorei ser apresentada a ilustres docentes/sábios de Ray Ban. Conhecer depende de referências, intuição e sentidos. Questão que não quer calar: por que os sábios somente usaram o tato e não o olfato e a audição?

De imediato, escrevi no Face a seguinte resposta para minha amiga:

Ivete Palange, levanta aqui uma questão interessante em metodologia da pesquisa. Em termos mais gerais, a questão que ela levanta tem a ver com entendimentos epistemológicos em suas relações com a percepção. Equiparamos “conhecer” a “ver”. Quando enfatizamos abordagens empíricas, a necessidade de “medidas”, quase sempre, ficam reduzidas a espectos que passam pelo tato. Olfato e gosto ficam de fora. Escrevi um pouco sobre isso numa resenha que fiz sobre o livro The Philosophy of Wine.

Se foi até o link indicado para The Philosophy of Wine, você viu que as reflexões epistemológicas ignoram alguns dos nossos sentidos. Ao que tudo indica, a epistemologia tradicional não consegue acomodar gosto e olfato como referências para o saber.

Neste post não pretendo desenvolver mais as questões levantadas. Minha preocupação é apenas a de fazer um registro e oferecer, para quem se interessar, algumas notas para conversas sobre conhecimento e metodologia científica. Por isso, passo de imediato para o fragmento final que quero deixar registrado aqui: a história dos cegos e do elefante, na versão que recontei para minhas alunas em 2007.

 Havia antigamente, no norte da Índia, uma cidade cujos habitantes eram todos cegos desde o nascimento. Mas, apesar de não poderem conhecer o mundo iluminado pelo sol, os cegos de Ray Bhan (pois é… esse era o nome da cidade) queriam ter idéias claras de tudo o que existe no mundo. Por isso, a URB (Universidade de Ray Bhan) sempre mandava equipes de pesquisadores para estudos em todas as partes do planeta. Foi assim que começou a aventura de seis sábios de Ray Bhan enviados ao Ceilão. A missão deles incluía estudos sobre o chá, os búfalos, as areias de praias do Oceano Índico etc. Mas a tarefa mais emocionante que receberam foi a de descobrir o que era um elefante. E a pesquisa desses seis estudiosos de Ray Bhan sobre o famoso paquiderme virou história. Talvez você a conheça. Mas, eu quero recontá-la, pois ela nos diz muito sobre meios e modos do conhecer. É um clássico mundial de epistemologia.

Um guia de elefantes trouxe para estudo dos sábios seu bicho mais bonito, um animal de sessenta anos, grande, forte e saudável. A equipe de Ray Bhan usou seu preciso e fino tato para examinar o bicho. Os sábios analisaram profundamente aquele magnífico animal. Depois do exame, cada pesquisador procurou oferecer uma definição bem fundamentada de elefante.

— Dizia um: Que bicho esquisito! Nunca apalpei nada igual. Parece uma coluna coberta de pêlos!

— Você está variando? Coluna que nada! Elefante é um enorme abano, bom para espantar o calor! Dizia um outro cientista da URB.

— Qual abano, colega! Elefante é uma adaga ou uma espada. Uma arma poderosa, dizia o terceiro pesquisador. Seu tato anda falhando…

— Vocês estão todos enganados, caros colegas, dizia o quarto pesquisador. O bicho não é arma, não é espada, não é coluna. É apenas uma corda viva, não muito comprida.

— Quanta ignorância, doutores! Como é que vocês não perceberam que o elefante é uma enorme e poderosa serpente capaz de derrubar até árvores? Essa era a linha de pesquisa do quinto investigador.

— Colegas! Espanta-me a ignorância de vocês. Apesar de muita prática de pesquisa, não perceberam que o elefante é uma enorme montanha que se move? Assim argumentava o sexto sábio.

E a discordância continuou durante os muitos dias de viagem na volta para Ray Bhan. Não houve acordo. Por isso, na enciclopédia da URB há seis definições de elefante. Uma conflitando com a outra. E até hoje os habitantes de Ray Bhan não têm uma idéia definitiva do que vem a ser bicho tão afamado.

Morais da história:

Aqui estão duas morais da história fornecidas por um dos narradores da famosa aventura dos pesquisadores cegos de Ray Bhan:

Quando algo é tido como verdade, o que é diferente parece mentira.

Se você for falar sobre um bicho para uma pessoa que nunca viu um, melhor fazer com que ela o veja primeiro.

Gostou? Agora é sua vez. Mande seu comentário na forma de duas outras morais para a história dos cegos e do elefante.

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2 Respostas to “Epistemologia, metodologia científica e percepção”

  1. Ana Scatena Says:

    A história do elefante, assim como a percepção dos sábios sobre o elefante, pode ter várias morais.
    Uma delas pode ser: quem pensa que conhece algo baseado somente em seu próprio ponto de vista vai estar sempre longe da verdade.
    Ficou meio prolixa, mas acho que explica a ideia. 🙂

  2. Luzia Says:

    Pensei também nesta noção que nós brasileiros temos de “ver” com as mãos. De ver e então tocar – ter certeza – para crer. O que pode ser considerado falta de educação em diversos lugares, mas não fica longe da maneira com que os cegos indianos pesquisaram. Abraços

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