Computadores, cooperação e isolamento

A foto que abre este post é ilustração publicada em Boletim do Instituto Claro, numa matéria sobre inclusão digital promovida por uma ONG em Minas Gerais. Copio o primeiro parágrafo da matéria:

Há educadores e especialistas em TICs que defendem que o laboratório de informática na escola, naquele modelo tradicional, montado em uma sala em separado e com computadores lado a lado, é algo ultrapassado. Na Escola Municipal Maria Coeli Ribas Andrade e Silva, em Pirapora (MG), as máquinas estão assim dispostas, mas basta chegar ao laboratório e acompanhar o trabalho que lá é feito para se ter certeza de que o termo ultrapassado, ao menos ali, não se encaixa.

Faço parte do time dos educadores que criticam laboratórios de informática. Sempre reparo que em usos de computadores, a unica área que insiste em laboratóriso é a de educação. Em todas as outras áreas o computador está onde ele é necessário para o trabalho ou atividade fim.

Na foto há um detalhe que sempre me irrita: o design de interiores que coloca computadores voltados para a parede. Esse é um modelo muito comum em laboratórios financiados pelo MEC. Certo dia, perguntei a um coordenador de NTE (Núcleo de Tecnologia Educacional) por que as máquinas estavam voltadas para a parede. O coordenador me disse que isso acontece porque fica mais fácil (e barato) distribuir tubos e fios, necessários para alimentar as máquinas com energia e cabeamentos da rede interna e externa.

O design de interiores com computadores voltados para a parede coloca conveniências de engenharia acima de conveniências educacionais. Em muitos lugares em que desenvolvi workshops e cursos, essa disposição das máquinas é um sério problema para trabalhos em equipes. O design dificulta muito conversas para trocas de idéias. Em poucas palavras, a disposição das máquinas favorece apenas trabalhos individuais, ou reduz a possibilidade de cooperação a parceiros que estejam utilizando alguma rede. Ao que tudo indica, propostas de cooperação, tendo o computador como uma ferramenta utilizada por um grupo de trabalho, não fizeram parte do planejamento do laboratório.

Já observei diversas vezes neste blog que a arquitetura passa mensagens importantes em educação. Assim, mesmo que os educadores tenham ótimas intenções, o ambiente fala mais alto que discursos e exortações. No caso de laboratórios de informática com máquinas voltadas para a parede fica muito evidente a mensagem de que o que importa é uma aprendizagem individual na qual a cooperação, quando existente, acontece exclusivamente por meio de recursos digitais.

Minha inteção aqui não é  a de analisar a questão, mas apenas a de propor uma conversa sobre a criação de ambientes hostis a cooperação in loco. Por isso, paro por aqui, esperando comentários de quem trabalha no  ramo.

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7 Respostas to “Computadores, cooperação e isolamento”

  1. Miriam Salles Says:

    Oi professor!
    Nem preciso escrever que concordo em gênero, número e grau! defendo sempre que, no lugar dos labs, o que deveria ter era netbook para todos os alunos usarem em qualquer espaço da escola e, melhor ainda, fora dela tambem!
    abço

  2. jarbas Says:

    Obrigado por mais esta visita, Miriam.

    Além do notebook na mão, acho que os alunos devem ter ambientes agradáveis para usá-los. E, mais que isso, projetos que os desafiem a poduzir obras que exijam articulação de saberes pessoais.

  3. Laboratorium Says:

    Olá Jarbas,
    Aproveitando a deixa sobre educação, viemos falar sobre empreendedorismo. O desafio sebrae está com inscrições abertas. Para quem está na universidade, é a oportunidade de aprender jogando – e concorrendo a prêmios que incluem iPad e uma viagem internacional para os vencedores. Até o dia 18!!!Vale a pena divulgar para incentivar os jovens brasileiros http://www.desafio.sebrae.com.br/INSCRICOES/Primeiro-Passo

  4. Laiz Says:

    Oi Professor,
    Concordo plenamente com o senhor, mas como o coordenador a disposição dos computadores nas paredes e mais fácil e barato de ser executada. Muitas vezes nós os profissionais da área de interiores querem fazer do laboratório de informática um lugar mais dinâmico que propicie o trabalho em grupo, mas a aplicação dessas ideias depende de vários fatores que vão desde preço á disposição de alguns educadores de aderirem a essas ideias. Eu realmente espero que nossas escolas cheguem a terem espaço que ajudem o incentivo dos alunos não só para o trabalho em grupo como também o surgimento de novas ideias.
    Obrigado pela atenção.

    • jarbas Says:

      Oi Laiz,
      Não dá para aceitar a solução recomendada pelo MEC. O barateamento da instalação é um argumento muito fraco, tendo em vista questões de aprendizagem. Não podemos submeter a aprendizagem a conveniências de engenharia e financeiras. Isso não é inteligente. A economia que se faz é desprezível se considerarmos preços das máquinas e investimentos necessários na capacitação de professores. Como já disse em diversos textos aqui no Boteco, a arquitetura grita os verdadeiros objetivos de uma educação que não leva gente em consideração. Os laboratórios de informática são um exemplo disso. Não podemos nos conformar com as respostas dos burocratas que querem baratear custos sem considerar as condições mais favoráveis para o aprender.

  5. Jamille Galvão Says:

    Realmente, com a estrutura dos labs, no momento de se realizar discussões reais, tomada de decisões, compartilhar considerações acerca da pesquisa em grupo, enfim, estas ações específicas do trabalho em grupo, temos que administrar o monstro do individualismo já tão cultivado na sociedade. A tendência é o isolacionismo mesmo, cada um por si. Professores se estressam e determinam: Vygotsky não viveu na realidade! – rsrs. Por outro lado, quando propomos aprendizagem cooperativa em Redes Sociais, ou grupos on line, tem dado certo. Penso que as estruturas dos Labs atualmente, não favorecem o cooperativismo no local mas, não impedem a cooperação virtual. Afasta quem está próximo, e aproxima pelo espaço cibernético. O problema é que esta não é a proposta de educação que se pretende.;)

  6. Carmem Sasaki Says:

    Sempre me pergunto porque as salas de aulas não mais bonitas…um quadro na parede, uma imagem colorida, um objeto diferente, as mesas dispostas de forma livre…e porque não, computadores espalhados pelo espaço de acesso compartilhado…já estou até imaginando o visual…

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