Alimentação e educação

Continuo a buscar informações sobre Edible Schoolyard, projeto que, desde 1991, é uma bela aventura da Martin Luther King Jr. Middle School, Berkeley, Califórnia. A idéia mestra do projeto é a de oferecer aos alunos oportunidades de aprender fazendo, num percurso que vai da semente à mesa e, a seguir, da mesa á semente. Em tal percurso, os alunos enriquecem o solo, plantam, cultivam, colhem, preparam os alimentos e comem o que produzem. Não se trata de uma horta na escola. É muito mais que isso.

Como já observei em outro post, na Martin Luther King há um sítio, com plantas de horta, pomar e jardim. Há também galinhas. O ambiente inteiro é similar a uma pequena propriedade em que se planta de tudo.

Uma das fontes de informação sobre The Edible Schoolyard é um vídeo realizado pelo grupo Growing a Greener World. O vídeo conta um pouco do projeto, relaciona princípios que alimentam o que ali se realiza, e mostra algumas das atividades que acontecem na plantação e na cozinha. Neste post quero examinar mais de perto a atividade em que um professor e seus alunos articulam o cultivo de muitos vegetais com estudos de história e cultura.

O Professor Benjamin Eichorn observa que um dos melhores ângulos para abordar história é verificar como povos em todo o mundo, em diversas épocas, produziram seus alimentos. Isso pode estar escrito nos livros. Isso pode ser encontrado na internet. Na Martin Luther King a exploração da relação entre alimentos e história dos povos não fica restrita a um tratamento acadêmico. Ela ganha vida por meio das plantas cultivadas no sítio da escola.

No Edible Schoolyard há uma grande variedade de plantas, oferecendo um quadro bastante rico do que se cultiva ou se cultivou em todo o planeta. Quando os alunos cuidam de um canteiro de aveia ou de milho, aprendem que esses cereais tiveram papel fundamental no Egito ou na Mesoamérica. E não aprendem isso apenas oralmente. Aprendem cuidando de todo o ciclo de reprodução e consumo dos cereais: preparando o terreno, plantando a semente, acompanhando o crescimento das plantas,colhendo, moendo e assando a farinha em pratos deliciosos.

Ao cultivar as plantas, os alunos entendem melhor os cuidados que agricultores de ontem e de hoje. No caso dos cereais, o projeto adota técnicas de moer cereais manualmente, muito parecidas com as técnicas utilizadas no início de uso de sementes de gramíneas como fonte alimentar. Assim, literalmente, os alunos põem a mão na massa. Com todos esses cuidados, compreender a importância de cereais como o trigo, a aveia, o arroz e o milho em diversas civilizações fica muito mais claro, mais vivo. Como diz o professor Benjamin, os alunos aprenderão para sempre a importância dos cereais na história da humanidade.

Deixo por alguns instantes o Edible Schoolyard. A importância da alimentação como fator determinante a história e cultura dos povos já foi explorada de diversas formas. Nos anos sessenta, por exemplo, o projeto Plato de usos de computadores em educação incluiu entre seus softwares a simulação Aztlan, aventura de um obscuro líder asteca tentando chegar ao trono imperial. O elemento central dessa simulação era o cultivo, armazenagem e distribuição do milho, cereal domesticado por povos que viveram em regiões onde está hoje o México e a América Central. Uma das versões de Aztlan para microcomputadores foi feita por equipe que eu coordenava nos anos de 1980. Neste Boteco fiz pequeno registro sobre Aztlan que pode ser visto aqui.

A importância do cultivo de plantas e domesticação de animais é um dos pontos centrais de um livro deslumbrante, After Ice: A global human history , 20,000-5000 BC. Nessa obra, escrita em ritmo de aventura, Steven Mithen examina o surgimento de formas de organização social até então inexistentes na história humana. Em diversas partes do mundo, há dez mil ou mais anos, grupos humanos começaram a usar intensivamente plantas silvestres numa direção que as levou à domesticação. A narrativa de Mithen vai tecendo histórias que mostram profundas mudanças nas formas de produzir a existência humana a partir da produção dos alimentos. Em After Ice, produção de alimentos, surgimento dos primeiros núcleos urbanos e desenvolvimento de culturas cujas marcas ainda estão muito presentes em nosso mundo são tecidos em relações que tornam a história humana objeto de grande fascínio.

After Ice é um livro volumoso, com mais de seiscentas páginas e, apesar de escrito numa linguagem acessível, não pode ser aproveitado no ensino básico. Mas, é uma inspiração e sinaliza muitas maneiras de fascinar crianças e jovens nos estudos de história. E, como já observei, a alimentação é o fio condutor da narrativa de Mithen. Professores de história, se surgir oportunidade, precisam dar uma olhada em After The Ice. O autor apresenta a história de nossos antepassados, em desafios para vencer grandes mudanças climáticas, de uma maneira que meu saudoso amigo Hugo Assman chamaria de encantamento.

After Ice enfatiza um aspecto que, no geral, não é explorado pelos livros de história. Não me lembro de ter estudado, por exemplo, o que se comia no Brasil do século XVI. Não me lembro de aulas em que meus professores de história no ginásio dessem qualquer importância à dieta nos primeiros anos da Colônia. Até hoje eu gostaria de saber o que ia para o prato de um Martim Afonso de Sousa. Nos livros de história há um registro abstrato sobre importância de alguns alimentos americanos como a batata, o milho e a mandioca. Mas, a saga do encontro de europeus e índios nas roças e cozinhas não integra até hoje conversas sobre história em nossas escolas, embora os primeiros cronistas tenham registrado a profunda admiração dos europeus por muitas das frutas encontradas nas Américas. Aliás, uma das plantas americanas que mais se universalizou depois da chegada dos europeus foi desenraizada de suas origens com expressões tais como batata inglesa ou batata holandesa. É muito provável, por isso, que nossos alunos pensem que a batata veio do velho mundo. Quem já esteve alguns dias no Peru deve ter ficado abismado com a variedade de batatas que podem ser encontradas nos planaltos andinos.

Em 2010, propus que um Desafio para o programa da TV Escola que explorasse as fontes de alimentação genuinamente americanas. O desafio proposto era o do que os alunos estudassem alimentos das Américas e preparassem um jantar cujo menu incluísse  apenas itens do novo mundo. Já divulguei vídeo do programa aqui no Boteco. Mas, para facilitar a vida do leitor, repito a dose.

Como atividade preparatória no Desafio, elaborei uma WebGincana. Ela também já foi divulgada aqui. Mesmo assim, repito indicação para o link onde a WG pode ser encontrada:

WebGincana Mesa Americana

O Desafio Mesa Americano, desenvolvido em ritmo de televisão, talvez não tenha engajado os alunos de forma a criar um encantamento pelo estudo da história das Américas a partir de nossas matrizes alimentares. Os alunos deveriam ter manipulado mais os alimentos in natura. Deveriam visitar algumas plantações. Deveriam ir para rua e verificar se pessoas comuns tem alguma idéia sobre origem histórica dos alimentos que vão diariamente para nossas mesas. De qualquer forma, o programa sinalizou uma direção que as escolas podem explorar.

Um site sobre Çatalhoyuk, sítio arqueológico de um dos primeiros aglomerado urbanos do planeta, há um jogo chamado Faça um Jantar Neolítico. Há nove mil anos, os habitantes do lugar recorriam a diversas fontes de alimentos, incluindo em sua dieta sementes de cereais selvagens que eram moídas manualmente. A idéia é a de proporcionar aos estudantes experiência similar à dos seres humanos daquela vila que oferece, depois de décadas de pesquisa, muitas surpresas sobre a história de nossa espécie.

Faça um Jantar Neolítico tem mais limitações que o Desafio Mesa America, mas, como este último, sugere direções interessantes para que os alunos explorem vivencialmente um tempo histórico distante.

Faço um último desvio de rota. Gosto muito de um livro do biólogo Lawrence Slobodkin. Ele escreveu uma obra instigante sobre filosofia da ciência: Simplcity & Complexitiy in Games of Intellect. Slobodkin faz referência a muitas informações em sua área de investigação. Mas, navega também por outros campos. No capítulo 4, Three Dinner Parties, por exemplo, mostra que aspectos culturais que envolvem a alimentação humana podem ser jogos intelectuais interessantes de complexificar ou simplificar a realidade. Alimentar-se não é apenhas uma forma de atender a demandas biológicas. É também uma forma de mostrar entendimentos sobre a natureza, os outros, o prazer etc.Traduzo um trecho do primeiro parágrafo do citado capítulo:

…O processo nutricional biológico comum se torna foco de arte e é elaborado, simplificado, ou minimilizado por muitas razões, assim como o ato biológico comum de andar e correr é convertido em dança. Ao considerar o ato de jantar podemos introduzir, de um modo simples e acessível, exemplos do que essencialmente pode ser simplificado ou complexificado.  (p. 81)

Slobodkin usa situações de jantar em diversas culturas para mostrar que a alimentação pode ser uma atividade que reflete costumes capazes de mostrar cultura e história em situações aparentemente banais. Mostra que alimentar-se não é apenas uma atividade biológica, mas uma elaborada forma de celebrar a vida.

Fiz algumas viagens rápidas para locais aparentemente distantes do Edible Schoolyard. Tal excursão buscou mostrar que a articulação entre alimentos e história é um caminho muito interessante. Esse caminho não é uma atividade que se esgota em si mesma. Ele é uma forma de engajar os estudantes em atividades que podem ajudá-los a entender melhor a aventura humana de buscar fontes de alimentação, elaborando descobertas em novas tecnologias e cercando a produção com elaborações culturais.

Já vi alguns casos em que escolas incentivam os alunos a cultivar uma horta. Parece-me que tal atividade é muito limitada. O projeto da Edible Schoolyard vai muito mais longe. O número de vegetais cultivados é expressivo. As vinculações do cultivo com ciências, linguagens e comunicação, e história ficam muito bem estabelecidas. Professores de diversas áreas dão aula no sítio e ou na cozinha. Faço todas essas observações para ressaltar que as escolas que tem horta precisam avançar mais.

Os responsáveis pela  projeto Edible Schoolyard avisam: nada de pressa, nada de buscar resultados imediatos. Um projeto bem feito que articule produção de alimentos com cultura, história e ciência leva tempo. É preciso ter muitos aliados, principalmente professores e pais de alunos. É preciso investigar muito para descobrir todas as plantas que podem se significativas para uma dada comunidade escolar. É preciso profissionais que entendem do riscado na horta, no jardim, no pomar. É preciso, finalmente ter muita imaginação para criar eventos expressivos que deem sentido ao que se planta e ao que se come.

Na Martin Luther King o projeto levou três anos para amadurecer. A área de plantio surgiu três anos após a ideia de produzir alimentos na escola. Digo isso, para que alguém apressado não pense que uma horta com plantas de cultivo rápido pode reproduzir algo parecido com o projeto Edible Schoolyard.

Em Berkeley, a alma de tudo é Alice Waters. Ela é uma chef famosa. Mais que famosa, é uma entusiasta pela alimentação sadia, culturalmente enraizada, fundada em produção local. Em projetos parecidos, será preciso buscar apoio de alguém que fora da escola tenha prestígio e cuja voz seja ouvida. Não dá para encontrar uma Alice Waters em cada esquina, mas, é possível envolver gente da área de restaurantes que tenha entusiasmo por educação.  Uma figura assim é essencial para mobilizar governo e comunidade para obter recursos E recursos quer dizer dinheiro, adubo, sementes, ferramentas etc.

Este post já está muito longo. Hora de encerrar o texto. Mas, o assunto não se encerra aqui. O projeto da escola de Berkeley merece mais estudo e atenção. Educadores que vislubram possibilidades de vincular produção e preparação de alimentos com diversas disciplinas escolares precisam pensar em aventuras similares. O projeto é uma delícia.

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Uma resposta to “Alimentação e educação”

  1. canalfutura (@canalfutura) Says:

    Olá, equipe do blog Boteco Escola!
    Gostaríamos de compartilhar com vocês uma novidade sobre nossas ações on-line que pode ser muito útil para os profissionais de Educação.
    O Canal Futura lançou em 2012 o projeto PDFs Educativos, que disponibiliza gratuitamente guias de atividades para o uso de programas de tv no processo de aprendizagem. Saiba mais: http://www.futura.org.br/alem-da-tv/guias-educativos/

    Abraços,
    Canal Futura

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