Escola Chata

Alguns de meus ex-alunos publicaram recentemente chamadas no Face Book para dizer que “escola não é circo, professor não é palhaço”. Meus ex-alunos são professores jovens, mas já sentem o desgaste de uma profissão que leva bordoadas de todos os lados. Para homenagear esses valentes jovens que passaram por minhas aulas na última década, entro no tunel do tempo e copio texto que publiquei no Aprendente (um dos meus blogs antigos) em 2006.

 


Semana passada a Folha de São Paulo publicou um registro da sabatina que o jornalão promoveu com o dublê de educador e psicanalista Rubem Alves. Não gostei da chamada da matéria. A Folha destacou da fala do Rubão a afirmação de que “a escola é chata”. No meu modo de ver, constatações como essa reafirmam a prática de chutar cahorro morto. Ato desnecessário. Sinal de uma valentia fácil, pois o cadáver não irá reagir. Mas meu desagrado não para por aí. Preocupa-me sobretudo o outro lado da moeda. Educadores que aceitam sem crítica comentário como o de Rubem Alves costumam achar que a saída é uma escola divertida. Ou seja, na sociedade do espetáculo é hegemônica a idéia de que o bom aprender precisa ser uma atividade circense. Não tenho nada contra o circo, o espetáculo, a diversão. Acho, porém, que é preciso não perder de vista algumas características do aprender. Sirvo-me de um exemplo: cálculo. Vejo meu filho, um físico, trabalhando com cálculo em muitas ocasiões. Um trabalho que exige muita concentração. Um trabalho que apresenta grandes desafios. Conseguir resolver certos problemas certamente é muito prazeroso. Mas a atividade toda não é divertida. Coisa parecida pode ser verificada na aprendizagem musical de alguém que está estudando um peça a ser executada publicamente. Chegar a uma interpretação original e bem executada deve ser uma fonte de grande prazer. Não vejo porém no demorado e exigente processo de ensaiar exaustivamente a peça algo divertido. Resumo da ópera; prazer não é necessariamente diversão. E mais: muitas fontes de prazer exigem altos investimentos de concentração, ensaio, exercício, trabalho.

A aceitação passiva de uma crítica que parece indicar que a boa escola é a divertida sugere que nosso mundo é a concretização perfeita do pesadelo de uma sociedade cujo desejo único é uma diversão contínua, tema central do Brave New World de Huxley.

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3 Respostas to “Escola Chata”

  1. Margarete Barbosa Says:

    Jarbas, lendo sua postagem, lembrei que às vezes escuto certas expressões como: “o prazer é a ausência de dor” ou ainda, que “o prazer é oposto à dor”… Bem, penso que dor e prazer são dois lados da mesma moeda. Algo parecido ao que você expôs ao falar da aprendizagem musical. Outro dia, meu sobrinho, um adolescente de 15 anos, estava a ouvir uma canção do Iron Maiden, cujo título é “Brave New World”. Já tive meus tempos de roqueira, hoje não curto tanto quanto o meu sobrinho. Em todo caso deixo o link da canção àqueles que gostam: http://letras.terra.com.br/iron-maiden/19295/traducao.html.
    Ah! Adorei sua expressão: “dublê de educador e psicanalista…”
    Um super abraço!

    • jarbas Says:

      Oi, Margarete. Bom ter você por aqui. A expressão dublê de educador e psicanalista é objetiva. Não foi utilizada metaforicamente para caracterizar efeitos terapeuticos dos textos do Rubão. Ele é, de fato, psicanalista de formação, além de professor brilhante de filsofia. E mais: a formação de base do Rubem Alves é teologia. Quando eu o conheci na metade dos anos sessenta, ele era um jovem teólogo regressando de Oxford. Rubem era uma dos representantres mais ilustres da teologia da libertação nos meios evangélicos (ele era pastor metodista (ou presbiteriano?). Minha memória não é inteiramente segura quanto a detalhes, mas eu o vi pela primeira vez na Faculdade Anglicana de Teologia em São Paulo, convidado por meu grande amigo, na época, o estudante de teologia da Igreja Anglicana e de filosofia na USP, Nilton Rocha.

  2. Maria Goreti de Freitas Dias Prado Says:

    Olá, Jarbas. Sou fã do Rubem Alves porque ele disse coisas que eu sentia durante toda minha vida de estudante e nunca tinha ouvido ninguém falar ou me dar razão. Mais tarde, já trabalhando na área de educação, vim crescendo em experiência e modificando minhas opiniões, mas ainda assim, me encontrando em Rubem Alves. A questão é como dosar as duas coisas na escola, com professores que já iniciam com deficiências em sua formação e alunos que, chegando ao 7º ano começam a se perder do desejo de estudar, e até de se preparar para o futuro – qualquer coisa que lhes digamos é pura retórica, não lhes faz sentido algum… Nem pais, nem professores, nem ninguém parece mover esses alunos. E nós, ás vezes, nos sentimos palhaços deles todos, é verdade! Acreditar no que se faz e buscar novas alternativas de ensino chega a ser algo patético, dada a realidade com que nos deparamos, onde a escola é refém de pais, alunos, conselhos escolares, conselhos tutelares, sme’s,etc, etc. Um circo, mesmo… Não parece, às vezes?
    Também sou sua fã e também concordo com você, além de agradecer seus cutucões…
    Abração.

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