Archive for 24 de março de 2012

Quando não nos importamos

março 24, 2012

Publiquei ontem no meu Facebook o famoso poema de Martin Neimoller, uma declaração com muitas versões mostrando como a “neutralidade” política aliou-se ao nazismo. O próprio Neimoller, nos primeiros anos do nazismo, praticou a neutralidade, conflitando com Bonhoeffer, militante anti-hitlerista desde o início.

Reproduzo aqui o que publiquei no FB.

Primeiro, eles vieram…
Este poema, sem título, é de autoria do pastor evangélico alemão Martin Niemoller (1892-1984), preso por Hitler em 1938, durante a ascensão nazista.

Primeiro eles vieram atrás dos comunistas,
E eu não protestei, porque não era comunista;

Depois, eles vieram pelos socialistas,
e eu não disse nada, porque não era socialista;

Mais tarde, eles vieram atrás dos líderes sindicais,
E eu me calei, porque não era líder sindical;

Então foi a vez dos judeus,
E eu permaneci em silêncio porque não era judeu;

Finalmente, vieram me buscar,
E já não havia ninguém que pudesse falar por mim.

Minha amiga Lia Rosenberg, perguntou, no mesmo Face, o que tal poema tem a ver com a versão de Eduardo Alves da Costa. Pedi ao Carlos Seabra para comentar a indagação da Lia. Reproduzo, a seguir, comentário do Carlos.

Embora com o mesmo espírito, o poema do Eduardo Alves da Costa (que quando eu tinha um país imaginário, lá pelos meus 14 anos, ele era o “ministro da poesia” hehehe!) é:”Na primeira noite
eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite,
já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
E não dizemos nada.

Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho
em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz
da garganta.

E já não podemos dizer nada.”

Este trecho é do poema “No caminho com Maiakóvski”, nos anos 1970.

O assunto rendeu mais uma contribuição interessante. Stan, um dos meus ex-alunos da Licenciatura me chamou atenção para um vídeo que atualiza o famoso poema de Neimoller. Aqui está o vídeo.

Ecologia e ética

março 24, 2012

Há nos meus guardados muita coisa que escrevi e ficou engavetada. Não sei qual era o destino original dos textos guardados. Ás vezes são notas para aulas que não dei. Ás vezes são inícios de artigos que não publiquei. Ás vezes são rascunhos para posts que não amadureceram.

Acabo de encontrar notas sobre ética e ecologia. Tem cara de ser versão de um artigo curto, provavelmente para publicação digital. Acho que é um texto que pode contribuir para conversas atuais em torno do código florestal. Por isso, trago o dito texto para este Boteco.

Crise ecológica. Ameaça à vida humana no planeta. Descuido com ecologia provoca doenças, desertifica o solo, muda o clima, requer uso sempre maior de defensivos agrícolas, mata rios, diminui número de peixes no mar, provoca desaparecimento acelerado de muitas espécies, etc. Descuido com nosso planeta e a com vida que há nele não é apenas um problema biológico. É um problema econômico. É um problema moral. Do ponto de vista econômico, exaure rapidamente riquezas cujo desaparecimento castigará as gerações futuras. Parte da fome na África está relacionada com isso. Do ponto de vista moral, desrespeito pelo planeta e pela vida é uma imoralidade de quem não sabe ver o outro.

Conto um caso para ilustrar a insensibilidade ecológica como uma questão moral. Há uns quarenta anos, propaganda governamental sobre uma estrada, mostrava, nos grandes jornais brasileiros, uma colina rasgada por bulldozers. Sob a foto lia-se: “a colina que estorvava o progresso”. A intervenção humana, removendo milhões de toneladas de terra em nome do progresso, apenas facilitou por algum tempo o tráfego de automóveis. Hoje, aquele trecho de estrada vive congestionado. Sempre me incomodou a frase sob a foto. Ela sintetiza a crença de que os seres humanos tudo podem. Ele sugere que sempre que tenhamos recursos técnicos disponíveis, podemos fazer o que quisermos.  Esse modo de pensar é a-ético. Desconsidera os efeitos das ações humanas e promove a idéia de que o uso da técnico-ciência não deve ter qualquer limite moral.

Acho que a crise ecológica é uma crise de moralidade.  Nossa falta de cuidado com toda a vida que nos cerca e com as condições essenciais para essa mesma vida é resultado de uma visão limitada de compromissos éticos. Ela é sinal de barbárie. Quando ofendemos a mãe terra, mostramos pouca aprendizagem com história. Mostramos, como já disse, insensibilidade. Parece que nossos avanços em termos de poder não foram acompanhados por avanços em termos compromissos morais.

Paro por aqui. Acho que não preciso escrever um ensaio para expressar minha opinião. Espero que possíveis leitores desta nota sobre o problema mais avancem a análise.

Causas e Consequências. Há muitas causas para a crise ecológica. Uma delas é a ignorância. Muitas vezes não entendemos os processos vitais sobre os quais agimos. E, às vezes, a descoberta dos males decorrentes de nossas intervenções chega quando já é tarde demais. Cito um exemplo nesse rumo. Na cidade de São Paulo, ocupamos de modo desorganizado as várzeas dos rios. Essa ocupação é a principal responsável por gigantescas enchentes que atingem milhões de pessoas quase todos os anos. E agora é tarde para recuperar para os rios o espaço das várzeas. Nem sempre é possível antecipar o que poderá acontecer com decisões que tomamos sobre espaço, manejo de vegetação, urbanização e muitas outras intervenções no território em que vivemos. Ignorantes, podemos causar males irreparáveis. Cabe aqui o famoso alerta de aprender com os próprios erros.

Talvez a maior causa de danos ecológicos à vida e ao planeta seja o interesse econômico imediato. Temos, por exemplo, um litoral cujos berços de vida marinha forma eliminados por imobiliárias. A ocupação do solo, no caso, foi feita de maneira desorganizada. Outros interesses econômicos podem ser mais graves. Esse é o caso de explorações de mineradoras. Há, em diversas partes do mundo, mudanças profundas que aconteceram por causa da exploração de minérios. As mineradoras, para ganharem mais em menos tempo, nada respeitam: florestas, rios, espécies raras, montanhas, lençol freático etc. Outra causa econômica provocadora de crise ecológica é a industrialização. Dejetos tóxicos, sólidos, líquidos e gasosos de muitas indústrias são fontes de poluição.

A ganância, a vontade de fazer dinheiro fácil, os interesses imediatistas do capital são talvez os fatores que mais contribuem para a poluição em larga escala. No mesmo sentido, parece que há uma aliança entre os interesses das grandes corporações e os interesses individualistas dos cidadãos. Esse é o caso, por exemplo, do uso indiscriminado de automóveis, uma das fontes poluidoras mais importantes das grandes cidades.

Consequências? São muitas. Doenças. Câncer por causa de contato com materiais tóxicos produzidos por indústrias ou por aplicações de substâncias venenosas pelo agro-negócio. Nascimento de crianças sem cérebro em regiões com ar envenenado (isso aconteceu muitos anos na cidade de Cubatão, no Brasil, por exemplo). Redução de fontes de água potável. No Brasil, até as profundidades do Aquífero Guarani, um dos maiores do mundo,  já foram, em parte, envenenadas por materiais tóxicos.

Explorações agrícolas descontroladas e incêndios de florestas milenares mudam áreas imensas do planeta. Causam desertificação. Matam rios importantes. E por aí vai. Paro por aqui para não pintar um quadro muito assustador. Mas, não há dúvida de que a poluição é uma ameaça á vida. E o pior é que no dia-a-dia não temos consciência disso.

Comunicação e axiologia

março 24, 2012

Encontrei entre os meus guardados anotações que fiz para uma primeira aula sobre axiologia e comunicação. Tais anotações, de 2010, eram um primeiro ensaio para conversa com meus alunos de comunicações sobre o que é axiologia. Para não ficar em definições abstratas, resolvi relacionar axiologia com comunicação.

Não tive tempo de utilizar esse roteiro. A axiologia acabou não entrando em  minhas aulas de filosofia em 2010. E como não sou mais professor do povo de comunicações, minhas anotações ficaram sem uso. Acho, porém, que elas ainda podem  ser uma sugestão de conversas sobre valores e comunicação humana. Por isso, reproduzo-as aqui.

Tecnologia, Comunicação e Valores (notas)

 

Jarbas Novelino Barato

 

Caso 1: publicidade. Senhora negra entra em elevador social de prédio chic. Um dos moradores comenta casualmente: “empregados e outros trabalhadores deveriam conhecer o elevador de serviço”. Comentário da senhora negra: “é minha segunda vinda ao prédio, comprei a cobertura e ainda não tive tempo de conhecer o elevador de serviço”.

 

Caso 2: repórter resolve pesquisar como manobristas julgam clientes de uma boate dos Jardins. Chega num fusquinha velho. Desce. Tenta dar a chave para o manobrista. Este finge ignorar o gesto. É preciso insistir muito para que o manobrista aceite o serviço. Ele o faz com má vontade evidente.

 

Estamos falando de teoria dos valores, uma parte da Filosofia conhecida pelo elegante rótulo de Axiologia. Axiologia tem a ver com Ética, pois os julgamentos éticos que fazemos estão associados a valores.

As mídias promovem certos valores e, ao mesmo tempo, eliminam outros valores do cenário. Um exemplo: buscamos o imediato. Muita gente ontem a noite ficou aguardando a saída do primeiro mineiro que estava nas profundezas da mina San José. Queriam ver na hora em que o fato estava acontecendo. Muitos, incluso um professor aqui da casa, passaram a madrugada vendo a saída do 2º, 3º e 4º mineiro. Duas coisas explicam isso: curiosidade e vantagem de poder dizer “eu vi, ao vivo, o resgate dos mineiros”. Ver um vídeo, 24 horas depois, vale muito menos. Estamos convencidos de que o IMEDIATO é o tal.

 

Relacionem três outros valores da midia e da cultura de massas hoje.

  • Diversão
  • Emoção
  • Realismo
  • Atualidade (aqui/agora)
  • Juventude
  • Beleza
  • Fama
  • Movimento
  • Aventura
  • Sonho
  • Lazer
  • Prazer
  • Descompromisso
  • Mudança Contínua
  • Rapidez
  • Velocidade

Mudam mídias, mudam os valores. Regresso a valores de velhas mídias é penoso. Uma das aspirações é a de superação do velho.

Modos e meios de comunicação:

  • Gestos
  • Expressão Facial
  • Expressão Corporal
  • Riso/Choro
  • Sons emocionais (não palavras)
  • Música, ritmo e dança
  • Fala
  • Escrita
  • Pintura
  • Imprensa
  • Foto
  • Telégrafo
  • Cinema
  • Televisão
  • Rede de computadores
  • Multimídia

Cinco primeiros são compartilhados com outros animais. Revelam demasiado. Tentamos controlá-los para que os outros não saibam de fato o que sentimos. O controle nem sempre funciona. Quase nunca influenciam diretamente valores conscientemente proclamados.

A música é um caso à parte. Ela é uma linguagem dos sentimentos. Passa valores de acordo com intenções do artista; mas, quem a recebe pronta quase nunca percebe conscientemente o que o artista quer.

Fala. Quando é a única maneira consciente de passar informações ganha importância e se funda em valores tais como:

  • Autenticidade
  • Confiança
  • Diálogo
  • Troca (conversa/prosa)
  • Presencialidade
  • Olho no olho
  • Confiança confirmada pelas demais expressões comunicativas.
  • Sabedoria pessoal
  • “Palavra dada”
  • Gregarismo

Escrita. Destrona a fala. Dispensa presencialidade. Não é dialógica. Não é acompanhada por pistas de expressão corporal. Nada de olho no olho. Promove valores tais como:

  • Análise
  • Racionalismo
  • Profundidade
  • Dedicação
  • Trabalho duro
  • História (texto sempre reflete referências espaciais e temporais)
  • Concentração
  • Individualismo
  • Autoria
  • Originalidade
  • Esforço

E a TV, que valores promove? Exercício.

  • Emoção
  • Imediatismo
  • Diversão
  • Aventura
  • Dispersão
  • Pouco ou nenhum trabalho
  • Mais recepção, menos produção
  • Baixa necessidade de concentração (lei do menor esforço)