Leitura de imagens

Daniel Boorstin é autor de análise fascinante sobre comunicação e sociedade dos anos 1850 até 1960: The Image . O avanço das tecnologias digitais não muda substancialmente as características identificadas pelo grande historiador americano. Entre tais características, merecem destaque:

  • Transformação da notícia em mercadoria.
  • Conversão das comunicações em espetáculo.
  • Duração efêmera das notícias.
  • Imperialismo da imagem em todos os meios de comunicação.
  • Industrialização da produção de bens culturais.
  • Aumento do culto às celebridades criadas pela mídia.
  • Substituição do real por imagens que o falsificam.
  • Ânsia por novidades.
  • Valorização das aparências.

Imagens, na análise de Boorstin,  não se reduzem às reproduções cada vez mais fáceis de tudo que os olhos vêem. Para ele, os novos meios de comunicação introduziram uma preocupação cada vez maior com as imagens no plano simbólico. Ele é um dos primeiros analistas da importância conferida à “imagem” pelos políticos. O que vemos hoje em campanhas eleitorais nos faz compreender com muita clareza o simbolismo imagético que Boorstin identifica em diversas dimensões do mundo moderno.

O autor de The Image mostra que o predomínio da imagem pode ser visto num campo ignorado por nós em análises sobre comunicação, o turismo. Um dos casos para os quais ele nos chama a atenção é o de espaços naturais espetaculares como o Grand Canyon. Muita gente se decepciona ao visitar essa maravilha da natureza. Antes de lá chegar, deve ter visto belíssimas imagens de foto e vídeo sobre o lugar. E a realidade não tem todo aquele apelo de fotos e vídeos.

Outro caso é o da classificação de locais que merecem visita. No Guia Michelin e em outras publicações, o turista aprende o que merece  visto. O viajante já não explora o espaço. Ele comparece aos locais destacados pelo guia e fotografa-os, sempre procurando ticar o maior número possível de atrações, geralmente classificadas por estrelinhas. O grande triunfo é o de ver (rapidamente) e fotografar os locais mais estrelados.

Em 1979 estive na Bretanha, acompanhado por meu amigo Daniel Kader Hammoud, gente fina, fluente em francês, e sempre disposto a manter longas conversas com os nativos. Estivemos muitas horas num campo de dolmens e menires. Exploramos cada canto.  Conversamos longamente com um nativo sobre a história do lugar e particularidades da Bretanha. De repente, para um ônibus na estrada que margeava o sítio arqueológico. Dele desceram quarenta japoneses, cada qual com potentes câmeras fotográficas. Não entraram no campo. Enfileiraram-se ao lado do ônibus e tiraram muitas fotos. Tudo não durou mais que cinco minutos. Reembarcaram e foram buscar outra atração, um mosteiro medieval. Não vi a cena, mas tenho certeza que ela foi  idêntica à acontecida no campo de dolmens e menires. Os turistas viajam para conferir imagem que já conhecem. E reproduzem novas imagens, sem admirar e curtir os originais.

Queria fazer apenas uma pequena nota sobre a imagem em nosso tempo. Acabei me estendendo em demasia. O alvo deste post é mais específico, os estúdios fotográficos de meus tempos de criança. Eles se encaixam perfeitamente no modelo proposto por Boorstin para conversas sobre imagem e seus significados no mundo pós 1850.

Na minha infância, havia por toda parte estúdios de fotografia. Na parte da frente, eles tinham vitrines que expunham fotos de gente bonita ou famosa que freqüentava o local. Na parte interna do estabelecimento havia um ou mais ambientes para tirar fotos. O equipamento era grande e pesado. No estúdio, além de máquinas fotográficas e equipamentos de iluminação, havia diversos painéis e acessórios para compor cenários: de casamento, de primeira comunhão, de carnaval, de vida no campo, de vida no mar, etc.

Eu já havia me esquecido dos estúdios fotográficos dos meus tempos de criança. Minha memória dos mesmos foi reavivada pela leitura de 1920-1930 Italianos do Brás: Imagens e Memórias, de Suzana Barreto Ribeiro. A autora mostra diversas fotos tiradas em estúdios e as comenta. Há uma foto linda de criança fantasiada de Tom Mix (herói de um gibi de aventuras de bang-bang), com um fundo que sugere paisagem do velho Oeste. Há diversas fotos de primeira comunhão, cada uma delas com cenários e objetos religiosos. Há fotos de noivos em cenários pomposos. Há fotos de famílias em roupas domingueiras, em cenários que sugerem alto nível de vida dos fotografados (uma ilusão, é claro!).

As fotos publicadas por Suzana revelam as contradições entre o cotidiano e os sonhos dos italianos do Brás. Revelam um jogo com imagens no estúdio dos fotógrafos na primeira metade do século passado. Os estúdios fotográficos desapareceram. Não desapareceram, porém, as ilusões que se escondem por trás das imagens. Com freqüência, vejo no Facebook fotos que projetam sonhos de gente que leva uma vidinha sem muita emoção, charme ou aventura. Mas, as fotos são gloriosas, retratando ilusões e sonhos.

Deixo um recado final: precisamos aprender a ler imagens. Elas ficam a cada dia muito mais importantes que as letras.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: