Jovens que nem estudam, nem trabalham

Faz uns três anos que andei estudando a situação escolar e de trabalho dos jovens brasileiros para elaborar relatório sobre educação profissional e tecnológica no Brasil. Durante o estudo emergiu uma situação preocupante: há um percentual expressivo de jovens (cerca de 10%), na faixa dos 18 aos 34 anos, que nem estudam, nem trabalham. O fenômeno não pode ser explicado exclusivamente pelo desemprego, número significativo desses jovens parece ter feito uma escolha pessoal para abandonar estudos e não buscar trabalho.

No nível de minhas relações pessoais, conheço vários exemplos da categoria “nem estuda, nem trabalha”. E, minhas observações indicam que o fenômeno não se restringe a filhos das camadas mais altas da classe média. Na faixa atualmente caracterizada como classe C há muitos casos dessa vida sem compromisso dos nossos jovens.

A questão é preocupante do ponto de vista educacional. Sempre fica a pergunta: onde a escola falhou? Ou: onde a família falhou? Ou: onde a sociedade está falhando? Outras indagações se seguem: que destino ocupacional terá essa gente? Esses jovens voltarão ao sistema escolar? Se sim, para que?

Aparentemente os educadores desconhecem os jovens que nem estudam, nem trabalham. E, e mesmo que conheçam o problema, não sabem o que fazer.

A situação precisa ser vista de modo amplo. O fenômeno é um produto de nosso tempo. Envolve expectativas, valores, sonhos, promessas, decepções. E, talvez, gere comportamentos doentios.

Acabo de ler artigo publicado no New York Review of Books – Who is Peter Pan?, de Alison Lurie, edição de April 5 -25, 2012. No artigo, a autora comenta um desvio psíquico que recebeu o nome de síndrome de Peter Pan. Fiz uma tradução ligeira da parte do artigo que aborda a citada síndrome. Acho que as observações sobre essa doença contemporânea pode nos ajudar a pensar sobre jovens que nem estudam, nem trabalham.

Uma desordem psíquica, a síndrome de Peter Pan, também recebeu o nome do herói de Barrie. Essa condição desafortunada, segundo o antigo best-seller do mesmo nome, escrito pelo Dr. Dan Kiley e publicado em 1983, aflige um grande número de americanos. Diferentemente do Peter Pan original, as vítimas da síndrome de Peter Pan não querem permanecer crianças; preferem permanecer adolescentes. Saídos da puberdade, eles estão interessados em sexo, mas tem dificuldades no amor. Além de irresponsabilidade, narcisismo, e memória curta, condições muito comuns entre crianças pequenas, eles também sofrem de ansiedade, solidão, conflitos quanto a papéis sexuais, coisas que os levam inevitavelmente a impotência social e desalento. Sob a mascara de auto-segurança, esses homens, geralmente, tem auto-estima muito baixa e uma batelada de culpa. De acordo com o Dr. Kiley, isso tudo é culpa de seus pais: pais frios e distantes; mães fracas, carentes e neuroticamente emocionais.  

Desvios ocupacionais da profissão médica e o resultado natural de uma vida longa dedicada a pessoas cujas almas ou corpos estão doloridos tendem a levar a exageros sobre prevalência da doença. Dr. Kiley tende a encontrar exemplos da síndrome de Peter Pan em toda parte, e seu livro encoraja as pessoas que reconheçam sintomas nelas mesmas ou em membros de sua família a procurar um terapeuta imediatamente.

Apesar de A Síndrome de Peter Pan ter sido publicado quase trinta anos atrás, ele ainda parece relevante, pelo menos para a cultura popular. Filmes contemporâneos e TV estão repletos de homens nos seus vinte ou trinta anos que não querem amadurecer. Essencialmente, eles querem se divertir. E diversão para eles é beber, dirigir em alta velocidade, drogas e, eventualmente, sexo fácil embora deselegante. Eles são modernos “meninos perdidos”, amáveis desajeitados que evitam o quanto podem o trabalho. Muitas vezes eles tem um líder carismático, um tipo de super Peter Pan que inicia suas cômicas aventuras e ultrapassa os demais em excessos alcoólicos e brincadeiras vulgares. Eles são, muitas vezes, maleducados simpáticos. Gostam de piadas fáceis e de ver espetáculos esportivos.

Apesar de falarem muito sobre sexo, quase sempre de modo tosco, suas ligações mais confortáveis são seus camaradas. Ocasionalmente chegam a fisgar uma mulher atraente que na vida real nada quer com eles. Algumas vezes se casam e até fazem algum esforço para serem pais responsáveis. Porém, como regra geral, as demandas do mundo real por comportamentos maduros são ignoradas com sucesso, e os protagonistas sentem apenas ocasionais pontadas de desalento, que podem ser sanadas, pelo menos temporariamente, por uma excursão local à Terra do Nunca (Neverland), onde podem encontrar álcool e drogas, assim como oportunidade para participarem de brigas com os piratas locais, índios, e animais selvagens.    

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2 Respostas to “Jovens que nem estudam, nem trabalham”

  1. giulio vicini Says:

    Estes eternos adolescentes são conhecidos na literatura da psicologia como pessoas pais-dependentes, caracteres “orais”, que buscam ser sempre satisfeitos em suas necessidades pelos pais, como resultado de uma “ferida” na relação parental na primeira infância. Há quem diga que a parte frontal de seus cérebros não amadureceu adequadamente e é preciso que isto ocorra para que sua dependência parental se desbloqueie. Enfim, um problemaço para quem lida com estas pessoas, pois a relação com elas requer uma paciência infinita, além de se encontrar um caminho adequado entre a satisfação de desejos e sua frustração.

  2. » Jovens que nem estudam, nem trabalham Says:

    […] (*) Fonte: https://jarbas.wordpress.com/2012/03/22/jovens-que-nem-estudam-nem-trabalham/ […]

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