Informação e Conhecimento: a falácia da fartura

Volta e meia alguém me diz que somos uma sociedade do conhecimento. Essa afirmação tem como fundamento principal o número incrível de informações disponíveis imediatamente para quem sabe clicar. Exagero na carictura, mas parece que em nossos dias a única coisa que precisamos saber é clicar. A cada clique, nossas telas mostram uma fartura imensa de conhecimentos. [Na verdade, o que chamam de conhecimento neste caso não é o artigo que se pretende vender; o que temos é imensa fartura de informação]. E a gente não precisa aprender. Precisa apenas usar. Usar o que? O suposto conhecimento armazenado no ciberespaço.

A visão que pintam da sociedade do conhecimento tem sérias implicações epistemológicas. O saber foi convertido em mercadoria. Sabe mais quem mais acessa fontes de informação. Conteúdo como saber pessoalmente elaborado e armazenado no cérebro foi para o brejo.

Já escrevi e falei sobre a falsa visão de que sabemos mais porque dispomos agora de um oceano de informações. Por isso vou poupar os leitores de mais uma catilinária sobre o assunto. Usei de caso pensado o termo catilinária, derivado de Catilina, senador que mereceu sérias acusações de Cícero e sempre é lembrado por causa da célebre pergunta do grande orador romano: qousque tanden, Catilina, abutere patientia nostra? Tive um acesso de romanite. O que me animou a voltar ao tema foi uma observação de outro grande romano, Sêneca.

Estou lendo The Monk and the Book: Jerome and the Making of Christian Scholarship *, de Megan Hale Willians, obra que apresenta um panorama muito bonito da produção de livros nos séculos IV e V de nossa era. A autora, em capítulo que examina a edição de códices muito luxuosos, circunstância criticada acidamente por São Jerônimo, recorre à uma citação de Sêneca. No trecho citado, o filosofo estóico aponta o engano de que reunir muita informação gera per se conhecimento. Como prometi que evitaria catilinária sobre o tema, vou parando por aqui. Mas, antes, tenho de trazer para cá as palavras de Sêneca:

… O que adianta ter um número imenso de livros e bibliotecas, cujos meros títulos seus donos mal poderão ler no inteiro espaço de suas vidas? A gigantesca quantidade de livros não traz conhecimento, mas apenas incomoda o estudante. É melhor se cercar de alguns autores do que perambular por entre muitos. (p. 183)

Não preciso comentar Sêneca. Apenas peço que os amáveis leitores substituam livros e bibliotecas por internet. Feita a substituição, pensem na observação que Sêneca fez dois mil anos atrás, quando a riqueza dos romanos e tecnologias de reprodução de livros permitiram que nobres tivessem bibliotecas imensas.

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* Indico este link porque ele dá crédito ao primeiro estudo sobre a técnica do livro numa nova perspectiva histórica, escrito por Dom Paulo Evaristo Arns e publicado recentemente pela Cosacnaify com o título A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo.

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