Archive for 9 de março de 2012

Dicionário Censurado

março 9, 2012

Faz alguns dias que a imprensa vem publicando notas sobre ação do Ministério Público em Minas Gerais, acusando o Dicionário Houaiss de racismo por causa de registro de significado desabonador para a palavra cigano. Ao ler tal coisa a gente fica com impressão de que o acusador não sabe o que é um dicionário. Ou, se dermos créditos ao doutor que propõe a ação como conhecedor de livros que registram definições dos vocábulos de um idioma, fica a dúvida se ele sabe que palavras tem na história diversos usos. Talvez o doutor saiba que bons dicionários registram todos ou quase todos os significados de cada item de vocabulário. Dicionários que não fazem isso são incompletos, pouco informativos. Autores de dicionário não tomam decisões quanto a uso das palavras. Fazem registros.Ponto.

A ação contra o Houaiss tem consequências sérias para a liberdade e para a educação. O doutor que quer censurar o dicionário pensa que não se pode fazer registros históricos que contrariem o politicamente correto. Nessa linha, o próximo passo será, por exemplo, proibir que livros de história falem da escravidão negra. Anos atrás recebi sugestão nesse sentido. Uma educadora me escreveu exigindo retirada do portal WebQuest, que eu editava na Escola do Futuro na USP, link para um site de história, alegando que o mesmo era racista porque narrava detalhes da escravidão dos africanos do século XVI ao século XIX. Para mim, o único problema que tal site apresentava era o de se dizer WebQuest, quando na verdade era uma apostila eletrônica. O conteúdo, porém, era correto. Talvez a reclamante quisesse que o registro histórico fosse acompanhado por acusações panfletárias contra a escravidão, ignorando a natureza das narrativas históricas.

Diversas personalidades já escreveram ótimos artigos contra a censura proposta pelo doutor de Minas Gerais. Reproduzo aqui artigo de José Roberto Batochio, publicado na página 3 da Folha de São Paulo hoje (09/03/2012):

Semântica sob Censura

José Roberto Batochio

Em 1813, um dicionário anotava a palavra cigano como “raça que vive de embuste”; é vã a luta contra as palavras, já dizia Carlos Drummond de Andrade 

Reconheço, desde logo, que me faltam “engenho e arte” para tratar de um assunto que, por sua natureza, seria mais adequado à pena de um Stanislaw Ponte Preta.

Mas, como operador do direito, não posso me furtar a comentar a recente iniciativa de um membro do Ministério Público: censurar o verbete do dicionário Houaiss que registra uma acepção secundária para a palavra cigano.

Querem os patrulheiros da semântica que o verbete seja expurgado de acepções secundárias em que a palavra também recebe o sentido -assinalado como pejorativo- de “que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador”.

A notícia dá conta de que o insigne autor da peça que inaugura a ação judicial almeja tirar o Houaiss de circulação e ainda impor multa de R$ 200 mil “de indenização por danos morais coletivos”.
O delito do dicionário seria afrontar a Constituição e as leis, pois “o direito à liberdade de expressão não pode albergar posturas preconceituosas e discriminatórias, sobretudo quando caracterizadas como infração penal”.

Ora, isso é, salvo melhor juízo, tomar lebre por gato. Dicionários não têm opinião -exceto no verbete específico. Nem a sua matéria-prima é a liberdade de expressão, pois tratam de registrar o que o povo fala.
Eles radiografam o idioma não apenas em um determinado momento de sua organicidade conferida pelos falantes -e não pelos dicionaristas. Um dicionário não registra exclusivamente acepções correntes e muito menos politicamente corretas.

Os grandes léxicos trazem um repertório de sentidos que já caíram em desuso, mas são mantidos como testemunho da língua nacional.

Há muito tempo os bons dicionários registram a acepção desabonadora, embora secundária, para cigano, palavra datada no português do século 16, provavelmente oriunda do francês “tsigane”, segundo nosso maior etimologista, Antônio Geraldo da Cunha.

Já o primeiro grande dicionário do idioma, lançado em 1813 pelo brasileiro Antônio de Morais Silva, anotava o substantivo cigano como “raça de gente vagabunda, que diz vem do Egito e pretende conhecer de futuros pelas raias ou linhas da mão; deste embuste vive…”. E mais, como adjetivo: “Que engana com arte, sutileza e bons modos”.

Para espanto geral, sabemos agora que esta eugenia vernacular está em curso há tempos, tendo exortado duas editoras a “corrigirem” verbetes considerados racistas ou desabonadores. Este é um assunto que não pode admitir precedentes.

O tratamento há de ser profilático e o mal conjurado antes de nascer. O precedente leva a possibilidades terríveis, como o poder estatal obrigar gravadoras a retirarem das lojas e do catálogo canções que hoje podem ser imputadas de ofensivas, como “Nega do Cabelo Duro”, de David Nasser e Rubens Soares, sucesso no Carnaval de 1942.

É até temerário dar exemplos… Mas, ao final, não custa alertar que há lutas mais importantes para travar que pretender reescrever dicionários. É batalha inglória e perdida, pois, como dizem os versos de Carlos Drummond de Andrade, “lutar com as palavras é a luta mais vã”.

JOSÉ ROBERTO BATOCHIO, 67, é advogado criminal. Foi presidente nacional da OAB (entre 1993 e 1995) e deputado federal pelo PDT (de 1998 a 2002)

Objetivos em educação

março 9, 2012

Encontrei em meus velhos arquivos síntese que elaborei para meus alunos de tecnologia educacional em 1999. É um material que, acho eu, pode ser um ponto de partida para conversas sobre objetivos educacionais. Publico a síntese, perguntando se a mesma tem alguma serventia.

Comentários, favoráveis e desfavoráveis, serão benvindos.

CLASSIFICAÇÃO DE CONHECIMENTOS

E OBJETIVOS EDUCACIONAIS: SÍNTESE

 

 

Tecnologia Educacional

Jarbas N. Barato

06/99

 

 

 

  1. 1.     INTRODUÇÃO

 

  • Visão Tradicional:

 

–       apresenta um esquema geral, um documento a ser preenchido pelo professor;

–       no geral, as escolas utilizam um formulário parecido com o que segue:

 

OBJETIVOS

CONTEÚDOS

ESTRATÉGIAS

RECURSOS

AVALIAÇÃO

    

 

 

 

 

       

 

  • Objetivos: resultados esperados

 

  • Conteúdos: programa a ser desenvolvido (matéria)

 

  • Estratégias: técnicas e métodos de ensino a serem utilizados

 

  • Recursos: materiais e meios a serem utilizados

 

  • Avaliação: instrumentos e métodos para a verificação da aprendizagem

 

  • Críticas:

 

–       não há uma discussão mais aprofundada sobre o significado dos componentes do planejamento de ensino;

 

–       entre os componentes, objetivos é um conceito pouco estudado; trabalha-se, no caso, com senso comum;

 

–       apesar das exigências do formulário, o que fica valendo é o PROGRAMA, a MATÉRIA;

 

–       sem uma discussão do significado dos componentes, o planejamento acaba sendo uma atividade burocrática.

 

 

  1. 2.     QUAL O PONTO FUNDAMENTAL DO PLANEJAMENTO DO ENSINO?

 

  • O ponto central de planejamento de ensino são os OBJETIVOS.

 

  • Por que OBJETIVOS?

 

–       necessidade de clareza quanto a resultados esperados

 

–       definição de resultados como DESEMPENHOS DOS ALUNOS

 

ê que é que esperamos que as pessoas FAÇAM, SEJAM, MANIFESTEM?

 

–       dos objetivos dependem todos os outros componentes do planejamento de ensino.

 

 

  1. 3.     COMO ESTUDAR OBJETIVOS?

 

  • OBJETIVOS como conhecimento e como habilidades cognitivas dos aprendizes.

 

¨      TIPOS DE CONHECIMENTOS: o que é que os alunos devem aprender

 

¨      TIPOS DE HABILIDADES COGNITIVAS: como é que os alunos vão aprender; como é que os alunos vão continuar a aprender os CONTEÚDOS            depois do curso

 


 

  1. 4.     OBJETIVOS/CONHECIMENTO

 

  • Necessidade de uma definição do que é conhecimento:

 

–        conhecimento como REPRESENTAÇÃO

 

–        REPRESENTAÇÃO: elaboração pessoal e subjetiva de experiências e informações recebidas pelos alunos

 

–        reiterando: representação é elaboração, não é gravação, não é guardar a matéria

 

  • Necessidade de classificar de modo claro os conhecimentos exigidos para um domínio competente da matéria.

 

 

  1. 5.     CLASSIFICAÇÕES

 

  • Parece que há diferenças entre os seguintes conteúdos:

 

–      tabuada (decorar a tabuada)

–      adição (realizar operações de adição)

–      números primos, naturais (distinguir, identificar)

 

ou ainda

 

–        verbos regulares (conjugar)

–        substantivos (identificar)

–        ortografia (como escrever corretamente…)

–        redação (como escrever uma descrição)

 

  • Constatação:

 

–        parece que, em cada matéria, há conteúdos que correspondem a diferentes tipos de conhecimento;

 

–        possivelmente não aprendemos do mesmo modo todos os conteúdos de uma matéria;

 

–        possivelmente uma classificação de tipos de conhecimentos poderia nos ajudar a definir melhor OBJETIVOS em educação.

 

 

  1. 6.     OBSERVAÇÃO SOBRE CONHECIMENTOS COMUM

 

  • Mesmo em áreas não escolares (nos botecos da vida, por exemplo) é possível constatar diferentes tipos de conhecimento.

 

¨      São diferentes, por exemplo, os saberes necessários para responder perguntas tais como:

 

–            que é pinga?

–            como se faz uma caipirinha?

–            que há no boteco?

 

 

  1. 7.     PASSAGEM

 

  • MODOS DE CLASSIFICAR O SABER

 

  • Há muitos

 

–       teoria e prática

–       ciência, senso comum, religião, mito

–       coração/razão

–       objetivo/subjetivo

–       etc.

 

  • EM EDUCAÇÃO

 

–       Taxonomia de objetivos (Bloom, Gagné, Merrill, etc.)

–       Examinaremos a taxonomia de Merrill

 

 

  1. 8.     COMO O CONHECIMENTO SE ESTRUTURA

 

  • Que operações mentais realizamos para elaborar conhecimentos?

 

–       Merrill propõe quatro operações básicas:

 

1)   Operação de identidade (fato)

 

g= fator de aceleração

 

  • a operação, no caso, é uma associação entre dois termos, como, por exemplo:

 

v um símbolo e seu nome

v um acidente geográfico e seu nome

v uma data histórica

 

 

 

 
   

A  >>>>>>>>>> a

ou

A <<<<<<<<<< a

 

 

2)   Operação de classificação ou de criação de categoria (conceito)

 

  • a operação, no caso, é a elaboração de uma categoria geral que nos ajuda a incluir ou excluir elementos de um dado conjunto;

 

  • verbos usados em perguntas que supõem estruturas de conhecimento às quais damos o nome de conceitos:

 

¨      definir

¨      classificar

¨      distinguir

¨      categorizar

¨      exemplificar

¨      conceituar

¨      identificar

¨      etc.

 

  • conceitos incluem ou excluem casos, situações, idéias, modos de ser, elementos etc.

 

v Para pensar: por que classificar é uma atividade humana importante? Pense num exemplo em que a classificação de algo faz diferença.

 

3)  Operações de relações causais (princípios)

 

  • o que um fenômeno, atitude, objeto pode provocar?

 

–       por que fumar prejudica a saúde?

–       por que o desemprego está aumentando?

–       por que continuam a existir casos de dengue no Brasil?

 

   etc.

 

  • Falamos aqui de uma estrutura de saber que exige relacionar causa e efeito…

 

4) Operações de relações seqüenciais (processos)

 

  • Falamos aqui de uma estrutura que supõe a organização do conhecimento em seqüências lógicas para se chegar a um fim.

 

 

  1. 9.     COMO O CONHECIMENTO É APLICADO

 

  • Tipos de conhecimentos referem-se à estruturação do saber

 

  • A estrutura descreve conteúdo, não diz como o que sabemos é aplicado

 

  • Daí: necessidade de considerar desempenhos cognitivos.

 

  • Três aplicações:

 

–       memória

–       uso

–       invenção

 

  • memória   ê  recupera um dado existente; é como você conferir se um item está ou não estocado

 

  • uso  ê faz com que um saber existente funcione no mundo; exemplos

 

–       conceito de azedo é utilizado para recusar um alimento…

–       princípios de hierarquia são usados para não ultrapassar os limites que ofenderiam o chefe.

–       idéias de seqüência são utilizadas para resolver um problema matemático

 

  • invenção ou descoberta

 

–       um vendedor cria um novo método para abordar clientes

 

 

 

 

  1. 10.            COMBINANDO AS COISAS

 

  • Conhecimentos factuais são aplicados exclusivamente no nível de memória.

 

–       Não há como aplicar o conhecimento de que Brasília é capital do Brasil.

 

  • Conhecimentos conceituais podem ser memorizados, usados e inventados. Exemplos:

 

–       Posso memorizar uma definição de mamífero

–       Posso usar o conceito de ironia para interpretar uma frase de alguém

–       Posso criar (inventar) uma nova categoria…

 

  • Conhecimentos de princípio podem ser memorizados, usados e inventados.

 

  • Conhecimentos de processos podem ser memorizados, usados, inventados.