Computadoes e bom senso

Faz bastante tempo que me encomendaram um artigo curto sobre uso de computadores em educação. O pedido me foi feito pelo  Departamento Nacional do Senac em 1990. Pelo que me lembro, o artigo seria publicada num material destinado à capacitação de docentes. Mandei meu texto, mas não sei se o mesmo foi publicado. Não tenho comigo exemplar do material onde ele deveria ter aparecido ou apareceu.

Hoje, revendo meus guardados, encontrei o referido texto. Acho que o mesmo ainda tem alguma atualidade. Aparentemente não avançamos muito em reflexões sobre uso de computadores em educação. Se puderem, confiram isso, lendo meu velho texto que copio a seguir.

COMPUTADORES NA EDUCAÇÃO E SUPERAÇÃO DO BOM-SENSISMO

 

 Jarbas Novelino Barato

 

 

 

Os computadores, mais cedo ou mais tarde, invadirão as escolas. Resistir a essa tendência pode ser um ato heróico de romantismo extemporâneo. Não é, porém, medida adequada para mais humanizar as relações educacionais. Aliás, qualquer discussão centrada em argumentos pró ou contra os computadores na educação é pouco produtiva. Por esse motivo, quero propor aqui uma abordagem cujo alvo não é propriamente o computador, mas o processo educativo.

 

Muitos educadores revelam ou confessam medo dos computadores, não percebendo que esse comportamento é a face negativa do entusiasmo desmedido pelo novo produto tecnológico. Medo e entusiasmo são atitudes sacralizadoras do instrumento. Ambas fundam-se na crença de um poder que os computadores não têm. Ignoram que o uso de qualquer tecnologia é um empreendimento humano, retratando relações sociais que ultrapassam o simples uso da máquina. Não há, portanto, qualquer razão para receio (ou esperança) de que os computadores, artefatos extremamente sofisticados e interessantes, venham a ocupar o lugar de valores muito importantes na educação. Isto só acontecerá se o tratamento de tais valores for menos motivador que “jogar” com computadores. Febres computacionais são apenas sintomas de uma doença mais grave: a incapacidade de engajar os alunos na aventura de construir conhecimentos socialmente relevantes.

 

Os computadores possibilitam certos arranjos muito atraentes da organização da informação. Podem tornar mais dinâmicos os tradicionais exercícios cuja base é uma enfadonha repetição de itens a serem memorizados. Conseguem colocar nas escolas representações muito parecidas com o mundo real no qual os alunos deverão agir. Armazenam, em pequenos espaços, grande quantidade de informação. Possibilitam, interação entre o conteúdo armazenado e os usuários. Todas essas características abrem novos rumos para as atividades de ensino-aprendizagem. É preciso notar, porém, que elas não funcionam mecanicamente, mas dependem do planejamento de agentes humanos. Assim, o assustador número de “softwares” educacionais de baixa qualidade (cerca de noventa por cento dos produtos até agora elaborados) revela mais incapacidade dos educadores em bem aproveitar recursos computacionais que inadequação dos computadores para fins de ensino-aprendizagem.

 

As propriedades intrínsecas dos computadores são importantes. Elas permitem, como já disse, organizar de modo muito atraente, novo e eficiente a informação. Isto traz perspectivas interessantes para a educação. Porém, a meu ver, a possibilidade de uso dos computadores para fins educacionais é mais importante por causa de um de seus subprodutos: a revelação de que a prática educacional é dominada pelo bom-sensismo.

 

Usar computadores, com bom aproveitamento do potencial dessas máquinas, exige uma análise rigorosa das condições de ensino, do tratamento da informação, das estratégias de aprendizagem, dos aspectos motivacionais e das características específicas do conhecimento humano. Aliás, tal análise deveria estar presente em qualquer planejamento da prática educacional. Porém, os tradicionais recursos de ensino não desvelam necessária e completamente falhas de concepção e podem ser utilizados com algum sucesso a partir de medidas de bom senso. Este bom-sensismo não é aparente. Assim, por exemplo, a eloquência do expositor, a agilidade do VT ou a beleza gráfica do texto acabam disfarçando a ausência de planejamento educacional conseqüente e informado por teorias sólidas de ensino-aprendizagem. Os computadores, por outro lado, resistem ao bom senso e revelam nos “softwares” educacionais, quando é o caso, a inconsistência do planejamento de ensino. Isto talvez explique porque é mais fácil calcular a porcentagem de “softwares” educacionais de qualidade duvidosa que estabelecer a quantidade de livros didáticos irrelevantes.

 

Todas as experiências bem sucedidas de introdução dos computadores nas escolas tendem a mudar a prática educacional. Mostram que não bastam a presença da nova máquina e o uso de “softwares” educacionais. Indicam a necessidade de revisão de todos os meios, estratégias e recursos utilizados na educação. Desvelam a pobreza teórica do fazer educativo tradicional. Evidenciam muito concretamente a verdade quase sempre obscurecida de que as escolas não incorporam os avanços tecnológicos e científicos nas áreas de interesse para a educação.

 

Não acredito que os computadores irão mecanicamente provocar mudanças substantivas na educação. O uso dessas máquinas, como já afirmei atrás, poderá indicar, com bastante clareza, caminhos de superação do bom-sensismo. As soluções de bom senso, porém, são muito resistentes. E a resistência, no caso, não é uma questão localizada no comportamento (supostamente) conservador dos professores. Estes últimos são mais vítimas do que agentes do bom-sensismo. Bom senso é “tecnologia” barata e permite soluções imediatistas. São essas características que fazem dele a principal fonte de suposta solução para os problemas educacionais.

 

O uso de computadores em educação pode ser tragado pela poderosa corrente do bom-sensismo (travestido de humanismo, de filosofia da educação, de política educacional, etc.) Se isto acontecer, a maioria dos “softwares” educacionais será constituída por produtos banais. Porém, há ainda muito espaço para esperança. O rico potencial de tratamento da informação oferecido pelas novas máquinas poderá nos obrigar a abordar o fazer educativo como uma tarefa que exige aplicação atualizada de conhecimentos tecnológicos e científicos.

 

Cabe ressaltar, a título de finalização deste artigo, que tecnologia e ciência são empreendimentos humanos. Dependem menos de ferramentas e mais de conhecimentos construídos e compartilhados pelos educadores. O que está em jogo, portanto, não é o computador ou qualquer outro produto tecnológico que pode ser usado para fins educacionais. O que está em jogo é a possibilidade de reorganizar a prática educacional, superando o bom-sensismo e fazendo com que os alunos passem a construir mais autonomamente o seu próprio conhecimento. E esta não é uma tarefa banal, barata ou fácil. É um desafio cujos contornos talvez fiquem mais claros com o uso competente dos computadores em educação.

 

Texto escrito em 1990 para publicação interna do SENAC/DN

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