Motivação e Aprendizagem

John Keller criou um modelo de motivação, ARCS, que até hoje tem grande influência em projetos de tecnologia educacional. Soube do modelo nos finais dos anos de 1970 por causa de uma pergunta que me fizeram. No final da década, eu coordenava um projeto de centros de auto-instrução no Senac.sp. Nosso trabalho teve relativo sucesso. Alguém da academia soube do que fazíamos e me procurou para uma conversa. No papo, essa pessoa cujo nome não me lembro, perguntou se estávamos utilizando o modelo Keller. Fez isso com certa pompa e circunstância. Explicou-nos que tal modelo era objeto de estudo de um pesquisador ou pesquisadora da Unesp que estava trabalhando com auto-instrução. Respondi que não, pois sequer conhecíamos o modelo Keller.

Quem me fez a referida pergunta não conhecia bem o modelo proposto por Keller. A indagação foi feita muito mais para revelar preocupação com fundamentos pedagógicos. Ou seja, a perguntadora colocava nossa experiência na parede por falta de fundamentação teórica, embora nosso trabalho estivesse alcançando resultados consistentes. Hoje sei disso. E sei mais: a proposta de Keller tem a ver com Instructional Design, não com uma forma particular de organizar a instrução (instrução personalizada, como era o caso de nossa experiência na época). Ela pode ser aplicada em qualquer contexto e formato de projetos instrucionais. [estou usando aqui uma linguagem que não é muito do gosto de educadores; eles não gostam da palavra instrução, preferem educação; talvez não saibam que do ponto de vista etimológico instrução tenha muito mais nobreza que educação; mas, isso é papo para um post específico].

Anos depois li alguns artigos sobre o modelo de Keller (o ARCS model). E me lembro de uma conversa incidental sobre o mesmo modelo num dos meus papos com Bernie Dodge. Faz bastante tempo que referências sobre John Keller sumiram do meu cotidiano. Hoje, por acaso, voltei a me encontrar com o modelo, graças ao webseminar conduzido pelo Bernie ano passado na SDSU. Cópia completa do webseminar está na internet. Puxei o vídeo correspondente para cá.

No webseminário, Bernie observa que alguns de seus alunos estão lendo o livro mais recente de John Keller sobre ARCS. Encomendei meu exemplar. Interessados poderão encontrar referência sobre o mesmo em:

Para pessoas que ainda não ouviram falar sobre o modelo de Keller ou querem refrescar a memória sobre o mesmo, fiz uma tradução/adaptação de texto da internet que apresenta uma síntese do mesmo.

MODELO ARCS DE MOTIVAÇÃO PARA INSTRUÇÃO

Sumário: De acordo com o Modelo ARCS de John Keller, há quatro passos para promover e sustentar a motivação no processo de aprendizagem: Atenção, Relevância, Confiança, Satisfação.

Criador: John Keller

Palavras Chaves: Atenção, Relevância, Confiança, Satisfação (ARCS)

ARCS Model of Motivational Design (Keller)

1. Atenção

  • Segundo Keller a atenção pode ser obtida de duas maneiras: (1) Estimulação da percepção – use surpresa ou incerteza para ganhar interesse. Use eventos novos, surpreendentes, incongruentes e incertos; ou (2) Estimulação inquisitiva -estimule curiosidade, propondo questões e problemas desafiadores para serem resolvidos.
  • Métodos para ganhar a atenção dos aprendentes incluem o uso de:
    • Participação Ativa – Adote estratégias como jogos, dramatizações e outras atividades similares para envolver os aprendentes com o material ou com o assunto a ser estudado.
    • Variabilidade– Para melhor reforçar materiais e levar em conta diferenças individuais em estilos de aprendizagem, use vários métodos na apresentação do material (use duas ou mais formas de apresentação como: vídeos, softwares, textos, exposições orais curtas, mini-discussões em grupo etc.).
    • Humor –Mantenha interesse com o uso de pequenas doses de humor (mas, não exagere, humor em excesso provoca distração).
    • Contradição e Conflito – Uma abordagem de advogado do diabo na qual as afirmações são formuladas pró e contra as experiências prévias dos aprendentes.
    • Exemplos Específicos – Use estímulos visuais, estórias, ou biografia.
    • Indagação – Coloque questões ou problemas para os aprendentes resolverem, usando, por exemplo, atividades de brainstorm.

2. Relevância

  • Estabeleça relevância com finalidade de ampliar a motivação dos aprendentes. Para tanto, use linguagem concreta com a qual os aprendentes estão familiarizados. As seis mais importantes estratégias descritas por Keller são:
    • Experiência – Diga aos aprendentes como a nova aprendizagem se relaciona com suas habilidades prévias. Aprendemos melhor quando construímos novos saberes com base em saberes prévios.
    • Vantagem – Que utilidade tem a matéria para mim hoje?
    • Utilidade Futura – Que utilidade a material terá para mim amanhã?
    • Resposta a Necessidades – Aproveite as dinâmicas de realização, de enfrentamento de riscos, de poder, de pertença a um grupo social.
    • Modelo – Antes de mais nada, “seja o que você quer que eles façam!” Outras estratégias incluem conferencistas convidados, vídeos e auxílio de aprendentes que dominaram o assunto mais cedo como tutores.
    • Escolha – Permita que os aprendentes  usem diferentes métodos para realizar seus trabalhos.

3. Confiança

  • Ajude os aprendentes a entender suas possibilidades de sucesso. Se sentirem que não podem atingir os objetivos ou que o custo (tempo e esforço) é muito alto, a motivação deles vai decrescer.
  • Forneça informação sobre objetivos e pré-requisitos – Ajude os aprendentes a avaliar a probabilidade de sucesso apresentando exigências de desempenho e critérios de avaliação.
  • Trabalhe com metas de sucesso que sejam significativas.
  • Desenvolva os Aprendentes  – Trabalhe para que pequenos níveis de crescimento aconteçam durante o processo de aprendizagem. [Medida necessária para que os aprendentes percebam crescimento incremental antes de chegar ao resultado final]
  • Feedback – Forneça feedback e dê apoio aos aprendentes para que estes formem percepções pessoais de sucesso.
  • Controle dos Aprendentes – Os aprendentes precisam sentir algum nível de controle sobre sua aprendizagem e avaliação da mesma. Eles precisam acreditar que seu sucesso é um resultado direto da quantidade de esforço que eles dedicam ao aprender.

4. Satisfação

  • A aprendizagem precisa ser recompensadora ou satisfatória de alguma forma, seja pelo sentimento de conquista, seja pelo elogio obtido por um avanço, seja por mero contentamento.
  • Faça com que os aprendentes sintam como a habilidade em foco é útil ou benéfica, fornecendo oportunidades para uso do novo conhecimento adquirido em contextos autênticos.
  • Forneça feedback e reforço. Quando os aprendentes apreciam o resultado, eles ficarão motivados para aprender. Satisfação é baseada em motivação, que pode ser intrínseca ou extrínseca.
  • Não seja indulgente com os aprendentes, recompensando excessivamente tarefas fáceis.

Para saber mais:

  • Keller, J. M. (1983). Motivational design of instruction. In C. M. Reigeluth (Ed.), Instructional-design theories and models: An overview of their current status. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates.
  • Keller, J. M. (1984). The use of the ARCS model of motivation in teacher training. In K. Shaw & A. J. Trott (Eds.), Aspects of Educational Technology Volume XVII: staff Development and Career Updating. London: Kogan Page.
  • Keller, J. M. (1987). Development and use of the ARCS model of motivational design. Journal of Instructional Development, 10(3), 2-10. John Keller’s Official ARCS Model Website.
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2 Respostas to “Motivação e Aprendizagem”

  1. Doralice Araújo Says:

    O Boteco Escola sempre reúne excelentes contribuições à reflexão, prezado Jarbas. Obrigada.

  2. Natalia Rodrigo Says:

    Nosso projeto do centro de auto-instrução foi uma experiência sobretudo de aprendizagem para quem dele participou. Chegamos a nos orgulhar de onde conseguimos chegar. Isso me fez lembrar de pessoas queridas e dedicadas que se perderam pelos caminhos. Você lembrou bem, professor. Instrução personalizada era o que oferecíamos. E calhava muito bem à clientela que chegou a ser significativa. Obrigada pelo recordo. Abraço.

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