Admirável tecnologia pode ser um engano

Nosso interesse tem muito a ver com admiração. Mais que isso: nossa visão de mundo e nossos valores tem a ver com admiração.

Há admirações que acabam revelando grandes ignorâncias. Preocupa-me muito, nesse sentido, admiração irrestrita que cerca muitos dos produtos de tecnologia em nosso mundo. Esse tipo de admiração elimina história e inteligência do cenário. Há gente que fala de gadgets eletrônicos como se os mesmos tivessem caído do céu. Muitas vezes, ao ouvir comentários sobre maravilhas tecnológicas, fico com a impressão de que os maravilhados comentaristas agem como se as novidades do mundo digital fossem produtos de alienígenas.

A admiração ignorante desconhece longos caminhos que os produtos tecnológicos percorrem até se converterem em mercadorias travestidas de “necessidades” em nosso mundo. Isso alimenta um consumo irracional. Dificilmente encontramos produtos realmente revolucionários. Na maior parte das vezes somos convencidos de supostas originalidades por uma propaganda sutil, mas enganosa. A questão não é nova. O Salmista, bem antes da era cristã, viu-se obrigado a advertir de que não há nada de novo na face da terra. Acho que essa observação de Salomão sugere que olhemos para a história em cortes de longo prazo. Nada desses imediatismos que parecem indicar que tudo muda em ritmo cada vez mais acelerado.

A admiração ignorante de produtos tecnológicos desconhece o que é mais admirável, o engenho humano. Em educação isso é desastroso. Em vez de se voltar para os seres capazes de inventar coisas fantásticas, muitos educadores voltam-se para as invenções. Há nesse sentido, uma mudança de foco, pergunta-se como as tecnologias mudarão as pessoas, não como as pessoas podem mudar tecnologias. Justifica-se assim depedência. Elimina-se autonomia. E mais, deixa-se de perceber que certas resistências a tecnologias são uma maneira de chamar atenção para dimensões importantes do humano.

O que escrevi até agora, sem qualquer censura e buscando escandalizar admiradores deslumbrados de novas tecnologias, foi inspirado por uma nota de leitura. Há tempos, li Santo Agostinho: Uma Biografia, de Peter Brown. Na página 205 do livro fiz uma marcação. É um parágrafo no qual Peter Brown cita um trecho das Confissões. O autor usa tal trecho para falar de admirações ignorantes. Copio o destaque feito por Brown e acho que não preciso comentar a observação de Agostinho sobre desvios da admiração:

Ficam os homens boquiabertos com os picos das montanhas, as ondas alterosas do mar, a vasta correnteza dos rios, a amplidão do oceano e os movimentos dos astros; mas se deixam passar despercebidos, não se deslumbram com eles mesmos. (p. 205)

Substituam mar, oceano, rios e astros por celulares, internet, scratch, ipads etc. (sempre a última versão, naturalmente!) e terão a exata medida do que eu estou querendo discutir neste post.

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2 Respostas to “Admirável tecnologia pode ser um engano”

  1. Paula Ugalde Says:

    olá Prezado Jarbas! 🙂

    Sempre instigando boas reflexões! A ‘admiração’ com as tecnologias é fator que entrava avanços no professorar. Tem colegas usando por usar, fazendo por fazer… Até ‘inovam’ quando não vestem de novo o velho, porém, não sinalizam para o conhecimento dos fundamentos que fazem determinado uso, atividade, ser ou não útil, favorecendo a construção de aprendizagens cognitivas e humanas.
    Essas ignorâncias [de não saber] inquietam porque alguns não se apercebem das lacunas, não podendo identificar e empreender nas necessidades de desenvolvimento, construção de novas competências…
    Seguem atuando lépidos e faceiros, como se estivessem fazendo grandes coisas, sem noção até dos possíveis ‘estragos’ que podem gerar,com a desmesurada valorização das tecnologias, dependendo do grau de influência que tem sobre os alunos.

    Perfeito o que critica e – ainda que não desejasse, estou entre os que falam o percebido, que as tecnologias mudam pessoas.

    Temos novos sujeitos sociais se constituindo mas percebo que as contradições teoria X prática persistem e a cultura da proficiência taylorista, que parece introjetada nos pares, os faz agir como se não pudessem não saber. Os discursos de ‘aprendentes perenes’ não é bem assim. 😦
    Parece que alguns se acham meio que ‘prontos’.

    Ouso opinar que nem tod@s negam as tecnologias visando priorizar o ‘humano’… Alguns parecem mais preocupados em ‘espernear’ porque não dominam e sei lá porque não começam a aprender os ‘bons’ usos pedagógicos.

  2. Maria Goreti de Freitas Dias Prado Says:

    Sempre admirei a capacidade de o homem criar tantas e diversas coisas, é verdade! Sigo crendo que o que o homem pode sonhar ele pode criar!
    Abraços e parabéns pelo Boteco e seu conteúdo tão interessante e instigador!

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