Alfabetização Digital

No final do ano passado, fiz uma comunicação em evento promovido pela Universidad del Trabajo del Uruguay (UTU). O tema central do encontro dos educadores da UTU era alfabetização. Não a alfabetização em seu sentido original, mas a alfabetização em linguagens nos campos da ciência e da tecnologia. Me coube falar sobre alfabetização digital. Escrevi um paper que aborda em termos mais sitemáticos o que falei. Não posso divulgá-lo, pois a UTU ainda não o publicou. Posso, porém, colocar aqui o resumo que enviei aos meus amigos uruguaios antes de elaborar a versão completa da minha comunicação.

Para os interessados, segue cópia do meu resumo.

ALFABETIZAÇÃO E O DISCURSO TECNOLÓGICO DIGITAL. (Jarbas Novelino Barato). Resumo de artigo/apresentação.

No final dos anos de 1970, os computadores pessoais começaram a ser utilizados por cidadãos comuns.  O uso dos computadores exigia domínio do DOS (Disk Operating System) de cada tipo de máquina. Na época, evoluiu o entendimento de que era preciso universalizar um saber informático comum para facilitar acesso aos benefícios da popularização das tecnologias digitais. Em alguns casos, foi preciso dominar certos tipos de programação para possibilitar usos de pacotes em áreas como desenho, estatística, educação.

Nessa primeira fase predominou um entendimento de que a alfabetização tecnológica necessária acontecia no campo da sintaxe. O que se propunha era uma preparação para que as pessoas dominassem certas estruturas e regras de organização do discurso computacional. Mas, não ficavam claros limites entre domínio profissional da nova tecnologia domínio básico da mesma por parte do cidadão comum.

Com o avanço constante de interfaces mais amigáveis dos computadores, a dimensão sintática foi perdendo relevância. Com as novas interfaces, o usuário não precisava mais de interagir com computadores por meio de comandos (utilizando certas linguagens de metaprogramação). Surgiram meios de interação supostamente intuitivos para a comunicação homem/máquina. Janelas, ícones e menus passaram a ser ferramentas cujo funcionamento foi incorporado rapidamente pelos usuários. Mas, apesar da mudança, a natureza do problema ainda ficou no campo da sintaxe

De 1995 para cá houve uma alteração significativa, a internet mostrou que as novas tecnologias implicavam em mudanças profundas no tratamento, disseminação e uso de informação. Os aspectos sintáticos, ainda presentes, deixaram de ser importantes. Questões de aspecto semântico entraram em cena. Neste ponto ficou evidenciado que não enfrentamos apenas uma questão de cunho sintático. O que está em jogo é uma radical mudança de significados. Estamos, com diria Paulo Freire, diante de uma nova “leitura de mundo”. O impacto da tecnologia digital não se reduz a problemas de domínio de estruturas e regras de comunicação.

No plano da semântica, as questões do discurso ficam mais difíceis. As tecnologias digitais estão provocando mudanças de visão do mundo. Mas que mudanças são essas? Parece que a mudança fundamental vem ocorrendo com relação aos significados de informação e conhecimento. Facilidades de produção, disseminação e uso de informações estão criando comportamentos e crenças que precisam ser examinados, pois nem sempre há consciência das alterações que estão ocorrendo. Teme-se, como já reparou Alan Kay em 1995, que estejamos construindo uma sociedade muito informada, mas, com pouco conhecimento.

O cenário que temos hoje sugere que a categoria “conscientização”, em sua acepção freiriana, deve ser o foco de nossas conversas sobre alfabetização relacionada com o discurso produzido pelas tecnologias digitais.

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