Método anárquico

Nos meus últimos anos de sala de aula, investi bastante numa sugestão de dois amigos: Steen Larsen e Bernie Dodge. De maneiras distintas, ambos insistem na idéia de que a melhor forma de aprender é aquela que exige transformação de informação. Isso parece um preceito acaciano. Ledo (e Ivo) engano. As práticas educacionais, mesmo de gente que talvez acredite nas propostas de Larsen e Dodge, são caracterizadas por simples reprodução de informação, na direçao daquilo que Paulo Freire chamava de educação bancária.

Predomia no cenário educacional uma abordagem cujas palavras chaves são programa e matéria. O programa lista um conjunto de conteúdos que serão dados (surpervisores zelosos estão sempre  a conferir os diários de classe para saber se os professores estão cumprindo o programa!). A matéria é um conteúdo claramente definido que o professor entrega em pequenas doses (as aulas) aos alunos. Em períodos previamente definidos, os professores conferem por meio de provas se os alunos são capazes de reproduzir (há críticos ranzinzas que usam o verbo vomitar em vez de reproduzir) a matéria dada (dar matéria sempre foi uma expressão que me incomodou).

Não é fácil sair do reprodutivismo. Em parte porque os alunos no geral esperam que os professores deem matéria. Em parte porque dar matéria é uma atividade confortável para os docentes (vi muitas vezes, em locais onde trabalhei como  docente, quadros negros repletos de matéria, apresentada de modo muito organizado e com letra pedagógica). Para os aluno, matéria dada é uma segurança pois é “o que vai cair na prova”. Para os professores dar matéria, às vezes na forma de ditado, é uma atividade que não requer muito esforço e imaginação, além de funcionar como um modo seguro de exercer autoridade docente (“o mestre falou”).

Criar ambientes e desafios que podem favorecer transformação de informação é trabalhoso, exige imaginação, pode criar supostos problemas de disciplina, e nem sempre é caminho aceito pelos alunos.

Transformações de informação são favorecidas por  atividades que exigem trânsito de uma para outra forma de expressão. No geral ocorrem em desafios que solicitam produção de música, teatro, poesia, vídeo ou foto para sintetizar exposições encontradas num texto. Podem ocorrer também quando se solicita elaborar algo criativo a partir de um texto sintético.  Neste último caso, o que ocorre é uma expansão, não síntese de uma saber. Forneço um exemplo para tornar mais claro o que entendo por expansão. Em conversas sobre o conceito de conhecimento, uma atividade bem interessante é a de convidar os alunos para, em grupos, elaborarem algo criativo – geralmente uma teatralização com cinco minutos de duração, mostrando seu entendimento quanto ao seguinte verso de Paulinho da Viola : as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.

Minhas propostas de transformação de informação resultavam em apresentações entusiasmadas, criativas, bem humoradas, quase sempre barulhentas. Daí minha chamada para método anárquico. Os resultados, para alguns alunos e para coordenadores, poderiam ser vistos como aulas anárquicas, sem clareza, bangunçadas. Mas, insisti. Ás vezes acertei. Às vezes errei. Para docentes, propostas de transformação de informação são muito exigentes. De um lado, requerem muita criatividade. De outro, demandam trabalho árduo para vender o peixe para os alunos.

Uma coisa que sempre me surpreendeu em atividades de transformação de informações foi a imensa capacidade criativa dos alunos. Essa é uma riqueza que muitos profesores ignoram. Nos dias de hoje, há um número expressivo de alunos que utiliza com muita competência ferramentas digitais. Formas de expressão que envolvem foto, imagem, som e vídeo são praia da moçada. Talvez os alunos de hoje não escrevam bem (insisto no talvez), mas sabem se expresar muito bem no mundo ao qual Daniel Boorstin deu o nome de Sociedade da Imagem.

De vez em quando, ex-alunos meus se lembram de trabalhos de transformação de informação feitos alguns anos atrás, principalmente quando há registro do evento na internet. Fico orgulhoso. Afinal quem é que se lembra de um paper escrito para cumprir tabela (geralmente textos gerados em parceria com titio Google)? Ou, quem é que se lembra daquela prova semestral da disciplina X? Memórias de  trabalhos escolares são um sinal de que alguma coisa ficou, apesar da anarquia de produção e apresentação.

Este post foi motivado por uma mensagem publicada hoje no Face Book pelo meu ex-aluno Cauê, comentada por outro ex-aluno, José Roberto. Eles se referem à apresentação musical-poética, ocorrida nos idos de 2010, sobre O Amor capítulo de Cultura de Massas no Século XX, obra fundamental de Edgar Morin para o povo da área de comunicações. Vejam um dos resultados de meu esforço metodológico, com alunos que gostam de uma boa anarquia.

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