Rapidez, inteligência e sucesso

Há umas quatro semanas os jornais de São Paulo publicaram notícia de que pais estavam indo à justiça para que seus filhos ingressassem no primeiro ano do ensino fundamental  antes da idade estabelecida por lei. O fato é um dos sintomas de uma sociedade que tudo quer acelerar. Muitos pais pensam que, se iniciarem a educação formal com seis meses acima da idade mínima para ingresso no primeiro ano, seus filhos ficarão atrasados. Esses pais querem acelerar a educação de seus herdeiros.

Aceleração e velocidade são vistas como marcadores positivos de inteligência e sucesso. Consideramos mais inteligentes pessoas que resolvem problemas em tempo mais curto que a média. Essa convicção reflete-se em testes de conhecimentos, pois estes geralmente tem um tempo máximo de realização. Na vida profissional, consideramos mais brilhantes pessoas que ascedem na carreira em poucos anos.

Quando ingressei no Senac de São Paulo em 1973, a organização tinha um Divisão de Formação Acelerada (DFA). Tal divisão foi criada seguindo tendência sugerida por estudos da OIT (Organização Internacional do Trabalho). E qual era a sugestão? A OIT entendia que o mundo do trabalho estava mudando rapidamente. Por isso, a formação de trabalhadores não podia ser demorada. Era preciso preparar  mão-de-obra que acompanhasse uma economia em constante mudança.

Em todas dimensões do viver, a velocidade acabou se convertendo num valor indiscutível. E dá-lhe fast food, aviões supersônicos, TGV’s. Mas, acontece que a aceleração crescente ignora ritmos naturais da vida.

Contra o mito da velocidade, começaram a surgir movimentos que propõem um viver mais lento. Tudo começou com a afirmação dos prazeres do slow food, numa iniciativa que destacava as vantagens de preparação e ingestão de comida sem correria, sem pressões de compromissos que não deixam tempo para apreciar com gosto as artes da boa mesa. Do slow food as coisas evoluiram para o slow sex, slow medicine, slow music, slow cities e muitas mais propostas de ritmos que permitam um fruir mais humano da vida.

Apanhado muito bem feito do slow movement aparece num livro de Carl Honoré: Elogio de la lentitud. Li-o faz alguns anos. A obra é boa pedida para pessoas envolvidas com TIC’s. As tecnologias digitais reafirmaram um sentimento de aqui-agora que já estava presente na cultura de massas. Usá-las, cada vez mais, é visto como uma decorrência natural de um mundo que elegeu a velocidade como virtude cardinal. Honoré mostra que tal caminho nem sempre é saudável. A vida, ás vezes, exige pausas, exige tempo para pensar, tempo para desfrutar sem pressa certos prazeres cuja natureza demanda experiência que não se mede obssessivamente em segundos, minutos, horas ( na primeira metade do século passado, o filósofo Bergson introduziu um conceito – la durée – que guarda algumas semelhanças com a idéia de um tempo que não se submete ao relógio).

Carl Honoré fala sobre suas idéias e seu livro numa num vídeo TED que reproduzo aqui para os interessados.

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Uma resposta to “Rapidez, inteligência e sucesso”

  1. Doralice Araújo Says:

    Ah… mais uma visita e um prazer de aprender renovado, Jarbas. Apressar etapas jamais deu certo; lá adiante, quando menos se espera vem o tropeço, a dificuldade. Excelente tema para a postagem – e a composição estabelecida para bem oferecê-la aos visitantes do BOTECO merece o meu aplauso.

    Blogar é um verbo sujeito a um rol de requisitos; não basta apenas juntar palavras e imagens animadas ou não; é preciso bem arrumá-las em carinhosa atenção à reflexão diferenciada do leitor, senhor soberano da interativa ou não conversa. Você é mestre nessa costura bem ajustadazinha, meu amigo.

    Receba o meu abraço e a certeza da visita regular e sempre muito atenta.

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