Não há material didático à prova de professores

Tento ordenar meus papéis neste começo de ano. Queria colocar metade no lixo, mas sempre há alguma razão para conservar velhos escritos meus e de outros autores em minhas caixas de textos. Eles podem ser necessáriaos a qualquer momento. Com isso, escritos de dez, vinte, trinta anos ganham sobrevida. Mas, o momento de utilizá-los fica cada vez mais longe.

Alguns dos textos são curtos e, na época, poderiam ter sido publicados num blog. Esse é o caso, por exemplo, de um material que escrevi para reunião preparatória  de um dos Educando, evento anual que era promovido pela Sucesu/sp. Na ocasião decidimos realizar encontros preparatórios com  tom provocativo. Fui escalado para preparar um paper curto sobre capacitação de professores tendo em vista as novas tecnologias. Utilizei como inspiração uma frase de Tom Snyder: “nao há material didático à prova de professores”. Como acho que algumas das minhas provocações ainda cabem, reproduzo o velho paper aqui.

A escola que conhecemos – modelada no século XVI – é sobretudo uma promotora da tecnologia da imprensa. Porém, esta característica de nossas organizações escolares não é completamente explicitada. É verdade que nos escandalizamos com os pífios resultados do ensino do “ler e escrever”. E esse fracasso parace contrariar a hegemonia da tecnologia da impresna no espaço escolar. Mas, para além da capacitação em habilidades ideais no domínio do código escrito, a escola promove os valores associados à Galáxia de Gutenberg – sequência, lógica, história, exposição, objetividade, ordem e disciplina – e procura eliminar tecnologias concorrentes (sobretudo as tecnologias da imagem).

Quando examinamos a história da tecnologia educacional, um movimento que se estrutura com base na tecnologia da imagem nascida por volta da segunda metade do século XIX, constatamos que a escola:

  • Reduz os recursos de imagem a “meios auxiliares de ensino”.
  • Exerce um papel extremamente eficaz como máquina de moer novidades, domesticando, para citar um caso clássico, a televisão de uma tal maneira que esta se converteu em exemplo definitivo de deseducação.
  • Condena severamente todos os meios e formas de comunicação de massa.

É interessante notar que os educadores profissionais, para servirem à imprensa, não precisam saber que as linotipos estão agonizando, dando lugar à composição fria e convertendo os velhos linotipistas em uma espécie em extinção.

Com esta longa abertura, quero ressaltar os seguintes pontos:

  • Nosso paradigma escolar ainda está vinculado à Imprensa.
  • A escola promove, a partir da tecnologia que a sustenta, certos modos de ver o mundo.
  • Os profissionais de educação não são (nem precisam ser) especialistas em técnicas de produção.
  • A escola é um batalhão de elite na guerra contra os novos meios de comunicação.
  • Os educadores procuram domesticar os novos meios de comunicação.

Penso que as observações atrás registradas são completamente ignoradas quando se discute capacitação de professores, tendo em vista informática. Não se leva em consideração a guerra tecnológica. Tenta-se ensinar um sucedêneo de linotipia – linguagens de programação, aplicativos, etc. – para que os professores possam utilizar a nova tecnologia. Repete-se que o novo meio é um meio auxiliar de ensino. Todas essas providências têm como meta a domesticação dos computadores, reduzindo o potencial da informática a banalidades luxuosas e caras.

Não analisei, propositadamente, o papel dos professores como especialistas na promoção do saber. Provavelemente essa linha de análise poderia amenizar as seguintes provocações com as quais encerro esta comunicação:

  • Para um uso adequado de computadores em educação, apenas os bons professores são treináveis.
  • Os servidores menos qualificados da tecnologia da imprensa lutarão a última batalha contra a tecnologia da imagem.
  • Embora ainda resista, a escola que conhecemos tende a desaparecer.
  • No momento, boa parte dos usos de computadores em educação não capacitam professores e são estratégias para sabotar a informática.
  • Sem destruir a escola que conhecemos, há pouca esperança de ingresso consequente das novas tecnologias na educação sitemática.
  • Não há material didático à prova de professores.
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