A maçã e um novo pecado

Li You Are Not A Gadget, de Jaron Lanier. O livro é uma das obras resenhada em Mind Control & Internet, artigo publicado em junho passado no New York Review of Books. Lanier,  nome importante no campo da ciência da computação, faz uma crítica radical contra a tecnofilia triunfante.

Não vou fazer aqui um apanhado de You Are Not A Gadget. Espero ter tempo e disposição para fazer isso noutra ocasião. No momento quero destacar algumas observações do autor sobre vida e obra de Alan Turing.

Turing é o inventor virtual do computador. Não construiu qualquer máquina, mas concebeu o computador que você está usando e todos os computadores que ainda vão ser construídos. Além disso, ele foi um matemático brilhante cujas atividades tiveram importância fundamental durante a II Grande Guerra. Por isso é considerado um herói.

Apesar de seu heroísmo, Turing sofreu barbaridades. O governo britânico não aceitava a homossexualidade do grande matemático. Por isso obrigou-o a passar por um tratamento médico nada científico. Ele foi vítima de um preconceito fatal.

Deixo com Jaron Lanier a continuação dessa história

A maçã provoca nova perdição

Jaron Lanier em You Are Not a Gadget (p. 29-31)

Há um erro com origem que merece destaque. Alan Turing articulou-o pouco antes de seu suicídio.

O suicídio de Turing é um assunto delicado nos círculos de ciência da computação. Não gostamos de falar sobre ele, pois não queremos que nosso patriarca pareça uma celebridade de tablóides. Não queremos que sua memória seja trivializada por aspectos sensacionalistas de sua morte.

O legado de Turing no campo da matemática está muito acima de qualquer sensacionalismo. Sua contribuição foi extremamente elegante e fundamental. Ele nos presenteou com saltos criativos de invenção, incluindo os principais fundamentos que sustentam a computação digital. O mais alto prêmio no campo da ciência da computação, nosso Prêmio Nobel, recebe o nome dele.

A figura cultural de Turing deve ser reconhecida. A primeira coisa que deve ser entendida é a de que ele foi um dos grandes heróis da II Grande Guerra. Ele foi o primeiro “cracker”, uma pessoa que usa computadores para eliminar medidas de segurança do inimigo. Ele utilizou um dos primeiros computadores para quebrar um código nazista, o Enigma, que os matemáticos da Alemanha de então acreditavam que era inquebrável. O Enigma era decodificado pelos nazistas com o uso de um instrumento mecânico do tamanho de um maço de cigarros. Turing reconcebeu-o como um padrão de bits que poderia ser analisado num computador e abriu completamente o Enigma. Ninguém sabe como seria o mundo hoje se Turing não tivesse obtido sucesso.

A segunda coisa que é preciso saber sobre Turing é a de que ele era homossexual num tempo em que ser gay era ilegal. As autoridades britânicas, achando que estavam praticando um ato de compaixão, obrigaram-no fazer um tratamento médico com traços de charlatanismo que supostamente iria curar sua homossexualidade. Tal tratamento consistia bizarramente na infusão maciça de hormônios femininos.

Para entender como alguém poderia conceber tal plano, é preciso lembrar que antes do computador entrar em cena, a máquina a vapor era a metáfora preferida para explicações sobre a natureza humana. Toda aquela pressão sexual estava resultando em excesso e provocando funcionamento inadequado da  máquina; assim, a essência oposta, feminina, poderia balancear e reduzir a pressão. Essa narrativa deve funcionar como uma história que nos serve de alerta. O uso comum de computadores, como os eles são entendidos nos dias de hoje, como fontes e modelos de nós mesmos, é provavelmente tão confiável como o foi o uso da máquina a vapor nos tempos de antanho.

Turing desenvolveu seios e outras características femininas, e ficou terrivelmente deprimido. Cometeu suicídio ao comer uma maçã que ele envenenou com cianeto em seu laboratório. Um pouco antes de sua morte, o grande matemático presenteou o mundo com uma idéia espiritual, que precisa ser avaliada separadamente de suas conquistas técnicas. Trata-se do famoso teste de Turing. É muito raro o aparecimento de uma idéia espiritual; por isso o citado teste é outra mostra da genialidade de Turing.

Turing apresentou sua nova idéia no formato de um experimento radical, com base num jogo muito popular na era vitoriana. Um homem e uma mulher se escondem, e um juiz é desafiado a descobrir quem é quem, valendo-se da leitura de notas textuais enviadas pelos dois personagens longe de sua vista.

Turing substituiu a mulher pelo computador. Será o juiz capaz de descobrir quem é o homem? Se não, pode-se dizer que o computador tem consciência?  É inteligente? Merece direitos iguais?

É impossível para nós saber o papel que a tortura que Turing estava enfrentando na ocasião desempenhou na formulação do teste. Mas é inegável que uma das figuras chave na derrota do fascismo foi destruída, do nosso lado, depois da guerra, porque era gay. Não é estranho que sua imaginação ponderasse direitos de uma criatura diferente.

Quando Turing morreu, o software ainda estava num estágio inicial e ninguém sabia que ele  inevitavelmente iria se converter numa maçaroca. Turing imaginava uma forma original e cristalina de existência no reino digital. E eu posso imaginar que para ele seria um conforto projetar uma forma de vida independente dos tormentos do corpo e das políticas da sexualidade. É notável que a pessoa substituída pelo computador seja uma mulher, e que o suicídio de Turing ecoe a queda de Eva.

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