Cultura digital e conversação

Tive o privilégio de conhecer Marcelo Brasileiro. O leitor tem todo o direito de perguntar: quem era esse senhor? Respondo com duas informações. Ele era tio do Tom Jobim. Aliás, o Tom passou boa parte da adolescência e da juventude na casa do Marcelo. Nascido em São José do Rio Preto, Marcelo Brasileiro converteu-se num típico boêmio carioca, um homem da noite. Não se lembrava, me contou, de ter chegado alguma vez em casa antes das três da madrugada.

Marcelo era bom de conversa. Mais que isso. Era bom contador de histórias. Quando o acompanhava em suas vindas a São Paulo, eu ficava horas a ouvir sua encantadora prosa.

O tio do Tom Jobim era representante de uma arte em extinção, a arte da conversação, a arte da boa prosa. Suas histórias tinham humor, molho, surpresa. Seu vocabulário era extenso e rico. Sua fala tinha um ritmo e musicalidade muito agradáveis.

A arte da conversação era produto da cultura oral. Foi refinada durante milênios. Os poemas atribuídos a Homero, por exemplo, eram, na origem, cantos recitados por poetas populares que atuavam numa Grécia ainda analfabeta (cf. Daniel Boorstin em The Creators). Mas, ela foi perdendo terreno na medida em que avançava a cultura letrada. Esta última acabou monopolizando modos elegantes de contar histórias. A prosa oral não desapareceu completamente, mas foi perdendo o charme. Restaram bolsões para a arte mais sintonizada com a oralidade, nos ambientes boêmios, nos cafundós dos sertões.

Rádio e, mais tarde, TV voltaram a enfatizar a comunicação oral. E, na medida em que tais meios de comunicação ganharam espaço, surgiram novas expressões de oralidade na arte comunicativa. Mas, já não eram mais produtos de conversação como as histórias que encantavam ouvintes, como aquelas  contadas pelo boêmio Marcelo Brasileiro.

Temos agora novos meios de comunicação hegemônicos. Eles funcionam numa imensa rede mundial sustentada por computadores. A maior parte das conversações é mantida hoje em tal rede. Porém, não temos ainda uma arte de prosa na internet, seja em telinhas ou telões, seja em áudios de computadores ou celulares. Escrevi sobre isso, anos atrás, comentando a arte de contar estórias de Dona Cypriana, uma analfabeta genial que me encantava. Cópia integral do meu texto, aparecido em número comemorativo de Hipona, revista que publicávamos em nosso curso de filosofia  no início dos anos sessenta do século passado, pode ser encontrado aqui, em Páginas deste Boteco. Caso o amável leitor não queira ler integralmente meu velho texto, cito aqui um trecho:

Na área mais pobre do bairro pobre, a Caixa D’Água, morava Dona Cypriana, caipira autêntica de pele amarela e longos cabelos negros. Mulher sem filhos, beirando os setenta, ela era um ídolo da criançada. A adoração que devotávamos à velha senhora devia-se a uma arte perdida: a arte de contar estórias. Num casebre de taipa da Caixa D’Água, quase todos os fins de  tarde, um grupo de meninos e meninas, quietos e maravilhados, escutava estórias de príncipes e princesas, bichos falantes, bruxas, sacis, gigantes, Carlos Magno e outros heróis. Impressiona-me até hoje a beleza das narrativas, as palavras densas, os enredos engenhosos, o ritmo emocionante da “ação”, a caracterização inconfundível dos personagens das estórias contadas por Dona Cypriana.

Numa cultura predominantemente oral, as estórias, além de passarem valores, crenças e modos de ver o mundo, eram um exercício maravilhoso de imaginação. Dona Cypriana era uma artista e nós, seus ouvintes, aprendíamos com ela a sonhar e imaginar para muito além das duras condições de vida da Santa Cruz.

Este post surgiu de pensares que me vieram depois de ouvir um causo do Geraldinho Nogueira, gênio da prosa oral, inserido aqui ainda há pouco com o título “Impacto das novas tecnologias: o causo do rádio”.

Marcelo, Cypriana e Geraldinho são referências importantes se quisermos refletir sobre a arte da conversação no mundo digital. Não se trata de reproduzi-los digitalmente. Trata-se de aprender com eles imaginação, humor, uso de recursos com sensibilidade, empatia com ouvintes. Temos muito que  aprender. Ao contrário de tecnófilos que acham maravilhosas quaisquer produções digitais, penso que ainda não fizemos arte. Nada no ar se assemelhe às maravilhas dos grandes artistas da prosa oral. E minha impressão é referendada por  um dos gênios da realidade virtual, Jaron Lanier, em seu livro recente, You Are Not A Gadget.

Para diversão dos freqüentadores deste Boteco e para que possamos todos apreciar boa prosa, trago para nosso espaço de conversa mais uma performance do Geraldinho Nogueira: O Causo da Bicicleta.

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Uma resposta to “Cultura digital e conversação”

  1. Adauto Says:

    Muito bom… Um ótimo contador de causos!

    Há alguns anos ganhei de uma amiga o CD “Trosa, Prosa e Viola”, do Geraldinho (na realidade foram os arquivos MP3, mas essa é outra história). Ri com gosto. Fiz uma cópia para meu pai, entreguei-lhe e pedi que noutro dia me dissesse o que tinha achado.

    Quando esse dia chegou, não só foi ótimo ver o quanto ele gostou – literalmente chorou de rir – como, melhor ainda, do alto dos seus setenta anos começou a buscar pela memória os causos dum camarada da época dele e que “falava igualzinho esse caboclo”…

    Enfim, voltando ao tema do post, concordo que temos ainda muito que aprender com essa quase perdida arte de simplesmente contar um causo – uma história, verídica ou não, contada sem pressa, descendo às minúcias nos momentos certos, dando volteios e boleios, mas sem nunca perder o interesse.

    Longe desse nosso interiorzão brasileiro de chão de terra batida, acho que só mesmo nos botecos “pé sujo” da vida ainda é possível encontrar uns capiaus das antigas que têm um proseio nesse estilo (eu mesmo conheço alguns por aqui).

    Mas tá cada vez mais difícil.

    Uma verdadeira DIFICULIDADE…

    🙂

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