Aprendizagem Cooperativa e WebQuests

Um dos princípios orientadores do modelo WebQuest é a aprendizagem cooperativa. Idéia atraente, mas bastante desafiadora quando tentamos concretizá-la.

Exemplo clássico de WebQuest que apresenta boa sugestão de aprendizagem cooperativa é Conflict Yellowstone Wolves. Trata-se de um trabalho pioneiro, elaborado poucos meses depois que Bernie Dodge lançou a idéia de WebQuest em 1995.

A proposta de estudo parte de um caso concreto. Lobos cinzentos das Montanhas Rochosas, espécie em extinção, foram reentroduzidos no Parque Nacional de Yellowstone. Fazendeiros no entorno do parque, políticos e outros agentes sociais resistiram à medida. Alguns grupos sociais, sobretudo ambientalistas, aprovaram-na. Forças contrárias à presença dos lobos na região conseguiram parecer favorável na justiça. Um juiz determinou que os lobos e suas crias fossem retirados de Yellowstone. Ainda bem que os lobos continuaram a viver no parque.

A tarefa da WebQuest explora uma questão de consenso. Os alunos são convidados a escrever um documento que defenda a permanência dos lobos no parque, articulando pontos de vista dos fazendeiros, ambientalistas, políticos locais e amantes da vida selvagem. Assim, em vez da situação conflitiva que levou fazendeiros e aliados à justiça, a tarefa proposta exige uma solução que leve em conta interesses diferentes, mas preservando, em habitat próprio, uma espécie ameaçada.

Conheço a citada WebQuest há muito tempo e já tive oportunidade de conversar sobre ela com Bernie Dodge. Mas, acho que nunca me dei conta de como tal trabalho ilustra um objetivo fundamental em educação. Hoje, ao ler um trecho de The Most Human Human, de Brian Christian, fiquei convencido de que não damos à aprendizagem cooperativa o devido destaque em educação.

Traduzo um trecho do tópico em que Brian Christian discute a matéria:

Fico de coração partido ao ver que muitos “jogos” de comunicação disponíveis para estudantes de nível médio – principalmente debates – apresenta conversação no seu modo adversarial, soma-zero, no qual enfraquescer o argumento de alguém é bom para fortalecer seu próprio argumento. Além disso, as metáforas que utilizamos para descrever debates e discordâncias em nossa cultura são quase todas exclusivamente militares: defender uma opinião, atacar uma posição, recuar para uma posição mais fraca numa tese, confrontar uma acusação com outra. (p. 179)

O modelo de argumentação na cultura americana é uma famosa série de debates entre Douglas e Lincoln. Tais debates aconteciam em lugares públicos, sobretudo feiras e exposições. Duravam horas, e ambos os advogados atacavam posições do outro. A platéia se comportava como público de auditório de nossas TV’s, vaiando e aplaudindo seus favoritos. Neil Postman, num de seus livros, narra tal história e destaca uma de suas qualidades: a capacidade das pessoas para acompanhar, horas seguidas, argumentações bem feitas [coisa hoje impossível, por exemplo, numa sala de aula]. Mas, como observa Christian, o uso dos  debates Douglas-Lincoln como exemplo de argumentação reforça tendência que desconsidera a necessidade de conversas na direção da cooperação. Volto ao autor:

Proponho algo anti-Douglas-Lincoln. Dois lados recebem um conjunto de objetivos distintos e não obviamente compatíveis: um grupo, por exemplo, deverá se dedicar a maximizar a liberdade individual, e o outro grupo deverá se dedicar a maximizar a segurança individual. Os dois grupos recebem a solicitação de colaborar dentro de um campo restrito, um projeto de lei; mais especificamente: uma nova lei com cinco itens sobre controle de armas. (p. 179-80)

Brian Chrisitian descreve, a seguir, caminho que levará os dois grupos a cooperarem no final do processo para chegar à melhor lei possível, conciliando linguagem e conteúdo.

Ao ler o texto de Christian fiquei me perguntando se nas escolas os professores ensinam argumentação para o consenso. Minha resposta foi um NÃO. Em nossa cultura, vemos argumentação como forma de derrotar adversários, usamos no caso uma linguagem de guerra. Esse uso de linguagem belicosa quando falamos em elaborações de argumentos intelectuais já mereceu uma análise interessante em Metaphor We Live By, de Lakoff e Johson. Os autores mostram que ela vem de longe e é uma marca dos idiomas ocidentais. A escola reflete essa cultura.

Volto às WebQuests. A partir de uma leitura das observações de feitas em The Most Human Human, acredito que poderemos dar maior importância ao princípio da aprendizagem cooperativa em WebQuests. Esse tipo de aprendizagem não se reduz a vantagens didáticas informadas pelas descobertas do construtivismo. Ele é também um princípio pedagógico que pode preparar nossos alunos para uma cidadania colaborativa. Para tanto é necessário criar, no âmbito escolar, diversas situações conversacionais em que acordo, articulção de diferentes pontos de vista, consenso sejam necessários. Essas situações, como sugere Bernie Dodge, precisam ser ‘autêncicas’. Ou seja, precisam corresponder a situações que podem ser encontradas extra-muros escolares.

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