Obesidade Informacional

Para conversas sobre buscas de informação na Internet,  fiz várias vezes um exercício com meus alunos em laboratórios de informática. A atividade começava com um pedido: “pesquisem na Internet Teoria da Evolução”. Para minha surpresa, em buscas no Google, tendo como ponto de partida a expressão Teoria da Evolução, meus alunos obtinham individualmente números diferentes. Eu achava que tais diferenças se deviam a uso de diferentes estratégias de busca. Mas, não. Todos ou quase todos os alunos estavam digitando exatamente o que eu colocava no quadro branco. Acabo de aprender que as diferenças observadas se deviam à personalização introduzida e aperfeiçoada pelo Google desde o final de 2009. Daquela época para cá, nossas buscas na Google são influenciadas pelos dados que aquele buscador tem sobre cada um de nós.

A personalização de buscas na Internet é um dos aspectos analisados por um livro recente, The Filter Bubble: What the Internet is hiding from you. Comecei a ler essa obra hoje e pretendo comunicar em vários posts minhas impressões de leitura. Começo já, com uma citação de Danah Boyd, registrada pelo autor, Eli Pariser, na página 14:

Nossos corpos são programados para consumir gordura e açúcares porque estes são raros na natureza… De certa maneira, somos biologicamente programados para estar atentos para coisas que nos estimulam: conteúdo vulgar, violento ou sexual, e mexericos que são humilhantes, embaraçosos ou ofensivos. Se não tomarmos cuidado, acabaremos desenvolvendo um equivalente psicológico para obesidade. Corremos o risco de consumir conteúdo que trará pouco benefício para nós e para a sociedade toda.

A fartura de informação que vem aumentando geometricamente não é necessariamente um benefício, assim como não é saudável o crescimento impressionante de cadeias de fast food mundo afora. Com a personalização das buscas, o perigo da obesidade informacional aumenta. Os intérpretes inteligentes do Google e de outras ferramentas da Internet selecionam conteúdos adequados ao nosso gosto. E da mesma forma que nosso organismo se delícia com comidas gordurosas e açucaradas, nossa psique ficara satisfeita com informações que reafirmam nossos valores pessoais, nossas crenças, nosso modo de ver o mundo.

A coisa é mais preocupante ainda. Não percebemos com clareza a obesidade informacional. No geral, achamos que nosso grande consumo de informação é per se uma vantagem. Consequências disso para aprendizagem são grandes. Aprender acontece quando nos confrontamos com coisas que nos fazem mudar. Mas, se as informações que consumimos apenas reforçam nossas crenças, pouco ou nada de novo passa a integrar nossas estruturas de pensamento.

Educação não é reforçar conformidades, é apresentar situações que podem incomodar. Infelizmente a personalização das buscas é conformista. Nessa direção, Pariser observa que o resultado de buscas de um republicano serão muito diferentes dos resultados de buscas dum democrata. Para um e outro, o buscador irá selecionar informações adequadas a um perfil definido por preferências pessoais.

Adianto aqui a primeira nota de leitura de Filter Bubble. Voltarei ao livro e a temas que ele apresenta em posts futuros.

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11 Respostas to “Obesidade Informacional”

  1. Marli Says:

    Nossa, professor Jarbas! Essa informação é nova pra mim. O que eu sabia sobre os buscadores é que usavam uma técnica chamada pagerank, que avaliava a relevância das páginas encontradas. A maioria das vezes essa relevância era determinada pelo número de visitas da página ou pelo número de links atribuídos a ela. Como será que funciona esse monitoramento de nossas preferências? Talvez a convergência entre as ferramentas seja um facilitador. Abraço!

  2. Conceição Rosa Says:

    Olá professor

    Minhas vivências na escola básica despertam meu interesse pelo assunto. Por coincidência – ou não, já que sigo outros blogs – vi alguns vídeos que dialogam com a questão da “apropriação” da informação na rede. Os vídeos são da conferência de Pierre Levy no 3º Simpósio de Hipertexto (UFPE) e estão dispostos no seguinte endereço: .
    Concordo com a Marli, talvez a convergência de ferramentas facilite o monitoramento, e creio que a utilização de diferentes plataformas – tais como diferentes sites de busca – pode dar mais variedade às nossas opções.
    No ambiente da sala de informática da escola, em que os computadores não são pessoais e já que são múltiplos os usuários, os resultados de busca – mesmo em um único buscador – também são mais variados. De qualquer forma, cada usuário acaba por imprimir em cada computador uma “marca” de pesquisa ao longo de um período.
    Mas Pierre Levy, na conferência, quanto à gestão do conhecimento, fala sobre a necessidade de filtrar manualmente (mentalmente) as informações que nos chegam após a utilização dos filtros automáticos dos buscadores da web. Este é um exercício que vejo cada vez mais complexo para os alunos, diante de tanto uso aleatório e voltado prioritariamente para o entretenimento.

    Aguardo as próximas postagens sobre o tema. Gostaria de conversar mais sobre a obesidade das informações na rede.

  3. Suzana Gutierrez Says:

    Oi Jarbas

    Nem sempre os controles vem de fora, não é? Estas amarras quase invisíveis ficam fora das críticas que se faz às tentativas de controlar a internet.
    Escrevi sobre isso já (http://www.gutierrez.pro.br/2009/02/pesquisa-auto-referente/), pois, em termos de pesquisa, encontro cada vez mais dificuldade em ultrapassar os bloqueios dos filtros.
    Estes vão estabelecendo camadas bem delimitadas as informações.

    abração!

    • jarbas Says:

      Oi Su,

      Acabo de ler o seu texto. Ele antecipa observações feitas pelo autor de The Filter Bubble. Ótimo.
      Parece que a ‘personalização’ das buscas no Google é ignorada pela maioria dos usuários. Temos aqui um novo uso para o conceito de alienação. Temos um imenso grupo de usuários contentes que ignoram que a mercadoria do Google (assim como de outras ferramentas) são as pessoas, não a informação.

  4. Suzana Gutierrez Says:

    Interessante esta tua afirmação sobre a ‘mercadoria’ dos SRS. Usei isso na minha tese. Os verdadeiros clientes do Facebook, G+, etc são as empresas que têm acesso a nossa ‘colaboração’.
    O usuário trabalha de graça 🙂

  5. Links da Semana | Biosfera MS Says:

    […] Obesidade informacional […]

  6. Pedro Moreira de Godoy Says:

    Esta ferramenta da Google será o crime do século à criticidade. Se os jovens de hoje já são mimados por sí só, pois suas famílias, no geral, buscam a superprotegê-los com a teoria do “não bate que traumatiza”, Agora, a Google Inc. quer não traumatizar os adolescentes e adultos do amanhã, evitando que eles encontrem informações que eles não “gostem”. É o final dos tempos isso!

  7. Pedro Moreira De Godoy Says:

    Esta ferramenta da Google será o crime do século contra o pensamento crítico. Se os jovens de hoje já são mimados por si só, pois suas famílias, no geral, buscam superprotegê-los com a teoria do “não bate que traumatiza”. Agora, a Google Inc. quer não traumatizar os adolescentes e adultos do amanhã, evitando que eles se deparem com informações que não “gostem”. O ser humano tenderá a viver numa bolha de ilusão… Bem vindos ao prenúncio do final dos tempos do pensamento crítico!

  8. carlos nepomuceno Says:

    Jarbas, me parece, e o Levy está indo nessa direção que o caminho é realmente a filtragem, mas o problema é a falta de controle de como é feita e a nossa capacidade de interferir, que é o que diz nosso amigo no livro….

    Será a próxima etapa, quando começaremos a exigir interferência nestes algorítimos, grato pela discussão.

  9. Paula Ugalde Says:

    Jarbas, já havia lido e indicado o excelente post. Volto para buscar o link para citar.
    Aproveito comentar algumas percepções, agora que penso isso:
    Quando iniciei a pesquisar na web, refletia as informações e buscava conhecer as ideias de outros mas acabava me ‘perdendo’ em meio as tantas e ao final estava cansada.
    Aprendi a identificar perfis de alguns autores, pseudoautores, ‘inspirados’ e plagistas mesmo. A cada boa leitura, buscava aprofundar lendo os autores originais – havendo.
    Compreendi que não é por convergir com as ideias de um autor sobre determinado tema, que me sirva tudo que indica. Adquiri o hábito de procurar contraideias, buscando “críticas a tal…”;)
    Agora penso como os intérpretes inteligentes fazem para me ajudar. 😀
    Opino que nossa geração [imigrantes digitais e com DNA conteudista], busquemos conhecer o maior número de informações possíveis. E que além dos “efeitos colaterais” mencionados pode ser a ‘outra’ obesidade, por passarmos no pc.

    Importante o que escreve, da necessidade da consciência que acumular informações, via leituras superficiais, não contribui para a redução das incertezas e agradeço as sugestões para gestá-las.

    Concordando que “Educação não é reforçar conformidades, é apresentar situações que podem incomodar.”, indago o que diria a havendo acadêmicos que buscam contraideias e desejam mais nos debates, tendo os cursos prazos, além de o aceite poder trazer outros entendimentos, diferenciados do proposto?!
    Grande [ ]! 🙂

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